- “Pressente-se uma viragem do Governo para a sensatez. Entretanto continua a acentuar-se o déssaroi. Sinto-me desorientado. (...) Estarão conclusos os oito séculos da nação? Haverá um homem ignorado que deite mão a este descalabro?”. (Vergílio Ferreira, in Conta Corrente 1)
- O capitão-tenente Bouza Serrano é o novo presidente da Emissora Nacional. Nomeado pela 5ª Divisão, com 31 anos, declara que “é um erro considerar que todos os antifascistas são obrigatoriamente revolucionários”. Para o novo presidente da rádio estatal, “neste momento, em que a dinâmica do processo revolucionário já ultrapassou muita gente, pode haver objectivamente ditos antifascistas que se manifestem contra-revolucionariamente”.
- O Jornal alude à “terrível impressão” de que faltam, aos que detêm o poder, as armas da inteligência, da lucidez e da autoridade democrática, para executarem as soluções políticas que precisam de tomar. E não hesita em pedir inspiração a Fidel Castro, segundo o qual “ninguém tem o direito de querer fazer passar a depravação, a desordem e a anarquia por socialismo”.
- Depois de Moçambique, Cabo Verde é a segunda colónia portuguesa a proclamar a independência na presença das mais altas autoridades, representadas pelo primeiro-ministro Vasco Gonçalves, que fala de improviso. A cerimónia decorre no Estádio da Várzea, na Cidade da Praia. O secretário-geral do PAIGC, Aristides Pereira, é o Presidente da República.
- O major Aventino Teixeira (afecto ao MRPP) é exonerado de presidente da administração da Sociedade Nacional de Tipografia, a empresa proprietária do jornal O Século e de numerosas revistas.
- São instituídos os conselhos regionais de reforma agrária. (Decreto-lei nº 351/75)
- “É preciso não confundir um antifascista, desejoso de viver numa sociaciedade capitalista com todos os inerentes privilégios, com um antifascista desejoso de viver numa sociedade socialista, onde acabe de vez a exploração do homem pelo homem”. (Pensador comandante Manuel Bouza Serrao, in O Primeiro de Janeiro)
- Os participantes do curso de treinadores, que decorreu no Instituto Nacional de Educação Física (INEF), “chegaram ao extremo de se introduzirem, propositadamente, no balneário feminino, onde foram encontrados a espreitar nos chuveiros”, denunciam os alunos do 3º ano. Em comunicado, os estudantes exigem que cesse imediatamente a utilização das instalações pelo curso. “Perguntamos: são estes os técnicos que hão-de comandar homens no dia de amanhã?”.
- Instala-se a angústia entre os operadores turísticos. Portugal viu diminuir as entradas de visitantes em 35,7 por cento, relativamente a 1973.
- A independência de Cabo Verde, proclamada ontem, na presença do primeiro-ministro, Vasco Gonçalves , ocupa a parte mais nobre das edições de hoje de O Primeiro de Janeiro e do Jornal de Notícias. “A luta de libertação do PAIGC contribuiu poderosamente para a nossa libertação do jugo fascista”, diz Vasco Gonçaves no primeiro, enquanto no segundo aparece, mais directo e contundente, a proclamar “emocionado”: “libertámo-nos da canga do fascismo”. O PAIGC, fundado por Amílcar Cabral, conduziu a luta de libertação na Guiné e em Cabo Verde – dois Estados onde é, a partir de agora, o partido único.
- A primeira página de O Século mostra o ministro da Agricultura, Oliveira Baptista, dirigindo-se, ontem, aos trabalhadores da cooperativa de Casebres, que considera um exemplo do que é a Reforma Agrária. O jornal aponta ainda “a experiência que um grupo de 17 trabalhadores rurais está a levar a cabo em terras de Vale do Mouro, ao construir a Cooperativa Produtora Agrícola de Aveiras de Cima”, como “um exemplo, entre muitos, da luta dos camponeses deste nosso País pela terra a quem a trabalha”.
- O Diário Popular, também com destaque de primeira página, inicia uma série de reportagens sobre a situação nos Açores, onde “o imperialismo norte-americano e as classes possidentes do arquipélago” estão por detrás de uma estratégia separatista que serve “como foco de agitação que alimenta a instabilidade política do País”.
