quinta-feira, 26 de junho de 2008

Acta n.º 12 — faz hoje dez anos

[post agendado para publicação automática nesta data, que eu ando pelo Wyoming ou pelo Montana...]


Foi o primeiro jantar do Pedro.


Acta n.º 12

Aos vinte e seis dias do mês de Junho de mil novecentos e noventa e oito, pelas vinte horas e trinta minutos, reuniu na Sede provisória sita no restaurante A Bicaense, na Rua da Bica Duarte Belo, em Lisboa, a Assembleia Geral Ordinária da Associação das Tágides Caducas e dos Adamastores Zarolhos. Os trabalhos foram iniciados com atraso considerável, dada a crescente tendência da grande maioria dos Associados para fazerem ouvidos de mercador à hora fixada na Convocatória. Ar ofegante a resultar da escalada de uma infinidade de ruelas ofensivamente íngremes, os retardatários foram chegando e tomando assento por entre pragas rosnadas entredentes contra a ideia peregrina de convocar a Assembleia para tão esdrúxulo local. Tal facto não obstou a que fossem severamente admoestados pela sua pouco ortodoxa noção de pontualidade, considerada grave.

Mais grave ainda – tão grave que foi justamente esse o ponto a descerrar a Ordem dos Trabalhos – foi a denúncia feita pela Associada Teresa ao Associado Manel de se ter locupletado com o produto da angariação de fundos destinada à reparação do piano do Liceu, que o dito Associado, três meses volvidos, ainda não tinha remetido a quem de direito, dando muito possivelmente a essa quantia (tal como insinuaram em surdina algumas vozes malévolas) usos menos edificantes, já que são de todos conhecidos os hábitos dissolutos deste Associado. Profundamente consternada com a gravidade desta acusação, a Assembleia deliberou demoradamente sobre as sanções a aplicar ao relapso, tendo para o efeito sido criada uma comissão que levantasse uma investigação cuidada para com justiça e rigor envidar as medidas tidas por convenientes.

Decididamente na berlinda, o Associado Manel foi igualmente chamado a capítulo pela sua demissão de última hora das responsabilidades que lhe cabiam – por livre iniciativa – na organização da Assembleia, tendo com escassos dias de antecedência, e com a desculpa frouxa e pouco convincente de se ter esquecido de que era a época das frequências, atirado com todo o trabalho organizativo para cima dos já sobrecarregados ombros dos Associados António e Teresa, o que os obrigou a efectuarem reuniões de emergência, com grave prejuízo dos seus afazeres profissionais e algum risco para a esbeltez das suas silhuetas, já que as ditas reuniões, por imperativos incontornáveis, tiveram lugar no período de almoço.

Foi seguidamente aprovada por unanimidade e aclamação a admissão dos novos Associados Duarte e Pedro Caldeira, se bem que, com o decorrer da Assembleia, o entusiasmo com que inicialmente foram acolhidos fosse esfriando gradativamente, graças à manifesta falta de memória dos recém-Associados, bem evidenciada pelo facto de não se lembrarem dos nomes de boa parte dos membros da Assembleia e, em certos casos, nem sequer das suas caras — caso do Associado Duarte, que fez uma entrada triunfal, indo saudar efusivamente a mesa errada. Daqui se conclui que as sementes lançadas pela Associada Maria João não caíram em terreno estéril...

Foram em seguida votadas as imprescindíveis moções de censura aos ausentes e comentada com viva indignação a atitude de uns quantos Associados que, tendo-se comprometido a comparecer, mesmo que com algum atraso, não souberam honrar tão sagrado compromisso — citemos, entre outros, os Associados Zé Rui Reis e João Viegas. Contudo, e como prova de uma magnanimidade de louvar, foi votada e aprovada por unanimidade uma proposta no sentido de endereçar à Associada Maria João Campos (ausente, escusado será dizer) as cordiais felicitações da Assembleia pela passagem de mais um risonho aniversário, não obstante a dificuldade em perceber que a referida Associada fosse festejar sabe-se lá onde ou com quem, ao invés de tomar assento entre os seus pares, como lhe competia.

Se o restaurante era simpático – e, ao que parece, na moda –, outro tanto não poderá dizer-se da qualidade do serviço, que primou pela mediocridade. O atendimento, afável mas algo obtuso, salientou-se pela ineficácia e, sobretudo, pela demora. Ouvindo mencionar a ementa prévia e sabiamente escolhida pelos organizadores, os empregados limitaram-se a fazer uma cara entre o surpreendido e o desconcertado, e a responder com ar contundente um não temos nada disso que semeou a desorientação entre os Associados, já compreensivelmente perplexos por estarem a ser atendidos por uma sueca preta como a fuligem com um linguajar onde havia ressonâncias de um possível dialecto egipto-bávaro. Aliás, a deusa de ébano deu ocasião aos mais liberais entre os Associados para reverem as suas posições sobre integração racial, fazendo-os lobrigar os perigos das misturas de etnias, tão retardada de raciocínio e de acção viria a dita a revelar-se no decorrer do repasto.

