quinta-feira, 29 de maio de 2008

Correio do Blóguio

Poucas horas depois de ter enviado a mensagem do post anterior, recebi do Manel a seguinte resposta:


«Querida Teresa:

Já deitei fora a chave ou lá o que aquilo era.

Na verdade, quando tu morreres, para que quer a gente o blóguio, não me dizes? Quem é que vamos chatear, a quem é que vamos abrasar a cabeça, a quem é que vamos infernizar a vida, hein???!!!

E, verdade, verdadinha, se agora já não contribuo para o blóguio, não é depois de mais velho que vou pôr-me a dar vazão à pretensa veia literária.

Resta-me deixar-te algumas sugestões para a tua morte, já que, se bem te conheço, não és Menina para te finares de fininho, durante o sono, por exemplo.

1. a do vaso no focinho tem a sua graça, mas é um bocadinho popularucha; não estou nada a ver-te a passeares por Alfama, onde acabaste de comer umas apetitosas e gordas sardinhas, e a levares com um manjerico no toutiço; é de menos, para ti;

2. uma morte igual à do Gaudí é espectacular mas ainda não me parece bem; ser-se atropelado por um Aston Martin, por um Rolls ou por um Buick, ainda vá que não vá, agora por um eléctrico… Já estou a ver a cena: o guarda-freio numa aflição, o povo todo à tua volta, elas aos gritos, agarradas ao xaile: — “Aaiiii, rica filha, que está tão branquinha… Acuuudam! Acccuuuuudam!”, eles circunspectos, a dar palpites, com a beata ao canto da boca: —- Esta já marchou! Cala-te, mulher, ou ainda as levas!” Ná… Não tem a ver contigo!

3. já me parece mais simpático morreres no Jockey Club, em pleno Concurso Hípico Internacional de Lisboa, com um coice de um puro-sangue inglês no meio do terceiro olho (o Lobsang Rampa era um must nos nossos tempos de liceu...), O Tiame todo horrorizado: “ — Coitada… Era tão boa piquena!” O único inconveniente era o cheiro, aquele cheiro típico do Jockey Club que, tal como a água tónica, exige que se aprenda a gostar, mas que, nas circunstâncias descritas, me parece de mau-tom.

4. à la Isadora Duncan, também me parece que vai contigo. Difícil, difícil vai ser arranjares uma écharpe suficientemente comprida e conseguires que ela se prenda no pneu. Para além dos acidentes que poderias originar. Mas é o teu estilo. Completamente.

Estas são algumas sugestões, das mais simples. Há outras, sobretudo com cenários no estrangeiro (estou-me a lembrar, por exemplo, de um voo picado até ao fundo do Grand Canyon ou de um envenenamento com a ponta de um guarda‑chuva junto ao Taj-Mahal ou no Orient Express) mas tenho a certeza de que a tua imaginação é tão pródiga quanto a minha — se não mais — e de que não te atrapalharás com a escolha.

Agradeço o espicho (adoro anglicismos...) e para as dores, talvez um ben-u-ron ou, quiçá, algo mais forte... Quanto às saudades: que tu as tenhas, admito; agora insistir que eu também tenho é que me parece que, mesmo que possa ser verdade, não te compete garantir com essa certeza...

Agora a parte mais séria e triste de tudo isto. Fiquei devastado e profundamente chocado com a morte do Pedro. Não éramos muito próximos mas sim, tínhamos sido colegas de Liceu, de turma! É tristíssimo e angustiante começarmos a perceber que aquela eternidade de que a adolescência nos imbuiu se começa a esboroar paulatina mas irreversivelmente. Como me dizia um primo meu, em surdina, enquanto esperávamos que um tio que tínhamos em comum fosse enterrado:
"— Estamos a chegar à linha da frente!". E perceber isso dói, dói muito (a mim dói-me muito mais pelo medo de perder aqueles de que gosto do que por ser eu a embarcar nessa viagem), embora incomensuravelmente menos do que perceber que o Pedro não volta a juntar-se a nós (eu sou bastante mais céptico, em relação a reencontros).