- Trabalhadores da CUF denunciaram, em plenário, relações do grupo “com o imperialismo internacional e a hierarquia católica”. Aquele complexo fabril – que abarca 427 empresas – estava representado na União Católica dos Industriais e Dirigentes do Trabalho (UCIDT), “organização que se pode comparar ao Partido Democrata Cristão nos objectivos que se propunha atingir”.
- “O momento exige que aqueles que escolhem a revolução assumam plenamente a necessária impureza de uma revolução. Como há dias perguntava Piteira Santos, retomando Robespierre: “ou será que querem, a revolução sem revolução?”. (Ideólogo revolucionário Eduardo Prado Coelho, in A Capital)
- Trabalhadores de O Século exigiram a reintegração do major Aventino Teixeira. Administrador-delegado do Governo na empresa, este oficial foi exonerado há quatro dias. Segundo informação por ele mesmo prestada ao plenário, o afastamento ligou-se directamente às declarações elogiosas que proferiu a respeito do líder do MRPP, Arnaldo Matos, detido, como aliás numerosos militantes dete partido político de extrema-esquerda, há mais de um mês, sem culpa formada.
- “O custo da alimentação de uma família média, em Portugal, aumentou 25 por cento entre Maio de 1974 e Maio de 1975”. (in Boletim Conjuntura, do Banco Português do Atlântico)
- “Uma boa parte dos governantes [do Governo de Transição de Angola] é totalmente incompetente, mas nem sequer tem consciência disso, perdendo o seu tempo em escaramuças caricatas para a obtenção de miniprestígio de fachada”. (Vasco Vieira de Almeida, in Diário Popular)
- Reunida durante 18 horas no Centro de Sociologia Militar, em Lisboa, a Assembleia do MFA aprovou “um histórico documento da revolução”, informa o DP. A decisão foi tomada pelos 240 membros da Assembleia – oficiais, sargentos e praças. O Documento-Guia, como virá a ser denominado, institucionaliza a Aliança Povo-MFA. Na prática esta consistirá na ligação entre unidades militares e organismos populares de base, como comissões de moradores e comissões de trabalhadores. Embora diga que não pretende “nem ignorar os partidos devotados à construção do socialismo nem militarizar o Povo”, o texto aponta para a constituição de uma Assembleia Popular Nacional, no topo daquela aliança. As experiências de organização das populações e trabalhadores, nos últimos meses, ver-se-ão deste modo guindadas em breve a ógãos do poder, quer a nível local e regional, quer a nível nacional, como infra-estrutura fundamental da futura Assembleia.
- O título República volta hoje a ser gritado pelos ardinas, nas ruas. Não o República de Raul Rego, Vitor Direito, João Gomes, Álvaro Guerra e de uma maioria de redactores, mas o República da maioria dos trabalhadores não jornalistas, em que prevalece o peso das oficinas. O jornal é dirigido pelo coronel Pereira de Carvalho, proposto aos trabalhadores por uma Comissão Administrativa, nomada pelo Conselho de Revolução, o que contraria a decisão do Governo de entregar o jornal aos proprietários. Os trabalhadores esclarecem, numa nota publicada na primeira página, que o nome do coronel surge no cabeçalho em vez de “Sob a responsabilidade dos trabalhadores”, como antes haviam decidido, mas afirmam que é deles a responsabilidade da feitura do jornal.
- “É a família, essa família tão glorificada, tão cantada, tão dita de base de um sistema Político, que vive na angústia diária a comprimir-se em cacifos a que por ironia e escárnio se chamam de casas assoalhadas”. (in República)
REPÚBLICA – EXEMPLO DA REVOLUÇÃOO!
11 de Julho de 1975
- “Morreu-se no último ano mais do que em 14 anos de guerra”. (in Jornal de Angola)
- Não passaram 24 horas sobre a saída do República e o PS já reagiu da forma mais dura possível – os seus ministros e secretários de Estado cessarão funções.
- Um Conselho de Ministros restrito elaborou um conjunto de projectos-lei que nacionalizam as petroquímicas, sociedades Pirites Alentejanas e Mineira de Santiago, companhia vidreira Covina e o grupo de empresas rodoviárias Camionagem Esteves. Foi decidido igualmente o controlo estatal da cortiça, em vários distritos.