O Associado António, por certo nessa noite com vontade de embirrar com o mundo em geral e com o seu congénere Manel em particular, atazanou os ouvidos e a paciência de todos os presentes com as suas sistemáticas e rebarbativas observações críticas a tudo quanto lhe punham à frente, excepção feita às caipirinhas, que consumiu sem reparos e com indisfarçável entusiasmo. No mais, tudo foram defeitos. Ele era o ceviche de salmão, por ele logo rebaptizada como sevícia de salmão, tão intragável a proclamou, ele era o vinho branco que não estava suficientemente fresco, ele era o vinho tinto que estava demasiado frio, ele era o picante que era de ir às lágrimas, ele era... só Deus ou o Diabo saberão que mais. O Associado Manel, responsável pela escolha do restaurante, nem por ser o visado com esta infindável resmunguice perdeu a compostura, ignorando com indiferença olímpica todos os remoques que lhe eram dirigidos.

O jantar decorreu em moldes surpreendentemente serenos, tendo alguns Associados debatido longa e ponderadamente temas graves, profundos e da maior actualidade, como o referendo do domingo seguinte, a forma física do Associado Duarte (inspeccionada e aprovada pela ala feminina com reservas pouco significativas) ou o valioso contributo do Associado Pedro Caldeira para a expansão e prosperidade da cadeia MacDonald’s.

No período de lazer que costuma seguir-se aos debates não houve desta vez qualquer espécie de incursão pelos locais de diversão nocturna, tendo os Associados dispersado em diferentes direcções, coisa assaz de lamentar. Apenas os Associados Vanda e António não desmentiram a boa cepa de que provêm, tendo cheios de persistência percorrido diversas casas de fados. A sorte, contudo, foi-lhes adversa, pois uma tinha acabado de fechar, esta levava a cabo uma desbaratização, naquela não havia espectáculo porque o guitarrista tinha partido um dedo, naqueloutra a cantadeira estava afónica. Derrotados por tantos e consecutivos infortúnios, decidiram os dois bravos sobreviventes encerrar por fim os trabalhos, tendo depois sido lavrada esta acta que, depois de lida e aprovada, vai agora por todos ser assinada.

O Presidente - Vanda

O Presidente - Clara

O Presidente - Cristina

O Presidente - Teresa

O Presidente - Duarte

O Presidente - Pedro Caldeira

O Presidente - Júlio

O Presidente - António

O Presidente - Manel


9 comentários:

Anónimo disse...

26 de Junho de 1975

- “O Diário de Notícias dedicará particular atenção à Reforma Agrária, à defesa das camadas mais desfavorecidas, à valorização das regiões abandonadas pelo regime fascista, ao apoio às forças progressistas activamente participantes na revolução, ao desenvolvimento económico controlado pelos trabalhadores, bem como a todas as acções que visem a construção de uma sociedade sem classes, onde seja banida a exploração do homem pelo homem”.
(Ponto 4 do Estatuto Editorial do Diário de Notícias)

- O DN andou pela Feira do Livro, que nesta altura se espalha pela Avenida da Liberdade, em Lisboa. Tudo “na forma do costume”, diz o repórter, que não tem direito a assinar nem o texto nem uma pequema nota de reportagem sobre uma mulher com tremoços para vender e de quem tentou, em vão, vislumbrar um pouco da alma: “Já deu uma vista de olhos pelos livros?”. Diz ela: “Eu não. Não sei ler. É bom haver quem saiba ler para se saberem as novidades”. Comentário dele: “É pena é haver quem não saiba”. Ao que ela replica: “Às vezes é melhor. A gente não se mói”. Remate do texto do anónimo repórter: “Sozinha de livros e compradores de cultura, num banco da avenida, a mulher dos tremoços coze e enche e fecha-se: “O que eu penso é cá comigo”.

- Livros de Che e Engels figuram nos dois primeiros lugares dos mais vendidos da semana em seis livrarias de Lisboa.

POLITIZAR O POVOO!

Anónimo disse...

