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Liceu de Camões, 1972-1977
Contar cinco anos de Liceu (sempre com maiúscula, é o nosso Liceu) entre 10 a 15 linhas é coisa impossível, que 10 ou 15 folhas, frente e verso, não chegariam nem para começar a contar a marca que esses cinco anos deixaram – pelo menos ao meu grupo de amigos, que continua a reunir em jantares trimestrais que são uma explosão de alegria, jantares em que voltamos todos, estranha viagem no tempo, aos 14 anos que um dia tivemos e a um qualquer intervalo grande, o de 20 minutos, sempre o mais apetecido. Os nossos jantares são um perpetuar de coisas que nem sempre se conciliam facilmente com as nossas vidas cada vez menos simples: alegria, inocência, optimismo, confiança. Até temos um blogue, que isto de ter uma forte ligação com o passado não nos impede de viver o presente em pleno, porque é no presente que se constrói a saudade futura.
«Éramos felizes e não sabíamos», dizia-me há tempos, num desses jantares, um desses amigos. Não foi aluno de Vergílio Ferreira, paciência. Eu sabia, tal como quase todos nós, os do meu grupo de nome propositadamente ridículo, Associação das Tágides Caducas e dos Adamastores Zarolhos, sabíamos.
Quase todos nós ingressámos no Liceu em 1972, quase todos na turma A, a dos mais novinhos, 12 anos acabados de fazer ou ainda incompletos. Meninas para um lado e meninos para outro, claro, a separação era rígida e qualquer infracção era severamente punida – a Luísa foi chamada ao gabinete da Vice-Reitora por ter sido vista a falar com um rapaz à porta do Liceu; era o irmão mais velho, como pôde provar, não houve sanções. Um curso de transição, apanhado em cheio pelo 25 de Abril, no ano lectivo seguinte.
Fiz parte do segundo ano em que o Liceu admitiu meninas. A bata branca era obrigatória, e que bonita era! Nivelava socialmente, naquela época os pré-adolescentes nada sabiam de marcas. Claro que havia algumas (poucas) meninas precoces, que levavam a bata debaixo do braço e só a vestiam à esquina do Liceu, as mesmas que levavam os (poucos) livros e cadernos na mão e já se
Até ao 25 de Abril as meninas tinham uma disciplina chamada Lavores, com a nobre missão de nos ensinar prendas de agulha uma hora por semana. No primeiro período cada turma confeccionava um enxoval de bebé completo, que era entregue no dia de Natal nas maternidades, para oferecer às crianças pobres (na altura ainda dizíamos aos pobrezinhos). Éramos totalmente destalentosas com a agulha (a Luísa passou as aulas do período inteiro a embainhar uma fralda, o luxo das fraldas descartáveis ainda não existia), mas apresentámos um enxoval magnífico. Havia peças lindas, havia peças de sonho: mantas, botinhas, cueiros, camisinhas, casaquinhos, que as nossas mães, essas sim, eram muito dotadas e esmeraram-se.
Foi numa dessas aulas de Lavores, algures no princípio de 1973, que o Reitor entrou na sala e nos fez uma prelecção para explicar a recente expulsão de cinco meninas (ou três, é aqui que a memória me falha) do ano acima do nosso, em cujas carteiras foram encontrados panfletos e um livro de Manuel Alegre, O Canto e as Armas. Todas elas tinham 13 anos. Expulsas sem apelo nem agravo. À laia de parábola, o nosso Reitor comparou-se a um lavrador com um pomar de maçãs. Algumas das maçãs eram bichosas e havia que deitá-las fora, não fossem elas contaminar as outras. Claro que não percebemos nada da explicação, mas retive as palavras até hoje. Não quero denegrir a imagem do último Reitor que o nosso Liceu teve. Respeitava-o, e muito. Não lhe tinha medo, isso era coisa que viria a ter, irracionalmente, mais tarde, ao Dr. Salvador do Carmo, Professor de Físico-Químicas. Até cheguei a ter vintes em pontos dele, mas o terror era absoluto e incontrolável.
Os tempos que se seguiram ao 25 de Abril foram conturbados, o nosso Liceu foi, muito provavelmente, o menos afectado no país inteiro. Não tenho memória de uma falta de respeito a um professor. Éramos traquinas, éramos tagarelas, éramos irrequietos, malcriados nunca fomos. Tive alguns Professores (agora com uma maiúscula muito merecida) inesquecíveis, para com os quais tenho uma dívida de gratidão sem princípio nem fim. Só um desses Professores já partiu, mas é imortal e a Academia Nobel voltou a fazer asneira nunca lhe atribuindo o prémio, que ele merecia como nenhum outro português. Chamava-se Vergílio Ferreira e é para mim um enorme orgulho ter assistido às suas aulas. Os outros Professores a quem devo tanto que devo quase tudo do que sou hoje são três senhoras, que continuam vivas e cheias de saúde. A Dr.ª Maria Helena Teixeira Ferreira (Português). A Dr.ª Teresa Monteiro (Inglês, responsável pela minha paixão por Oscar Wilde e Teatro), a Dr.ª Maria Antónia Borges (História).


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