Quem esteve presente neste jantar, principalmente quem se sentou ao fundo da mesa, lembra-se bem de como as coisas se passram. Esta acta ainda hoje é motivo de discussão, dez anos passados. Se a memória dos outros presentes, nem sempre nítida, não chegasse para me defender de acusações, há agora o filme, o filme que foi feito deste jantar e onde a cena registada em acta e que gerou a controvérsia não deixa margem para dúvidas. A João ria como uma perdida dos disparates que se diziam. Só ao ler a acta, talvez mais de um ano depois, se recusou a assinar e escreveu por cima «é mentira!»
Há tempos mandei passar o filme a DVD. Como me chegou às mãos já muito em cima do Natal, não pude na altura fazer cópias, exceptuando uma para oferecer ao Manel, acabada à pressa já na manhã de 24 de Dezembro. A seu tempo, todos os que estiveram presentes no jantar terão a sua. E os outros também, claro, é só pedirem.
Aqui fica a acta.
Acta n.º 11
No dia vinte e sete de Março de mil novecentos e noventa e oito, pelas vinte horas e trinta minutos, reuniu na Sede provisória sita no restaurante Lumar, na Rua do Conde, em Lisboa, a Assembleia Geral Ordinária da Associação das Tágides Caducas e dos Adamastores Zarolhos.
A Ordem de Trabalhos agendada primava pela singeleza, circunscrevendo-se a:
1. Admissão de novos Associados;
2. Comer o melhor possível;
3. Beber tanto quanto possível;
4. Cortar na casaca dos ausentes (ou dos presentes sentados a uma distância considerada prudente) o mais possível.
Os trabalhos foram iniciados com a aprovação por unanimidade da admissão de mais um membro, Luís B; o novo Associado, numa atitude que impressionou deveras a Assembleia pelo que denotava de empenhamento, antecipou a sua vinda do estrangeiro - ilhas Canárias - onde se encontrava em trabalho, com o intuito único e exclusivo de estar presente à hora enunciada na convocatória.
Foram seguidamente votadas e aprovadas as costumeiras moções de censura aos membros faltosos, cuja ausência era, na maior parte dos casos, injustificada e/ou injustificável, excepção feita aos Associados João V., Júlio e Zé Eduardo, que atempadamente tinham exprimido como cabia o seu profundo pesar pela não comparência, apresentando desculpas satisfatoriamente plausíveis.
O Associado Manel S. P. leu à Assembleia uma tocante missiva da Associação-Mãe, a vetusta e veneranda Associação dos Antigos Alunos do Liceu Camões, que a ninguém deixou indiferente e fez mesmo assomar uma ou outra discreta lágrima nalguns olhos mais sensíveis. A dita epístola relatava em cores dramáticas a pungente história de uma relíquia de todos querida, o histórico piano do nosso velho Liceu, à beira de se desfazer em fanicos se lhe não acudissem rápida e eficazmente com uma reparação delicada e dispendiosa, e exortava cada antigo aluno a abrir os cordões à bolsa para um donativo.
Tal apelo não levantou qualquer polémica, uma vez que os Associados foram unânimes em considerar que seria criminoso não envidar todos os esforços para salvar tão sagrado instrumento, cujo teclado tinha sido durante tantos anos martelado pelas inefáveis mãos do inesquecível Prof. Três Dedos, estimável figura de saudosa memória e inexaurível fonte de gracejos, nem sempre os mais caridosos.
Assim sendo, e não querendo os Associados deixar os seus créditos por mãos alheias, acometidos que estavam daquilo que, não fora o objecto de tal dislate merecedor de todas as loucuras, poderia ser considerado um autêntico acesso de prodigalidade, foi aprovada por unanimidade e aclamação uma proposta que fixava a contribuição individual em quinhentos escudos. Sabendo que eram treze os Associados presentes, torna-se dispensável registar o montante assim reunido, do qual a redactora da presente acta tem uma vaga ideia, mas que se abstém de precisar (a referida Associada seguiu Letras, tendo tido sempre fraca cabeça para contas).
No meio da irreverente truculência que costuma pautar as suas reuniões, prosseguiu a Assembleia em atmosfera decibelicamente ofensiva, como demonstravam com rara eloquência os semblantes carrancudos dos demais clientes do restaurante.