- Descrevendo a chegada do primeiro dos três contingentes militares que partiram de Moçambique na véspera da independência, o Diário Popular conta que se ouviram vozes de soldados a aconselharem Portugal a seguir o exemplo da Frelimo, na criação do...
PODER POPULARR!
12 de Julho de 1975
- “Amigos, camaradas, trabalhadores, companheiros, revolucionários: a luta é de morte com as forças capitalistas”. (Grande camarada brigadeiro Corvacho, em manifestação de apoio ao MFA, in Diário Popular)
- Às 9 horas locais, Nuno Xavier Dias, um capitão da Força Aérea Portuguesa, natural da ilha de São Tomé e que foi eleito presidente da Assembleia representativa do povo do arquipélago, proclamou a independência de São Tomé e Príncipe. O primeiro presidente é Manuel Pinto da Costa, secretário-geral do partido único MLSTP. Dos dois mil portugueses que aí viviam, apenas permaneceram cerca de uma centena, com predomínio para comerciantes.
- Gritos de “não apoiado” e “é mentira” responderam a palavras do almirante Rosa Coutinho no Congresso da Confederação da Indústria Poruguesa (CIP). O representante do CR, acompanhado pelo general Carlos Fabião e pelo ministro do Trabalho, major Costa Martins, considerou que na situação actual de transição para o socialismo não deverá haver “empresário com consciência tranquila que tenha medo do futuro”.
- O Sindicato dos Trabalhadores do Comércio do Distrito de Lisboa assinala a coincidência da realização, durante este fim-de-semana do congresso da CIP e de um plenário de pequenos e médios comerciantes, num contexto de “grande investida da reacção” contra o processo revolucionário – “a fuga dos pides, a propalação de boatos alarmistas, as tentativas de quebra de unidade entre as massas populares e o MFA”.
REACÇÃO A CONSPIRARR!
13 de Julho de 1975
- O líder do MRPP, Arnaldo Matos, escapou do Hospital Militar da Estrela, informa O Primeiro de Janeiro. O matutino portuense diz ainda que Arnaldo Matos “se deslocava agora frequentemente amparado”, depois do agravamento súbito de uma úlcera, razão pela qual aponta como hipótese explicativa para a fuga as “relações com soldados e deficientes das Forças Armadas na Estrela”.
- “As leis vigentes só devem ser cumpridas desde que não contrariem a revolução”, teoriza Otelo, num debate sobre o Documento-Guia, promovido pela RTP.
- “Não haverá grande abalo”, disse Álvaro Cunhal a propósito do abandono do Governo por parte dos ministros socialistas. O PPD, porém, deverá seguir o exemplo do PS.
- Passou-se algures numa sessão de Dinamização Cultural. Chegada a hora da sessão, não havia quase ninguém, a ponto de terem de chamar povo a suas casas. Ninguém parecia querer tomar a palavra, até que uma velhinha a tomou para dizer que lá na terra tinham medo dos comunistas. O oficial dinamizador vai de puxar de todo o seu poder oratório e persuasivo, para afastar os temores da duvidosa velhinha. Que isso era tudo enganos que lhe metiam na cabeça, que se pretendia melhorar as vidas de cada um e dar água e dar estradas e dar hospitais e etc. “Percebeu?”, disse por fim. “Bem, se eles são assim como o senhor diz, já gosto deles. Mas então por que lhes chamam esse nome??”. (in Expresso)
OBSCURANTISMO FASCISTAA!
14 de Julho de 1975
- “Diz que não sei quê / Que quer construir / Socialismo em liberdade / Mas isso para mim / Que não sou de intrigas / Cheira-me a continuidade”. (Versos de uma cantiga de Carlos Alberto Moniz, Maria do Amparo, Alfredo Vieira de Sousa e Pedro Osório)
- “Combates em Angola onde há mortes às centenas”, titula o Diário de Notícias. O MPLA expulsou a FNLA de Luanda. A situação é “preocupante”, diz o ministro Melo Antunes. O chefe da diplomacia portuguesa fala em “ambição de poder” das diversas forças políticas em presença em Angola e disse que os portugueses que ali vivem estão a ser “violentados física e psicologicamente”.
