Diz-me, anda: quem hoje somos, estes que somos hoje e agora, será que se lembram de quem fomos, nesse ‘ontem’ com trinta anos? E de como fomos, quando éramos aqueles tais? Tu, alembras-ti? Eu tenho dias, mas sim, muita coisa está e estará presente com o rigor daquelas memórias que cristalizaram, como as cerejas do bolo-rei. E tu por lá andas, inesquecível, por entre fragmentos de inteligência, confusão, amizade, humor, birras, cumplicidade, saturação, admiração, genialidade e vidros partidos. Não sobra dúvida, no meu sentir, no meu recordar. Eras, és, serás: único, definitivamente. One of a kind! E agora, de repente, eis-me a cuscar este teu ‘correio do blóguio’ que leio com prazer e de sorriso pendurado, a milímetros da gargalhada, solidário com a prosa que redigiste sobre os meandros negros do Leandrismo, essa imparável força da natureza ou esse imperdoável ‘lapsus divinus’, as opiniões dividem-se.
Por aí estamos de acordo no essencial, importa dizê-lo antes de mais. E o que é o essencial, nesta circunstância? O essencial aqui é o despachanço em tempo útil, para a eterna glória divina e entre os esplendores da luz perpétua, desta Leândrica figura que agora deu em profetizar passamentos vários, a começar pelo seu próprio, o tal que acarretaria a tragédia (essa sim, trágica) do desaparecimento deste vosso/nosso blóguio. E tudo isto num pranto soluçante e cantante, porém cortante, asfixiante, bastante, revoltante e prante, bora lá adiante.
Reparei que descartaste (e bem) as hipóteses do 'manjerico no toutiço' (expressão de finísimo recorte literário, if I may say so) o ‘eléctrico pelas fuças’ (esta é da minha lavra, em adaptação livre) e também o coice de puro-sangue nos cornos, (inglês, o cavalo, claro, lusitanos só os cornos, lamentavelmente). Registei no entanto que não deixaste de salvaguardar a possibilidade de uma overdose de ben-u-ron, o que me pareceu simpático e verdadeiramente atencioso da tua parte, pese embora um nadita javardoso, enfim, se pensarmos que tal implicaria gregoriar com fartura e espumar por todos os orifícios, o que nem por isso se poderia considerar um must de charme,... mas prantes, é o que se pode arranjar.
A terminar e caindo no sério tal como tu o fizeste, proponho-te um abraço fraternal e sentido, calmamente saboreado a dois, após três décadas de ausências e distâncias tais que quase nos separaram de vez a todos (quase, atenção, quase é quase!). Por isso espero sinceramente que essa separação, desta vez falhada, nunca venha a encontrar-se num pragmatismo eficaz que mate o tal 'quase' que nos vai salvando a todos do passar dos anos e de nós mesmos, sobretudo. E que nós, os heróis da história, os cromos mais difíceis da colecção, (entre vários facínoras com lugar cativo nesta categoria é da mais elementar justiça recordar o perigoso biltre que dá pelos nomes de Silva, Ribeiro, António, às vezes e nem sempre por esta ordem) aproveitemos o incontornável facto (incontornável, apreciável, ovas de sável e outras coisas acabadas em ‘ável’ tais como ‘porreiropá!’) aproveitemos, dizia eu, o facto de estarmos vivos e lúcidos (uns mais que outros, é certo) para nos entregarmos – juntos! – à devassa de uma puta de uma farra gigantesca, com lugar marcado nos anais (ui!) da História e que já devia ter o cabrão do dia mais que marcado.
De que raio estamos nós à espera, não me dizes, Manuel? (et tu, Biltrus?)
Abraço-te. Mesmo.


15 comentários:
Não prucebi bem o testo do Dotôr Vasco derivado da ilukuencia a k não tou duvidamente imbilitado a intrupertar mas fes-me espece a sereija no bôlo rei
S.A. (Jr.)
Primeiro que tudo, saúdo o novo escriba do blóguio, que em boa hora aceitou o convite.
Segundo que tudo — esta é uma famosa asneira do nosso colega Raul, num dia em que estava de cabeça perdida com a Clara e começou a enumerar as razões pelas quais achava que ela era uma estúpida; quando se saiu com o segundo que tudo, nós duas explodimos numa gargalhada monstra... e lá se lhe foi o efeito todo...
Mas, dizia eu — já pareço o caro Cívico Anacleto, nosso guarda predilecto —, segundo que tudo...
