«E não me venham chatear com o facto de eu nunca aparecer, é explicável em duas alíneas:
a) Já fui bem mais gira
b) A máquina é minha, ninguém se lembra de que eu também faço parte do grupo (eu é mais escrever...).
Beijos.
T.»
A resposta (hilariante) do nosso querido António - que deve ser uma espécie de Némesis minha -, taco a taco:
«Minha querida:
Para amenizar a mágoa que depreendo do teu texto, deixa-me dizer-te em duas alíneas que:
a) Não acho que já tenhas sido mais gira.
b) Estou receptivo a ofertas de máquinas fotográficas (eu é mais o negócio...).
Beijo.
A.»
A.»
Convenhamos que só a alínea a) era coisa para deitar qualquer auto-estima abaixo. Em vez disso... pôs-me a rir como uma doida. Fez-me bem. Obrigada, António.
A morte do Pedro atingiu-me em cheio, afligiu-me mais do que sei contar. E não só a mim. Tal como eu previa, doeu muito a muitos de nós. Até a alguns que não se lembravam dele, como o Vítor e o Zé Afonso - coisa natural, nunca foram da mesma turma.
Sim, tal como eu previ, porque conheço a qualidade humana deste grupo, muitos entraram em contacto comigo nestes dias, querendo saber.
Como disse à Clara, ao telefone, até tentei entrar em contacto com os pais dele, que me lembrava de morarem na Barbosa du Bocage. Sem resultados, que já não há nenhum Caldeira a morar lá, assim me disse o 118. A Clara lembrou-se de outra possibilidade: o Diogo, o seu filho mais velho, era amigo de um dos filhos do Pedro antes de a família se ter mudado para o Algarve. Também sei - sem conseguir lembrar-me de quem - que há no nosso grupo alguém que se dava com a irmã do Pedro. São pontas soltas, bem sei. Mas também sei que o Pedro não pode partir sem uma homenagem nossa. O Pedro sentou-se connosco nas mesmas aulas do Salvador do Carmo que nos aterrorizavam, o Pedro viveu o Liceu como nós, o Pedro era do nosso grupo.
Qualquer ideia é bem-vinda. Como o Zé Afonso me disse ontem, precisamos de chegar à mulher dele. O Pedro deixou três filhos, um deles adoptado, mais uma confirmação - como se dela precisássemos, nós que o conhecemos, de grandeza de alma. Temos de saber como estão, temos de saber (de intuir, que seria uma grosseria perguntar) se precisam de alguma coisa. O Pedro era um de nós.
A morte do Pedro atingiu-me em cheio, afligiu-me mais do que sei contar. E não só a mim. Tal como eu previa, doeu muito a muitos de nós. Até a alguns que não se lembravam dele, como o Vítor e o Zé Afonso - coisa natural, nunca foram da mesma turma.
Sim, tal como eu previ, porque conheço a qualidade humana deste grupo, muitos entraram em contacto comigo nestes dias, querendo saber.
Como disse à Clara, ao telefone, até tentei entrar em contacto com os pais dele, que me lembrava de morarem na Barbosa du Bocage. Sem resultados, que já não há nenhum Caldeira a morar lá, assim me disse o 118. A Clara lembrou-se de outra possibilidade: o Diogo, o seu filho mais velho, era amigo de um dos filhos do Pedro antes de a família se ter mudado para o Algarve. Também sei - sem conseguir lembrar-me de quem - que há no nosso grupo alguém que se dava com a irmã do Pedro. São pontas soltas, bem sei. Mas também sei que o Pedro não pode partir sem uma homenagem nossa. O Pedro sentou-se connosco nas mesmas aulas do Salvador do Carmo que nos aterrorizavam, o Pedro viveu o Liceu como nós, o Pedro era do nosso grupo.
Qualquer ideia é bem-vinda. Como o Zé Afonso me disse ontem, precisamos de chegar à mulher dele. O Pedro deixou três filhos, um deles adoptado, mais uma confirmação - como se dela precisássemos, nós que o conhecemos, de grandeza de alma. Temos de saber como estão, temos de saber (de intuir, que seria uma grosseria perguntar) se precisam de alguma coisa. O Pedro era um de nós.


1 comentário:
29 de Maio de 1975
- “Trabalhadores de O Setubalense impediram ontem de manhã a impressão de uma edição do República, preparada com os redactores que se mantêm solidários com Raul Rego. O patronato, em solidariedade de classe, negociou nas costas dos trabalhadores a feitura do jornal, mas mais uma vez subestimou a solidariedade da classe operária e a sua consciência de classe”.
(in Diário de Notícias)
- Saíram à rua manifestações para apoiarem o Conselho da Revolução, convocadas pelo PCP e às quais aderiram o MDP e a FSE. O porta-voz do Conselho da Revolução, Vasco Lourenço, assegurou aos manifestantes, em Lisboa, que “o processo revolucionário em curso não é propriedade de nenhum partido político”. E explicou, de uma das varandas do Palácio de Belém, onde se encontravam Costa Gomes e várias outras figuras de topo da hierarquia militar, como Otelo e Carlos Fabião: “O processo revolucionário terá de ser principalmente obra das massas populares e não se poderá compadecer com políticas partidárias que não sobreponham o interesse nacional aos interesses dos partidos”.
- O Copcon ocupou várias sedes do MRPP e deteve muitos dos seus ocupantes. A operação – classificada de “espectacular” pela imprensa – começou, ontem pelas 23 horas, simultaneamente em todo o país. Ouviram-se alguns tiros, “disparados para o ar, no momento em que já no interior de viaturas militares, os detidos eram evacuados”, da sede do MRPP na Avenida Álvares Cabral. Ao todo, são 432 os presos, entre os quais o secretário-geral, Arnaldo Matos, bem como Fernando Rosas e José Freire Antunes. Detido igualmente Almeida Perucho, jornalista do Expresso, e um seu colaborador, António Russo Dias, o qual recorda: “Fui preso nas instalações da livraria do MRPP, O Oriente é Vermelho, perto da Fonte Luminosa. Estávamos lá dezenas de pessoas, a pintar faixas e cartazes. Foi uma operação militar”. (Os pára-quedistas não iam munidos de mandados de captura).
- “O desejo de Otelo era que eles fossem levados para as Berlengas, a fim de evitar manifestações de apoio”.
(Camarada Diniz de Almeida, 2º comandante do Ralis, a propósito da detenção dos militantes do MRPP)
REACCIONÁRIOS PARA OS FARILHÕESS!
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