sábado, 24 de maio de 2008

Pedro Caldeira

Partiu o primeiro do nosso grupo. O Pedro. O Pedro, que eu lembro com nitidez absoluta neste quinto ano longínquo - cada vez mais longínquo, meu Deus! «A que distância (...), nem o acho!» - palavras obcecantes de Álvaro de Campos. O Pedro que eu lembrarei sempre assim, como nesta imagem distante do último dia de aulas do nosso 5.º ano, este arcanjo loiro e lindo.

A notícia foi-nos trazida pelo João, chocado e entristecido, ainda o reduzido grupo desta noite estava pela metade, ainda estávamos na luz mágica do ante-crepúsculo glorioso de Lisboa na varanda virada para o rio, antes da chegada dos outros, neste jantar do Liceu que foi tão bom como são todos, mesmo tendo hoje sido muito poucos.

O João tinha sabido ontem, por acaso. A isto chegou a dispersão neste grupo amarrado por laços tão fortes e antigos? É bem verdade que há meses - era Setembro, um calor sufocante de Verão tardio, o João e eu a almoçarmos no Martinho e a pormos os sumários em dia - eu me tinha mostrado desagradada, o Pedro nunca respondia aos e-mails que eu regularmente enviava a todo o nosso grupo. Pior, recebia uma mensagem de não entrega. O João não deu importância, «fala para o Grupo Pestana». Mas o endereço que eu tinha era justamente já o do Grupo Pestana! E agora já nem aí apanhava o Pedro! Os números de telefone que tinha estavam desactivados. Mas nunca pensamos no pior, a verdade é essa. O pior é impensável. Achei que ele se estava nas tintas para nós, que tinha outras coisas, que tinha coisas mais importantes. Fiquei secretamente magoada, que eu levo este nosso grupo muito a peito.

O Pedro morreu em Outubro, ainda com 46 anos. Teria feito 47 a 7 de Novembro, era dos mais novos deste grupo todo em escadinha, quase todo nascido em 1960. Como é possível não termos sabido antes? Será que este nosso grupo significa realmente alguma coisa? Das últimas vezes que falei com o Pedro, já ele tinha ido viver para o Algarve. Tinha optado por uma vida mais calma, com mais qualidade, tinha projectos. Teve umas trapalhadas de saúde que acompanhei, lembro-me de na altura ter falado com a mulher dele, a Graça - encantadora, calorosa, só tem rival na Isabel, a mulher do Zé Afonso, outro encanto -, era coisa de pouca importância, o Pedro prometia vir ao próximo jantar... que teria sido há uns quatro anos... Tempus fugit...

Agora que o Pedro nunca mais se sentará connosco a rir das mesmas sempiternas memórias que são revisitadas jantar após jantar, deixem-me contar-vos as memórias mais vivas que dele tenho. São as minhas, vocês terão as vossas. Há aqui uma caixa de comentários, como bem sabem...

Memória 1: Inverno. A Isabel Almeida (a Carocha, não se armem em santinhos, que eu bem sei que era como lhe chamavam!) tinha um casaco comprido encarnado debruado a branco - faz um bocadinho Pai Natal, claro... Faltou um professor qualquer, estava tanto frio que ninguém saiu da sala e o Pedro aparece com o casaco vestido, calças enroladas acima do joelho, a cantar em voz de falsete Oh Christmas Tree...! Hilariante! Aqui para nós, acho que ele tinha um fraquinho pela Isabel-Carocha, e não me parece que seja só a Lianor Vaz que há em mim...

Memória 2: Visita de estudo (EXTRAORDINÁRIA, nesse dia despertei para os Impressionistas!) ao Museu Gulbenkian. Não sei como começou, sei como acabou. O Pedro estava a meter-se comigo, eu ignorava-o. Às tantas exagerou. Não me lembro do que foi que me fez passar dos carretos, só me lembro de lhe ter atirado um estaladão que pôs toda a turma em silêncio, professora incluída, e lhe deixou o braço bem rosado. Mais tarde, cá fora, veio pedir-me desculpa, Continuo sem conseguir lembrar-me do que originou tamanho disparate.