Ficou esta Assembleia indelevelmente assinalada pelo facto memorável e histórico de, pela primeira e gloriosa vez, terem os seus trabalhos sido registados para a posteridade, mercê de uma câmara de vídeo. A Associada Teresa importunou tudo e todos (a sua manifesta falta de habilidade fê-la tropeçar numa cadeira e estatelar-se em cima de um grupo que passou de atónito a indignado em menos tempo do que leva a dizê-lo), mas lá foi acompanhando o desenrolar da Assembleia, com graus variados (muito variados) de cooperação e boa vontade por parte dos seus confrades.
Instados a pronunciar-se sobre os trabalhos em curso, proferiram os diferentes Associados declarações dignas de passar ao bronze. Senão, vejamos:
Artur: «Estou muito contente por estar aqui» – súmula de dois minutos e dezoito segundos de muito palrar.
Luís B: «Estou muito contente por estar aqui. Até porque ouvi dizer que, na minha qualidade de recém-Associado, me vão pagar o jantar» (tamanha ingenuidade provoca algumas gargalhadas sardónicas nos mais frontais e subtis risinhos de mofa nos restantes).
Clara: «Estou muito contente por estar aqui... se bem que um bocado apreensiva. É que já recebi ameaças de represálias por ter faltado ao último jantar... (“e ao outro também” – voz-off).
José Pedro: «Estou muito contente por estar aqui. Não fui ao jantar do Maracanã porque estava no Brasil (“mas então acompanhaste-nos em espírito e estás perdoado”, comenta espirituosamente uma voz não identificada), não fui ao outro porque... já não me lembro.
António: «Estou muito contente por estar aqui. Não me chateies.»
Pedro S.: «Estou muito contente por estar aqui. É o meu segundo jantar. Adorei o primeiro e este vai pelo mesmo caminho.»
Cristina: «Estou muito contente por estar aqui.» Silêncio. Há uma pausa embaraçosa, enquanto a câmara fica à espera. Mas o poder de síntese desta Associada é de todos conhecido. Percebendo que dali não vem mais nada, a câmara desvia-se.
Vanda, esfusiante: «Olá!! Descobri que temos aqui mais um membro do Coro do Liceu!!» Alvíssaras, desencalhámos! – diz a improvisada e destalentosa repórter com os seus botões.
Depois de devidamente recordado o inestimável contributo da Associada Clara para a celestial afinação do nefasto e, nas últimas Assembleias, omnipresente Coro, a reportagem prossegue. Ou tenta, porque o Associado António resolve exigir as atenções da câmara para prestar uma declaração de conteúdo dúbio e intenção clara. O dito Associado fez questão que constasse em acta que ele e a Associada Vanda «iam na queca... de camarão». Será talvez útil referir que o restaurante se regia pela gastronomia brasileira, oferecendo portanto a inevitável moqueca.
A reportagem é retomada.
Eulália: «Estou muito contente por estar aqui. Até acho que vou fazer strip-tease» – a líbido desta Associada é proverbial. A declaração provoca reacções diversas, que vão do recatadamente chocado (sector feminino) ao vagamente esperançado (sector masculino). Porque são mais as vozes do que as nozes, a coisa não se concretiza.
Ana Amélia, vulgo Nucha: «Estou muito contente por estar aqui, mesmo estando deprimida por ter ficado sem emprego.» – ouvem-se murmúrios de encorajamento e apoio em redor.
Manuel: ...
Manuel: ?
Ó MANEL !!
O Associado não tuge nem muge, esboça apenas um gesto a significar inequivocamente «vira essa coisa para lá!». Perante tão revoltante falta de colaboração, a câmara desvia-se.
Maria João: «Estou muito contente por estar aqui. Enquanto o pau vai e vem... folgam as costas!» – não fora o facto de os olhos inchados e equimoses várias serem sobejamente esclarecedores, este desabafo da Associada teria sido suficiente para levar ao conhecimento da Assembleia algumas dificuldades conjugais de pequena monta.