- Contrariando intenções do Governo e do CR, apostados em criar “legislação adequada e tribunais específicos para o julgamento de criminosos fascistas como os ex-agentes da PIDE e os implicados na intentona reaccionária de 11 de Março”, o Plenário de Advogados, reunido em Coimbra, aprovou uma moção que recusa a criação de tais tribunais especiais. Os advogados rejeitaram estrondosamente uma moção que propunha o “apoio incondicional à linha política do CR”, bem como uma outra em que se defendia a adaptação da profissão ao rumo socialista iniciado no país. O autor, Duarte Vidal, sugeria que grupos de advogados se delocassem “a países onde vigoram regimes que caibam na designação genérica de socialistas, a fim de serem coligidos elementos necessários à mais correcta inserção da advocacia na nova sociedade”. Esta proposta provocou uma incontida onda de protestos, com a assistência de pé, gritando “fora, fora”...
E pronto! O PREC desloca-se a mais uma acção de dinamização cultural, desta feita a terras da Beira Alta. Antecipando as suas notícias diárias, o PREC solidariza-se com a batalha da produção!
Ainda cá estou, ó fascista Aliano! Vê lá não te denuncie ao camarada Otelo para ires bater com os costados a Caxias! Esta reacção ao serviço do imperialismo americano sempre a conspirar...
- “Neste final de ano lectivo, o mestre vai ser o Povo”, disse o segundo comandante da Academia Militar, brigadeiro Balacó, no arranque dos exercícios finais, que este ano consistem numa “campanha de dinamização cultural e cívica” no distrito da Guarda. Os alunos da Academia empenhar-se-ão, fundamentalmente, em “trabalhos de engenharia civil”, fazendo reparações nas aldeias. A campanha, intitulada “Trabalhar com o Povo, construir a Revolução”, decorre até 5 de Agosto e envolve meio milhar de homens. A Academia Militar é comandada, neste momento, pelo general Pinto Soares, membro do Conselho da Revolução.
- “São na ordem dos milhares, os mortos, feridos e desaparecidos em consequência de quatro dias de combates em Luanda”. (in Diário Popular)
- Segundo o DP, registaram-se em Rio Maior “autos-de-fé” provocados por “grupos de reaccionários” que, no meio de “insultos e ameaças à imprensa”, rasgaram e queimaram os maços de jornais transportados pelas carrinhas do DL, que distribuía também aquele jornal. O Comércio do Porto julga saber que na base dos ataques esteva a forma como os citados jornais noticiaram ontem os acontecimentos em torno do assalto às sedes locais do PCP e da FSP.
- Regulamento da cessação do contrato individual de trabalho (vulgo “Lei dos Despedimentos”) – Decreto-lei nº 372-A/75
- A Comissão de Moradores da Freguesia de Santa Isabel, onde se situam as instalações do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, condenou a atitude dos alunos que têm criado “um clima de anarquia naquele estabelecimento de ensino, com prejuízo para o aproveitamento escolar dos verdadeiros estudantes”. A Comissão diz que os prejuízos causados pelos alunos no liceu “excedem já os dois mil contos”. E porque considera que “o povo trabalhador não pode continuar a permitir que o dinheiro que paga para manter as escolas seja impunemente delapidado por delinquentes da burguesia”, exige que o Ministério da Educação assegure a execução das decisões da Comissão de Gestão e propõe que a distribuição dos candidatos pelos diferentes estabelecimentos de ensino seja feita “não de forma elitista, como até aqui, mas ouvindo as Comissões de Moradores”. Assim se garantirá “um critério baseado na localização geográfica das residências dos estudantes e na defesa dos interesses das classes menos favorecidas”, conclui a moção.