Memória 3: 18 de Maio de 1979, já universitários. A despedida de solteiro do Zé Afonso, que ia casar com a Isabel Cristina. Uma boîte do Estoril. Só fui pelo muito que gostava do Zé Afonso - nesse dia tinha morrido a minha adorada cadelinha Fiorella. O Pedro, que na altura tinha namoro com a Alexandra, apareceu. Eu estava realmente de rastos, ele fez questão de me levar a casa.

Querido Pedro, hoje não há grafonolas ideais ou grafonolas kitsch neste blóguio. Hoje só há Música para ti. Espero que gostes, porque é a melhor que tenho para te oferecer. É Mozart...

Depois de muito hesitar, optei pela Gran Partita - quando nos encontrarmos desse lado explico-te mais detalhadamente porquê. Agora, por agora, as magníficas palavras de Peter Shaffer, na boca de um Salieri dividido entre o ódio nascido da inveja e a homenagem incondicional, na extraordinária peça de teatro (uma das mais deslumbrantes noites da minha vida, no Old Vic, David Suchet como Salieri ) que viria a transformar-se no genial Amadeus, são bastante:

«On the page it looked nothing. The beginning simple, almost comic. Just a pulse - bassoons and basset horns - like a rusty squeezebox. And then suddenly - high above it - an oboe, a single note, hanging there unwavering, untill a clarinet took it over and sweetened it into a phrase of such delight! This was no composition by a performing monkey! This was a music I'd never heard. Filled with such longing, such unfulfillable longing... It seemed to me that I was hearing the voice of God.»

Tenho
esta cena, a maravilhosa cena de Amadeus, na minha outra casa - que surgiu só para dar vida a esta, que é o meu amor maior - aqui.

Até sempre, Pedro! We'll meet again...

2 comentários:

Anónimo disse...

25 de Maio de 1975

- “Membros do MFA e do Governo Provisório deslocaram-se ontem ao Norte para dinamizar a batalha da produção, tendo comprovado, in loco, a determinação dos mineiros do Pejão e dos operários da EFI”.
(“Trabalhadores nortenhos aceleram produção”, in Jornal de Notícias)

- Em Lisboa, a Comissão Administrativa que gere o município acordou com o Governo, as freguesias e várias estruturas militares e policiais a requisição de todos os fogos vagos, “em favor da população mais necessitada”.

- Discussões acaloradas marcaram dois encontros de carácter profissional: dos Trabalhadores do Vestuário, divididos entre 42,5 e as 45 horas semanais (chegou a haver agressão física no Teatro da Feira do Palácio de Cristal); e, em Coimbra, dos delegados do procurador da República, que rejeitaram o actual sistema de concursos.

BATALHA DA PRODUÇÃOO!

Anónimo disse...

26 de Maio de 1975

- “Os trabalhadores da Gel-Mar decidiram, no sábado passado, trabalhar sem qualquer vencimento, tendo batido todos os recordes(...). Naquela jornada, os trabalhadores dos sectores administrativos foram, uns para o sector fabril, amanhar, cortar e embalar peixe, outros para as câmaras frigoríficas, e muitas empregadas de escritório passaram o dia a ajudar as mulheres da limpeza”.
(“Na batalha da produção, rumo ao socialismo”, in O Século)

- O novo chefe da Força Aérea, Morais da Silva, disse ontem em Trás-os-Montes, onde se deslocou para estudar os resultados da primeira fase da Operação Maio-Nordeste, que para conquistar as aldeias “para a revolução, é preciso trabalhar com a enxada, lado a lado com elas”. E isso, garantiu, está a fazer-se, “desta vez”.

- Algumas propostas da assembleia extraordinária do MFA: suspensão do PS do Governo; fim da coligação e formação de um governo unitário-independente; ilegalização do MRPP. É aprovada a criação dos Conselhos de Reconstrução Nacional, simples adaptação dos Comités cubanos de Defesa da Revolução.

FIDEL INSPIRADORR!