A conversa desvia-se para temas mais alegres e susceptíveis de elevar o moral, a repórter desliga a câmara e volta para o seu lugar e, como sói dizer-se... «foi a reportagem possível».
Os trabalhos prosseguiram e alongaram-se. Um significativo núcleo de Associados decidiu de sua livre e espontânea vontade promover uma assembleia paralela de cariz marcadamente musical, tendo percorrido ao longo de uma interminável meia-hora toda a via sacra dos cantares revolucionários tão ao gosto dos seus verdes anos (foi notada com compreensível estranheza a participação do Associado António nestas cantorias), com breves escorregadelas para a música brasileira – certamente por influência do restaurante.
Uma vez concluídos os trabalhos, manifestaram alguns Associados poderosas reservas quanto a um ou outro ponto obscuro e não totalmente esclarecido dos mesmos, o que os forçou a prolongarem os debates no vizinho Stone’s. Assim sendo, deslocaram-se os Associados Eulália, Nucha, Teresa e António para o citado estabelecimento, onde a primeira, estimulada pela visão de tantos espectadores, deu rédea solta ao seu fogo interior, brilhando com luz própria e entregando o corpo ao prazer da dança em local que não o destinado para o efeito.
Altas horas da madrugada, deram-se por encerradas as deliberações e os Associados rumaram ordeiramente ao aconchego dos seus lares, tendo ainda conseguido, antes de dispersarem para se lançarem avidamente nos braços de Morfeu, redigir esta acta que, depois de lida e aprovada, vai por todos ser assinada.
O Presidente - Nucha
O Presidente - Vanda
O Presidente - Clara
O Presidente - Eulália
O Presidente - Maria João
O Presidente - Cristina
O Presidente - Teresa
O Presidente - Pedro S.
O Presidente - Luís B.
O Presidente - Artur
O Presidente - José Pedro
O Presidente - António
O Presidente - Manel

4 comentários:
11 de Junho de 1975
- “Para as crianças das aldeias, os militares levaram livros da biblioteca de Mortágua. Para o município e Juntas de Freguesia, passaram a ser levados, com grande frequência, problemas que afectam as localidades do concelho. Em conjunto, Forças Armadas e autarquias locais colaboram na solução desses mesmos problemas”.
(“Povos e aldeias renascem e integram-se no processo revolucionário”, in Diário Popular)
- São fixados os limites a observar na venda, a residentes em território nacional, de notas e moedas estrangeiras: 20 contos por pessoa maior de 18 anos. (Portaria nº 359/75)
- É inaugurada a Feira das Indústrias de Lisboa, desta vez organizada pelos trabalhadores, que desde Maio ocupam as instalações da FIL. Dos pavilhões existentes são de realçar os da URSS, Polónia, Argélia e Itália.
- Realizou-se uma assembleia conjunta de militares e civis, no Grupo de Detecção, Alerta e Conduta de Intercepção (GDACI). A iniciativa, com marca do PRP/BR, é promotora dos Conselhos Revolucionários de Trabalhadores, Soldados e Marinheiros (CRTSM).
ALERTA, CAMARADAS! INTERCEPTEMOSS!
12 de Junho de 1975
- “O que se passou, ontem à noite, na televisão, foi extremamente grave. Três homens com razão foram batidos por um homem que a não tinha. Diogo Freitas do Amaral não só passou um “Responder ao País”, como passou reforçado perante a parte do país menos politicamente afoita”.
(Democrata pluripartidário, com reservas, Artur Portela Filho, in Jornal Novo)
- Nomeação da Comissão do MFA, prevista no pacto constitucional, encarregue de acompanhar a elaboração da Constituição. (Resolução do Conselho da Revolução)
- É criada a empresa pública Rodoviária Nacional. (Decreto-lei nº 288-C/75)
- É concedido o grande colar da Ordem do Infante D. Henrique a Elena Ceausescu, esposa do Presidente da República da Roménia. (Decreto-lei nº 288-B/75)
POVO AMIGO, O ROMENOO!