HOUSTON, WE HAVE A PROBLEMM!
P.S. Sim senhor, que bonito!
Já a combinarem coisas sem mim!
CLUBE DO BOLINHAA?!
(Rui Vasco, olha que no fim dos nossos comentários há sempre uma saudação. Criada pelo Manel, é originalmente BATATAA! (beijos às Tágides e mais não sei quê, está muito lá para trás), mas imediatamente, ou não fôssemos nós quem fomos e ainda somos em boa parte — graças a Deus! — começou a degenerar nos maiores disparates. Mas é obrigatório repetir a última letra, vê comentários anteriores.)
Isto está cada vez melhor!! A continuar assim, ainda acabamos todos a ler livros de auto-ajuda... Valhanosdeus!
3 de Junho de 1975
- “Queremos que a nossa Revolução progrida para um socialismo pluripartidário, em simbiose fecunda entre as vias revolucionárias e eleitoral”.
(Presidente da República e grande camarada Costa Gomes, o “Rolhas”, na cerimónia de abertura da Assembleia Constituinte)
- Trabalhadores ocuparam os supermercados Bombarato e a Quinta da Marquesa, em Pinheiro de Légua, nos limites de Palmela.
- No espaço que vem dedicando diariamente à “batalha da produção rumo ao socialismo”, O Século narra o apoio que 300 jovens da UEC e da União da Juventude Comunista (UJC) foram dar, este fim-de-semana, à Cooperativa Estrela Vermelha, a 25 quilómetros de Santiago do Cacém, e fez o balanço do ano exemplar que passou, sobre o momento em que os 1211 trabalhadores da Mundet – com fábricas no Seixal e no Montijo – “decidiram tomar a seu cargo a gestão da empresa, saneando a administração de todos os elementos”.
- Os sindicalistas da indústria vidreira pedem “aos camaradas trabalhadores dos hotéis, restaurantes, pensões, cafés, bares, boites que exijam do patronato a compra de vidros nacionais” e “solicitam ao público consumidor” que prefira nas suas compras “o vidro fabricado em Portugal”. Caso contrário, virá a ser posto em causa “o direito ao trabalho e ao salário de cerca de 20 mil trabalhadores”.
PR’Ó PROLETÁRIO SÓ VIDRO REVOLUCIONÁRIOO!
Então e o destinatário da carta não diz nada?
MAL EDUCADOO!
4 de Junho de 1975
- A primeira sessão de trabalhos da Assembleia Constituinte foi dominada pela iniciativa do “cavaleiro solitário” da UDP, Américo Duarte, que “inaugurou o debate” com uma proposta revolucionária: a comissão de verificação de poderes deveria investigar se existem entre os deputados eleitos “elementos responsáveis na elaboração de legislação fascista das anteriores Assembleias Nacionais”. Alvo imediato: Mota Amaral, apontado como co-autor, em 19 de Novembro de 1971, de uma proposta que concedeu amplos poderes repressivos ao Governo de Marcello Caetano.
- O líder do CDS, Freitas do Amaral, comparece nos estúdios da RTP, para uma entrevista no programa “Responder ao País”. Também os três entrevistadores estão presentes. Inexplicavelmente, falta o cenário e o cenógrafo...
- “No final, pouco depois de os bigodes negros do homem do MFA se terem encontrado com o rosto sereno da cosmonauta, aliás como aconteceu com outros bigodes mais ténues de um bombeiro voluntário e de membros de outras organizações presentes, que ofereceram presentes à única cosmonauta da Terra, foi cantada em coro a “Gaivota, voava, voava”, canção que fez entreabrir os lábios vermelhos da mulher do espaço”.
(comício de consagração de Valentina Terechkova, organizado pelo MDM, in O Século)
GAIVOTA REVOLUCIONÁRIA E ESPACIALL!
Eu cá continuo na minha: então e o destinatário da carta não diz nada???!!
MAL EDUCADOO!
Não gosto de concordar com anónimos, mas desta vez, por acaso...
Ó MANEL, FRANCAMENTEE!
5 de Junho de 1975
- São nacionalizados vários grupos de empresas de transportes colectivos de passageiros (Decreto-lei nº 129/75)
- “O novo Ford Escort começa a ser vendido dentro de três semanas, em Portugal. A versão mais económica, de linhas agradáveis e grandes superfícies vidradas, custará cerca de 110 contos”
(in Tempo)
- “É um vespertino apartidário e defensor do pluralismo revolucionário em todas as suas expressões significaticas [...] Paralelamente à acção informativa e ao lugar de intervenção que assume na vida nacional, valoriza o empenhamento cultural, como forma indispensável na consciencialização revolucionária, rumo ao socialismo”.