Como nós dizíamos nos verdes anos: — Gostei de te conhecer, pá!

Saudades do
Manuel»

7 comentários:

Anónimo disse...

30 de Maio de 1975

- “É criado um serviço de âmbito nacional, a ser prestado por estudantes, denominado Serviço Cívico Estudantil”. (Decreto-lei nº 270/75)

- Surgem dois novos jornais: o semanário Tempo, com direcção de Nuno Rocha, e o Jornal do Caso República, dirigido por Raul Rego e Vítor Direito.

- A secção "Província" do jornal O Século vem, como é habitual, carregado de notícias do que se vai passando de norte a sul. Através dele ficamos a saber que os agricultores de Pegarinhos andam bastante preocupados com a mão-de-obra, muito cara, e com a falta de mercados para “a vinha, a cortiça e a amêndoa, que se não vendem”; que à freguesia do Granjal (Sernancelhe) chegou um grupo de jovens (quatro rapazes e uma rapariga) para prestação do serviço cívico, recebidos “com muita satisfação”; que o povo de Silves “começa a organizar-se para as tarefas concretas que a construção do socialismo impõe a todos”, pelo que se organizou em comissões de moradores que vão começar a reconstruir fogos abandonados e em ruínas; que “o Gerês tem sido ultimamente palco de acções isoladas, mas bem evidentes, do reaccionarismo existente”, por parte de “saudosistas de outros tempos”.

- Os sindicatos pressionam as tipografias para que se recusem a imprimir o novo Jornal do Caso República. A Gráfica de Coimbra, propriedade da diocesse, é uma delas. Consultados os operários pelo gerente da gráfica, 90% estiveram de acordo em fazer o jornal; os sindicatos, porém, eram de parecer contrário e dispuseram-se a tirar a carteira profissional aos tipógrafos.

DEMOCRACIA SINDICALL!

Anónimo disse...

31 de Maio de 1975

- “Trabalhadores dos espectáculos constituíram o primeiro Comité de Defesa da Revolução. A sede provisória deste órgão de defesa do processo revolucionário que há-de conduzir Portugal ao socialismo situa-se no Teatro Desmontável Rafael de Oliveira, a funcionar no largo Martim Moniz. Entre os seus 33 fundadores, figuram os nomes de Carlos César, Rui Mendes, Irene Cruz, Costa Ferreira, Ermelinda Duarte, Artur Semedo, Rogério Paulo, Guida Maria, Morais e Castro, José Gomes, Henriqueta Maia, João Lourenço e José Viana”.
(in O Século)

- O Expresso publica uma entrevista surpreendente a Emídio Guerreiro, novo líder do PPD, indicado por Sá Carneiro. “A social-democracia é uma forma clara de capitalismo internacional”, diz ele. “A mais maravilhosa e magnífica Revolução”, é como se refere à revolução russa de 1917. “Se Lenine tivesse vivido mais tempo, talvez os soviéticos vivessem hoje numa sociedade socialista...”.

- MDP/CDE , FSP e Intersindical, com o apoio do PCP, estão a apelar ao povo de Lisboa e trabalhadores para que compareçam amanhã, no aeroporto, à hora de chegada de Bruxelas de Vasco Gonçalves, levando apenas bandeiras nacionais e dísticos sob os temas: “Unidade do povo com o MFA”, “Batalha da produção”, “Apoio às nacionalizações e reforma agrária” e...

PELA REVOLUÇÃO CONTRA A REACÇÃOO!



1 de Junho de 1975

- Valentina Terechkova, a célebre companheira de Gagarine na nave Vostov-6, foi ontem entusiasticamente recebida por centenas de militantes do Movimento Democrático de Mulheres e do PCP que ostentavam grandes dísticos de saudação, estandartes de ambos os partidos e bandeiras nacionais. A aguardá-la no aeroporto de Lisboa, além de delegações dos dois partidos, assinala-se a presença de uma nutrida delegação da Força Aérea. “Os sovietes seguem atentamente e com amor o processo revolucionário português e desejam o maior êxito a este povo na construção do novo Portugal”, afirmou a austronauta que aparece sorridente ao lado de Álvaro Cunhal.