- “Camaradas, tenho de vos dizer, com a lealdade e a verdade que me caracterizam, que estão a cometer um erro. O general Otelo Saraiva de Carvalho é um herói do 25 de Abril”. (Camarada revolucionário Mário Soares, perante uma manifestação que gritava “Otelo para Moçambique”)
- O PPD abandonou o Governo. Os dirigentes do partido tomaram a decisão depois de Costa Gomes os ter chamado para lhes comunicar que o Conselho da Revolução não aceitara as condições colocadas pelo partido para continuar no Governo. Chegou ao fim, desta forma, o modelo de coligação governamental que vinha funcionando desde o 25 de Abril. Vasco Lourenço, porta-voz do CR, disse que Vasco Gonçalves irá, o mais rapidamente possível, constituir o V Governo Provisório, “a formar por militares e civis de comprovada capacidade e progressismo”.
- Quase em reunião permanente, o CR aprova uma proposta de Marques Júnior, delegando poderes numa comissão constutuída por Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo.
- Ontem ao fim da tarde, em Lisboa, milhares de pessoas marcharam até São Bento apoiando o MFA e gritando “Dissolução da Constituinte, já!”. Abriam o desfile centenas de militares fardados, de vários regimentos da área de Lisboa, entre os quais o Ralis, que mandou blindados. O repórter de A Capital reconheceu num deles o major Diniz de Almeida (a figura mais destacada na defesa do quartel, no 11 de Março) em direcção a quem, quando o reconheceu, a multidão começou a gritar: “Operários e camponeses, soldados e marinheiros, unidos venceremos”.
- O chefe do Exército, Carlos Fabião presidiu à cerimónia do juramento de bandeira no RI5. O repórte de A Capital não poupa palavras de elogio: “O juramento de bandeira, longe de assumir o carácter de festa na parada, foi um autêntico acto em campanha. Ao desfile não se seguiu o opíparo banquete dos generais, antigamente custeado pela depredação do miserável pré dos recrutas. Agora não: Fabião, general, Silva, recruta, ambos de marmita na mão, toca de pôr na bicha para o rancho, ao ar livre, que, vá lá, foi melhorado pois os rapazes já andavam há uma semana a comer conservas”.
- João Cravinho e Jorge Sampaio, do grupo ex-MES, apresentam um longo documento sobre “a crise geral do sistema”, que resulta “de a burguesia se mostrar já incapaz de governar e de o proletariado não ser ainda capaz de o fazer”.
- O PS em Braga e o PPD no Porto mobilizaram milhares e milhares de pessoas ontem à noite, em concentrações marcadas por um tom de crescente crítica à imprensa e assobios ao MFA. A Capital diz que a cidade do Porto será hoje um “centro de tensão política”. Refere-se ao comício, antecedido de concentração, que o PS marcou para esta noite, no Estádio das Antas, e à concentração precedida de interrupção do trabalho nos serviços públicos pelas 17 horas, a pedido de comissões de moradores e de trabalhadores, bem como da Intersindical, MDP/CDE, FSP, MES, LUAR, LCI, Faculdades de Ciências e de Belas-Artes e comissão administrativa da Câmara.
- “Vigilância – a maior força do povo” é o título colocado a toda a largura na primeira página do República. Este jornal diz em manchete que o PS e o PPD se uniram “em santa aliança” e prevê que a “campanha de agitação política” em que estão empenhados deve atingir “o seu ponto alto”, através de comícios e manifestações, este fim-de-semana, no Porto e em Lisboa. Há já referâncias a barragens de estrada montadas nas proximidades da capital.
- O dramaturgo e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, Luís Francisco Rebelo, saiu do PS. Na carta de demissão, acusa os dirigentes deste partido de traírem “os verdadeiros socialistas e o socialismo”, ao romperem “a unidade das forças progressistas e a unidade entre o Povo e o MFA”.
- Perante a convocatória de uma manifestação na Alameda Afonso Henriques, na capital, onde se irá pedir a demissão de Vasco Gonçalves, o Copcon controla os acessos a Lisboa, onde populares levantaram barricadas, incitados pelo PCP, sindicatos e boa parte da imprensa escrita. Já ontem, no Pavilhão dos Desportos, Álvaro Cunhal falou em “impedir uma marcha sobre Lisboa” e exortou à edificação de uma “verdadeira muralha aço”. Também a Intersindical, em comunicado, considerou ontem à tarde que “a marcha sobre Lisboa reúne condições para nela se incorporarem todas as forças reaccionárias empenhadas no regresso do país aos tempos da ditadura fascista”.