27 de Junho de 1975

- “O comunicado do Conselho da Revolução sobre o PAP consagra a continuação do Governo de coligação, que significa um Governo de conciliação de classes. Que socialismo é que se quer construir com os representantes da burguesia?”.
(Comunicado do PRP/BR)

- “Determinação de várias sanções aos militares que, pelas suas actuações, contribuam para a discórdia e a divisão das Forças Armadas”
(Decreto-lei nº 314/75)

- O Governo interveio na Herdade dos Machados, uma das mais ricas propriedades da Casa Agrícola Santos Jorge, em Moura. O Governo decidiu também assegurar a gestão directa dos 1800 hectares da terra da Herdade do Esporão, no termo de Reguengos de Monsaraz.

- “O empresário do Laura Alves, com as suas revistas especulativas de erotismo de beco, fugiu para o estrangeiro. Antes porém, teve o cuidado de ir à Feira da Ladra vender a esmo roupas, sapatos, cadeiras e até uma máquina de costura”.
(in Diário de Notícias)

- Os bailarinos da Gulbenkian foram dançar à Lisnave. É “a arte para o povo”, diz o DN, que conta como Carlos Trincheiras foi adiantando “algumas considerações didácticas sobre a dança”, enquanto as três dezenas de elementos do grupo iam executando, no refeitório da empresa, os chamados exercícios de aquecimento dos músculos, na barra e no centro. A assistência acompanhou, “verdadeiramente inebriada”, as demonstrações do bailado Raymonda e “do excelente pas-de-deux do bailado Inter-Rupto”.

ARTE PARA O POVO E PÉROLAS AOS CAMARADASS!

Anónimo disse...

28 de Junho de 1975

- Estão criados mais quatro CDR: no banco Totta & Açores, no Sindicato dos Trabalhadores do Comércio do Distrito de Lisboa, entre os vidreiros da Marinha Grande e na Caixa de Previdência de Viana do Castelo, cujos elementos apontam, como objectivo prioritário, “a implantação rápida de uma sociedade autenticamente socialista”.

- A Assembleia do MFA da Armada, ontem reunida, foi dominada pela corrente “gonçalvista” e considera que “socialismo só há um", pelo que “a teoria dos modelos de socialismo não passa de uma mistificação que afinal só visa iludir as massas sobre a existência de sociedades socialistas, onde afinal só existe puro capitalismo”.

- “A Junta Nacional das Frutas vai iniciar, no próximo mês de Julho, a sua grande ofensiva contra os intermediários, parasitas que exploram simultaneamente o produtor e o consumidor, dificultando o desenvolvimento da nossa fruticultura e impondo carências suplementares ao regime de alimentação de maior parte das famílias”.
(in A Capital)

VENHA MAIS FRUTAA!

Anónimo disse...

29 de Junho de 1975

- “Casal com filhos, decadentemente educados, pequeno-burgueses sem cheta e em vias de extinção, pretende ocupar casa de praia durante o mês de Agosto, de preferência no Algarve. Resposta a este jornal, nº x”.
(Anúncio enviado ao jornal, in Expresso)

- “Não me repugna que os CDR’s, em situações limite, estejam preparados para lutar e defender, de armas na mão, os seus locais de trabalho contra acções contra-revulucionárias”.
(Ramiro Correia, novo chefe da 5ª Divisão, in Expresso)

- Numa iniciativa do grupo de teatro-animação O Bando, crianças organizaram e fizeram, este fim-de-semana, um encontro de Teatro Popular Infantil, no Sabugo. Participaram grupos do Magoito (Discussão na Aldeia), Algueirão, Covas de Ferro, Almoçageme (O Fascismo na Escola) e Agualva (A Humildade e a Burguesia). Conclui o Diário de Notícias que “deram perfeitamente conta” das tarefas e que a experiência constitui “um passo importante no caminho da emancipação cultural e política, cujos resultados o futuro deixará bem à vista”.

REVOLUÇÃO DA CANALHAA!

Anónimo disse...

30 de Junho de 1975

- “Quanto a nós, supomos ter chegado a altura de dizer que o CDS não convém a esta democracia, ou prolongaremos um engano, que nos pode vir a custar caro, se o CDS se arrepende de andar a proteger-nos lá fora (...) Não se faz o socialismo com partidos capitalistas, quer o confessem quer o disfarcem. Ou sofrerá a Revolução portuguesa da tentação do abismo?
(José Saramago, in Diário de Notícias)

- “Demissão da Armada, com efeitos retroactivos a 25 de Abril de 1974, do ex-Presidente da República, almirante Américo Tomás”.
(Decreto-lei nº 329-C/75)

- São conhecidas declarações do ministro da Comunicação Social em França: “o Expresso é, talvez, um bom jornal, mas é antinacional”; “talvez tenhamos que pôr militares nas redacções dos jornais estatizados”.

