quinta-feira, 29 de julho de 2010

Uma história de passar ao bronze

Ainda ontem eu e a Vanda tínhamos 12 anos e ficávamos sentadas lado a lado na sala de aulas. Ontem foi o dia dos 50 anos da Vanda. Um mês certo depois será o dia dos meus 50 anos. Ontem a Vanda celebrou em família, hoje foi o jantar connosco (e faltou a São, no Algarve, elemento imprescindível das Quatro Terríveis — assim éramos conhecidas no Liceu — presente connosco ao telefone).

A Vanda sempre foi doentiamente pontual. Às oito em ponto estava a ligar-me do Spianata a perguntar-me um impaciente «Onde é que estás?!» Eu, que com o passar dos anos também fui ficando doentiamente pontual, tenho outras condicionantes. Ainda estava no gabinete, como tinha avisado na véspera que era mais do que provável que acontecesse. A Clara, que também tem uma vida profissional complicada, também tinha avisado que era possível que chegasse atrasada.

E lá estava a Vanda, num glorioso fim de dia de Julho, uma mesa na esplanada do Spianata, à espera das amigas e já com uma caipirinha à frente. Uma mulher, se não tiver um livro à mão, faz qualquer coisa para se entreter. Pode olhar para a paisagem, pode estudar a ementa, pode pôr-se a consultar o telemóvel. A Vanda nunca foi do modelo corrente: a Vanda descobriu um pêlo numa perna. No instante seguinte a Vanda ficou obcecada. Morte ao inimigo! Havia que eliminá-lo. E estava a Vanda em plena cruzada de extermínio, a língua ao lado num esforço concentrado, o polegar e o indicador em alicate a tentar caçar o intruso, quando aparece um criado solícito. A Vanda nem deu por ele, toda entregue à sua nobre causa. Quase saltou, sobressaltada, quando lhe ouviu a voz: «Desculpe interromper a sua depilação...»

Resumindo e concluindo: provavelmente nunca teríamos sabido deste mortificante apontamento, tantos são sempre os assuntos a absorver-nos, se a meio do jantar eu não tivesse achado as atitudes do mesmíssimo criado um bocadinho bizarras. «Ó meninas, é só impressão minha ou este tipo está grosso?» Foi aí que a Vanda nos contou a história acontecida antes da nossa chegada. E rimos como doidas, porque tinha tido graça. Mal por mal, antes um bêbedo com piada. Mas, a trabalhar num restaurante, esperemos que conte sempre com benevolência igual à nossa. As duas fotografias que nos tirou não correram lá muito bem. Mero exemplo.

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