- “A reacção quer hoje marchar sobre Lisboa. Como Mussolini sobre Roma e os fascistas no 28 de Setembro sobre Belém”. (Primeira página do jornal República)
- “Povo e militares nas barricadas em defesa da Revolução”. (Manchete do Diário de Notícias)
FORÇA, FORÇA, COMPANHEIRO VASCO, NÓS SEREMOS A MURALHA DE AÇOO!
- O comício de ontem, na Alameda Afonso Henriques, juntou mais de cem mil manifestantes, descontentes com o caminho que a revolução vem tomando. Contudo, a imprensa escrita de hoje não dá relevo a este comício. O Primeiro de Janeiro prefere apresentar a foto de uma barragem levantada por populares e militares na auto-estrada do norte, durante a manhã de ontem, destinada a impedir o acesso de manifestantes à Fonte Luminosa.
- O Jornal de Notícias e O Primeiro de Janeiro dão grande relevo a um documento da autoria do primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, sobre a situação política. A importância da análise advém-lhe não tanto, embora também, da autoria, mas por que foi aprovado na generalidade pela Assembleia do MFA. Vasco Gonçalves dá por adquirida a “situação de crise generalizada” que o país atravessa e cujas raízes encontra no “arsenal de manobras insidiosas” a que recorreu o capitalismo, no sentido de impedir o avanço do processo revolucionário a seguir ao 11 de Março.
- “Há que evitar que a árvore esconda a floresta. É revolucionário tudo quanto faz avançar globalmente a revolução e é contra-revolucionário tudo quanto, globalmente, a faz recuar ou lhe cria dificuldades”. (Visionário e pedagogo camarada Vasco Gonçalves, in O Primeiro de Janeiro)
- A Emissora Nacional passa a transmitir um programa diário intitulado “Terra a quem a trabalha”.
- A onda de manifestações prossegue, em Viseu, desta vez a cargo da diocese. A 5ª Divisão reage e inicia uma campanha de apoio a Vasco Gonçalves.
- A profundidade da divisão entre os descontentes do processo revolucionário e os militares está bem patente num comunicado que o MFA, através da 5ª Divisão, difundiu, ao princípio da madrugada, e a que a imprensa dá maior relevo que à manifestação da Fonte Luminosa. Nesse comunicado, consideram-se “caluniosas as dúvidas insinuadas sobre a isenção partidária do general Vasco Gonçalves”, a quem se reafirma “o seu inteiro apoio”, confiante “no seu elevado espírito revolucionário para levar a bom termo a tarefa de formação do novo Governo Provisório”. E nele diz-se mais: a designação dos chefes de Governo é da competência do MFA, que não reconhece para tal “representatividade bastante a nenhuma organização partidária”.
Em assembleia geral, os trabalhadores deste blóguio decidiram, democraticament e por unanimidade (votação de braço no ar), exigir à comissão de gestão desta Unidade Colectiva de Produção a que tu presides a imediata criação de uma nova página, satisfazendo os legítimos anseios dos milhares e milhares de camaradas, que não estão para andar a perder tempo com o cursor para baixo e para cima. A não satisfação desta pretensão terá como consequência o recurso à greve por tempo indeterminado e será encarada como uma manobra reaccionária e fascizante, inimiga do avanço da Revolução, e uma força de bloqueio à desejada batalha da produção.
- “O Partido Socialista é hoje o pólo de atracção da reacção. É possível que Mário Soares ainda não saiba, mas qualquer de nós sabe”. (Ideólogo Eduardo Prado Coelho, in A Capital)
- Centenas de homens, mulheres e crianças aglomeraram-se na aerogare de Luanda, esperando vaga nos aviões da TAP. Apesar de já não haver lugar nos hotéis, pensões e hospedarias, começaram a afluir à capital angolana inúmeras pessoas idas de Henrique de Carvalho, Malanje, Dalatando, Silva Porto e Nova Lisboa, a fim de se fazerem transportar rumo a Portugal.