13 de Junho de 1975
- Os militares procederam a um balanço no final de um mês da Campanha de Dinamização Cultural Maio-Nordeste. Apesar de não terem sido recebidos com entusiasmo transbordante, o balanço é positivo. Dizem, porém, que verificaram muitos casos “em que as professoras primárias não estavam interessadas no processo revolucionário que vivemos, pelo que nunca tinham falado às crianças no 25 de Abril ou no MFA, tendo as crianças, nalguns casos, recebido as equipas militares com a saudação fascista”. E referem os padres como “elementos reaccionários a nível da aldeia”, embora os considerem “essencialmente desinformados e alheados do processo”.
- O PCP propõe na Assembleia Constituinte que as Assembleias Populares (onde se farão representar comissões de trabalhadores, estruturas sindicais de empresas, sindicatos, ligas camponesas, associações de pequenos comerciantes e industriais e associações de estudantes) se transformem em “organismos permanentes de intervenção popular”. Função deste organismo, “em estreita ligação com o MFA”: assegurar “a vigilância face às forças contra-revolucionárias e a sabotagem”; “defesa de instalações várias do património do Estado democrático”; e cooperação com os militares “em acções de defesa da Revolução”.
(in O Século)
- “Beethoven, Vivaldi e Frederico de Freitas (...) foram ontem executados para os operários e famílias da Fábrica de Contraplacado Seicla. Quem os levou lá foi a Orquestra da Gulbenkian, numa primeira experiência que, depois, se irá prolongar pelo Alentejo. (...) Enquanto Teresa Portugal arrancava do violencelo um pouco de Vivaldi, no contexto da orquestra, o verde-mato dos soldados do Copcon, chegados de Queluz, “invadiu” o barracão da Seicla”.
(“Músicos despiram a casaca e executaram Beethoven para operários ouvirem”, in O Século)
BEETHOVEN EM CONTRAPLACADO REVOLUCIONÁRIOO!
14 de Junho de 1975
- Durou pouco tempo a primeira intervenção de ontem à noite no comício convocado pelo Partido Comunista de Portugal (Marxista-Leninista) para o pavilhão do Académico, do Porto. Elementos não identificados, mas proferindo palavras de ordem conhecidas (“Em frente pela reconstrução do Partido Comunista”; “Nem Cunhal, nem Vilar, democracia popular”), expulsaram aos empurrões e à pancada os militantes presentes. Houve vasos e cadeiras pelo ar, passando a batalha campal para o exterior do pavilhão.
- Em conferência de imprensa, Manuel Serra exige “a ilegalização do Expresso e do Jornal Novo”. Para o dissidente do PS e líder da FSP, o semanário “é o órgão que mais tem colaborado na intoxicação da opinião pública”. A proposta é apoiada por Mário Castrim e Miguel Urbano Rodrigues, pelo ministro da Economia, Mário Murteira, e por um plenário de trabalhadores da informação.
- “Temos que definir qual é a liberdade revolucionária. Qual é o pluralismo admissível. Não podemos continuar a dar liberdade aos exploradores e aos explorados, aos reaccionários e aos revolucionários, aos opressores e aos oprimidos”.
(Convocatória do Sindicato dos Profissionais de Artes Gráficas de Lisboa)
LIBERDADE SELECTIVAA!
15 de Junho de 1975
- “Mil colonos portugueses desembarcaram ontem no cais de Alcântara. Cerca de 199 mil aguardam passagem para Lisboa”.
(in O Primeiro de Janeiro)
- “O PAIGC, que é um partido de extraordinária implantação (...) quando nós abandonámos a Guiné (...) fuzilou imediatamente e enterrou dezenas e dezenas de contra-revolucionários (...). E não houve uma única linha nos jornais (...).”
(Camarada, pedagogo, visionário e grande democrata Otelo)
- “Eu, às vezes, chego a pensar que a nossa inexperiência revolucionária, enfim, teria sido melhor se, em 25 de Abril de 74 encostássemos à parede ou mandássemos para o Campo Pequeno umas centenas ou uns milhares de contra-revolucionários, eliminando-os à nascença. Tenho a impressão que neste momento a contra-revolução já não existia, pelo menos por medo”.
(Idem)
ASSIM, SIM! TEMOS DEMOCRACIAA!
E prontosss!... O PREC está despachado até domingo, dia em que regressa da sua Campanha de Dinamização Cultural "Junho-Algarve".
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