- Fugiram de Alcoentre 89 pides. O alerta foi dado na prisão às 18h30 de ontem, não pelos guardas mas pelo povo, que estranhou um grande ajuntamento de viaturas no cruzamento conhecido por “Ponderosa”. Os matutinos dizem que até às 6 da manhã tinham sido recapturados 13 evadidos. Não se conhecem ainda as circunstâncias exactas em que a fuga decorreu, mas o DN fala em “audácia” e “minúcia do plano”, por parte dos seus autores, que escalaram um muro com uma escada feita com cordas de plástico e ferros de cama. O Copcon organiza as buscas, com largas centenas de militares e populares. Há operações auto-stop nas estradas e alerta nas fronteiras. Jornais publicam fotografias dos foragidos.

PIDE À SOLTA, REVOLUÇÃO EM PERIGOO!

Anónimo disse...

1 de Julho de 1975

- “Se as democracias europeias não concordarem, a via socialista seguirá da mesma maneira”.
(Ideólogo e camarada Rosa Coutinho, in O Primeiro de Janeiro)

- “[A Capital] subordina-se em exclusivo aos interesses das classes trabalhadoras porque, sendo um produto da criação de trabalhadores da Informação, estes não aceitam demitir-se da sua participação no processo emancipador pela construção do Socialismo e da sociedade sem classes”.
(Estatuto Editorial de A Capital)

- É criada a Agência Noticiosa Portuguesa – Anop (Decreto-lei nº 330/75).

- Um grupo de leigos progressistas da Graça, em Lisboa, emitiu um comunicado em que afirma não ter tido nada a ver com a explosão de uma bomba durante a missa de domingo passado na igreja paroquial. O grupo repudia a acção veementemente e considera provável que a bomba tenha sido colocada pela reacção, na medida em que através dela pessoas mal informadas tenderão a olhar os opressores como mártires.

A REACÇÃO A SUICIDAR-SEE!

Anónimo disse...

2 de Julho de 1975

- É decidida a entrega da Rádio Renascença à entidade patronal. Em nota emitida ontem, ao fim da tarde, através do único emissor de ondas médias que conseguem controlar ainda, os trabalhadores dizem que não querem “tomar de forma isolada qualquer decisão que afecte a marcha revolucionária do povo português” e, por isso, colocam nas mãos da classe operária a decisão sobre qual deve ser a tomada de posição final.

- Erradicado desde 1958, o paludismo está a regressar ao país, alerta a Direcção-Geral de Saúde.

- Houve hostilidade declarada, por parte dos utentes, às novas tarifas ferroviárias. Forças da Polícia Militar garantiram a ordem e segurança em diversas estações de Lisboa, onde o povo “praticou a democracia directa”, observa O Século. “Os gordos da empresa quanto ganham? Já falaram em sacrificá-los para fazer frente ao deficit? Já foram buscar a esses e a outros burgueses a compensação do deficit que a empresa diz ter? Porque é que o povo tem sempre que pagar as asneiras dos burgueses?”, desabafa um utente ao repórter daquele matutino.

DEMOCRACIA DIRECTA: NÃO PAGUES BILHETEE!

Anónimo disse...

Ploooinnng!

O PADRE ANTÓNIO VIEIRA PREGAVA AOS PEIXES. ESTE PREGA NO DESERTOO!

Anónimo disse...

3 de Julho de 1975

- Na lista dos dez livros mais vendidos da semana, o segundo volume de “Emanuelle” figura no primeiro lugar, logo seguido de “Filosofia na Alcova”, do marquês de Sade, e do “Confesso que Vivi”, do poeta chileno Pablo Neruda.

- Otelo Saraiva de Carvalho recusa-se a cumprir a ordem de entrega da Rádio Renascença ao Episcopado e, mais grave ainda, o Conselho da Revolução nomeia uma comissão militar para gerir aquela estação até à “nacionalização das frequências de rádio e das empresas emissoras nacionais”.

- Para além do relacionado com a Rádio Renascença, salientam-se os seguintes “pontos quentes” debatidos pelo Conselho da Revolução: correcção de alguns aumentos das tarifas da CP; reconhecimento da extrema gravidade das fugas dos pides da Penitenciária de Alcoentre e julgamento dos possíveis responsáveis em Tribunal Militar, sem contemplações; urgência na publicação de legislação especial para penhora dos bens dos empresários e proprietários sem escrúpulos que se ausentaram para o estramgeiro.

CORJA DE FASCISTAS REFRACTÁRIOSS!