(Estatuto editorial do Diário de Lisboa, dirigido por Ruella Ramos e tendo como director-adjunto José Cardoso Pires)
IMPRENSA MUITO DEMOCRÁTICAA!
O Manel não responde pois está, decerto, absoluta e literalmente flabbergasted!
6 de Junho de 1975
- “Estamos numa situação de ditadura benévola militar”.
(camarada Major Diniz de Almeida, in Flama)
- “Carris, Metro e Empresa Geral de Transportes foram nacionalizados. A decisão ministerial causou um pouco de surpresa mas também alegria aos trabalhadores, que assim podem, com mais confiança, participar na opção socialista”.
(in A Capital)
- No MRPP há uma luta em curso entre a linha “vermelha” (oficial) e a linha “negra”, de que o director do jornal do partido, José Luís Saldanha Sanches, é apontado como expoente desde que admitiu, em entrevista à revista Vida Mundial, “que Estaline cometeu erros e, o que é mais grave, que é também responsável pela restauração do capitalismo na URSS”.
- O Copcon mandou meter no Forte de Caxias dois trabalhadores da Rádio Renascença, que se mantinham fiéis à Igreja. D. António Ribeiro fala pessoalmente com Otelo que afirma que o que tinha acontecido não era da sua responsabilidade, mas do almirante Rosa Coutinho. O patriarca protesta: “Corja de indecentes! Ou vocês me prendem a mim ou soltam os dois homens da RR”.
IGREJA REACCIONÁRIA, É O QUE ÉÉ!
Então e o Sr. Manuel não diz nada?
A MÃEZINHA NÃO LHE ENSINOU BOAS MANEIRAS?!
7 de Junho de 1975
- “As democracias populares são aquelas onde o povo é que está no poder. É precisamente o que ocorre na Hungria, na Polónia, na Checoslováquia, etc.. Nestes e noutros países, como a União Soviética, a RDA ou Cuba, a exploração do homem pelo homem acabou definitivamente”.
(in “O que é a política”, texto da Comissão Dinamizadora Central do MFA)
- “As eleições para mim não têm qualquer importância, nenhuma mesmo. Se pensa que a questão pode ser reduzida a percentagens de votos recebidos por um partido ou outro, está a enganar-se a si própria redondamente. Se pensa que o Partido Socialista, com os seus 40 por cento, e o Partido Popular Democrático, com os seus 27 por cento, compõem a maioria, está a cometer um erro. Eles não têm a maioria”.
(camarada Barreirinhas Cunhal em entrevista a Oriana Fallaci, in Europeo)
- “Prometo-lhe que em Portugal não haverá qualquer Parlamento”.
(camarada Barreirinhas Cunhal em entrevista a Oriana Fallaci, in Europeo)
SONHOS DEMOCRÁTICOSS!
8 de Junho de 1975
- Morreram centenas de pessoas em quatro dias de combate travados entre forças dos três movimentos de libertação de Angola. Entre 10 a 20 mil portugueses abandonaram à pressa o Norte, segundo o Jornal Novo.
- “Só amanhã deverá reabrir, a título experimental, o liceu portuense Alexandre Herculano, encerrado na sexta-feira passada, após graves incidentes entre alunos da UEC e do MRPP. Os incidentes entre os partidários dos dois grupos tiveram origem na suspensão por oito dias de dois alunos do MRPP que tomaram a iniciativa de auscultar os seus colegas sobre o que pensavam quanto à prisão do secretário-geral daquele movimento, Arnaldo Matos”.
(in A Capital)
- Ponta Delgada é o palco de uma manifestação. O alvo é o governador do distrito, António Borges Coutinho, advogado lisboeta e militante do MDP, partido sem qualquer expressão nos Açores. “Não sei quem organizou. Quem alinhou foi a direita local, em peso, e os independentistas da FLA, alguns dos quais tinham o apoio de importantes figuras do conservadorismo americano”, conta Borges Coutinho. Clamando pela independência, os manifestantes concentram-se em frente ao palácio do governador. “Fui à janela e dirigi-me à população: Calma, que eu vou demitir-me! Assim fiz e não disse mais nada”.
ALA, QUE SE FAZ TARDEE!
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