- O PPD, conduzido por Emídio Guerreiro (que nomeou como adjuntos, entre outros, Helena Roseta, José Augusto Seabra e Marcelo Rebelo de Sousa), “está absolutamente de acordo” com as transformações que a “revolução maravilhosa” do 25 de Abril atravessa agora no plano económico e social. Para o sucessor de Sá Carneiro, Portugal está a fazer “uma bela experiência”, que há-de levar o país muito para além das social-democracias do tipo europeu [!!!].
(in Expresso)

- Está iminente a nacionalização das dez maiores transportadoras rodoviárias do país. As medidas devem ser adoptadas já nos próximos dias, constituindo-se uma grande empresa pública chamada Rodoviária Nacional.
(in Expresso)

SOCIALISMO SOBRE RODASS!

Anónimo disse...

Pronto! Estou despachado até ao início da próxima semana, altura em que regressarei da minha viagem de dinamização cultural e de observação dos avanços da batalha da produção e da reforma agrária.

Anónimo disse...

Ploooinnng!

ESTOU UM BOCADO BARALHADO! A VALENTINA NÃO ERA A PROFESSORA DE FÍSICO-QUÍMICASS?!

Anónimo disse...

Não confundamos! Infelizmente, essa é a Valentina Tanakova.

Teresa disse...

Enorme e estrondosa gargalhada!

Alien, querido Alien, que saudades!

A sua confusão é compreensível: também eu, mesmo não tendo sido aluna da dita senhora, me lembro perfeitamente dela! E das histórias que a turma E me contava.

Seja como for, a Vanda bem pode estar-lhe grata: se não fosse a Valentina, nunca teria tido aquele magnífico e resplandecente 20 (VINTE!) no exame de 7.º ano.

THE LORD WORKS IN MYSTERIOUS WAYSS!

Anónimo disse...

2 de Junho de 1975

- Hoje é o dia da abertura solene dos trabalhos da Assembleia Constituinte. O Diário Popular perguntou aos cinco partidos que conquistaram lugar no hemiciclo que deve o país esperar da Constituinte. Mário Soares, pelo PS, quer que trabalhe “depressa e bem”. Jorge Miranda, na bancada do PPD, diz esperar que o documento “dê corpo a um estado de Direito, Democrático e Social”. Álvaro Mateus, pelo PCP, espera que ela “não constitua um travão ao processo socializante”. O número dois do CDS, Adelino Amaro da Costa, defende que o texto constitucional evite “qualquer rigidez de soluções quanto à estrutura social e económica do Estado”. José Manuel Tengarrinha, em nome do MDP/CDE, diz que “são irreversíveis as conquistas até hoje alcançadas pelo MFA e pelo povo português”. Não é Américo Duarte, mas “Custódio”, quem responde em nome da UDP: “o povo tem de ter presente que as suas conquistas, hoje como ontem, são obtidas através da luta, não podendo ficar à espera das resoluções da Assembleia Constituinte”.

- “A reabertura, ontem, das linhas dos vales do Vouga e Dão provocou ondas de protesto. Piquetes populares impedem a circulação de comboios. Como vai sendo costume, foi chamado o MFA, cujos representantes locais concluíram haver uma certa razão por parte do Povo, pelo que o assunto irá ser dirigido às autoridades competentes”.
(in Primeiro de Janeiro)

- Vasco Gonçalves foi aclamado por milhares de pessoas à chegada do aeroporto de Lisboa, vindo de Bruxelas. O PPD associou-se , em comunicado, “às manifestações de simpatia” pelo regresso de Vasco Gonçalves [!!!].

SOCIAL-DEMOCRACIA VERMELHAA!