- O Ministério do Equipamento Social e do Ambiente quer aumentar para 140 os 44 quilómetros de que o país dispõe neste momento em auto-estradas. Assim, deverão reabrir no segundo semestre do ano que vem os troços entre Vila Franca de Xira e o Carregado e entre o Fogueteiro e Setúbal. Um ano depois será a vez do lanço entre o Carregado e Aveiras de Cima. A norte, a ligação entre Carvalhos e São João da Madeira entrará em funcionamneto também em 1977, esperando-se que a ligação Porto-Famalicão abra no segundo semestre de 1978. Foi decidido também prolongar até Cascais a A5, que neste momento não vai além do Estádio Nacional.
- A 5ª Divisão lança um mote de apoio ao primeiro-ministro, publicado em cartaz de João Abel Manta na capa do Diário de Notícias: “Força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço”.
- O MES promove um comício em Lisboa: Nele, afirma Augusto Mateus: “enquanto vivermos numa sociedade de classes, terá de haver sempre ditadura; nós já escolhemos a ditadura revolucionária do proletariado”.
- “Os trabalhadores [da Sociedade Agrícola D. Dinis, no monte da Ravasqueira, Arraiolos] pedem o imediato saneamento do administrador António Jorge da Fonseca Alcobia, actualmente com residência fixa (...). Acusam-no de se preocupar mais com o seu canil – onde os 70 galgos eram alimentados a leite, carne de burro e toucinho – e com a sua ganadaria, do que com os trabalhadores agrícolas e laranjais”.
Teresa ou Camarada Leandro, como parece que por estas bandas es conhecida,
Ja nao vinha ca ha muito tempo. Admito que so pelos comentarios a este post, animados por uma so alma com tempo disponivel e bom humor ja me ri o suficiente para uma semana!
Fica o lembrete para visita semanal a fim de poupar em psicoterapia fatela.
- “Formar mais uma vez um Governo com base nas forças políticas que têm estado representadas em anteriores coligações é brincar com os trabalhadores, que ainda ultimamente foram levados, por esses mesmos partidos, a confrontações físicas na rua”. (Isabel do Carmo, grande dirigente do PRP/BR)
- “A eminência de uma marcha reaccionária sobre Angra do Heroísmo e a quase impune actividade separatista de forças contrárias aos interesses legítimos do povo açoriano levaram à demissão de todas as autoridades civis do distrito autónomo de Angra do Heroísmo”. (in República)
- “A enorme maioria do povo português detesta o comunismo. É verdade que, segundo Oliveira Martins, também detestava os liberais e amava os caceteiros absolutistas. (...) Mas não foi bem Salazar que instalou este ódio – foi a breve prática comunista destes meses de revolução, as arbitrariedades, prepotência, lavagens à agulheta do cérebro da imprensa, rádio e TV, a instabilidade das leis que se desprezam quando não favorecem os comunistas”. (Vergílio Ferreira, in Conta Corrente 1)
- Depois de um almoço campestre em que tomaram parte mais de 1500 trabalhadores e elementos da Escola Prática de Artilharia, de Vendas Novas, e algumas praças da GNR local, o povo do Couço marchou sobre seis herdades daquele concelho para proceder à sua ocupação, no cumprimento de determinações emanadas do Instituto de Reorganização Agrária (IRA). O cortejo, constituído por 42 tractores com atrelados, pôs-se em marcha com todos os que nele se incorporaram a cantar poemas revolucionários e ocupou sucessivamente os cerca de seis mil hectares das herdades do Engal, do Esparteiro, das Faias, das Águas Belas, da Aldeia Velha e do Peso. Nesta última, onde chegou já perto da noite, a caravana era esperada por uma comissão de trabalhadores, com a qual confraternizou, dando todos largas à sua alegria.
- Determinação das punições a aplicar aos funcionários, agentes e responsáveis da ex-PIDE/DGS, estabelecendo-se que deverão ser julgados em tribunal militar – Lei nº 8/75
- Foi libertado o trabalhador rural José Diogo, que assassinou à facada, em Castro Verde, Columbano Monteiro, um proprietário agrícola de 78 anos, que o despedira. Na ausência do réu e do advogado de acusação (Proença de Carvalho), o tribunal de Tomar fixa-lhe uma caução de 50 contos. No exterior, organiza-se um “tribunal popular”, constituído por 20 membros eleitos pela numerosa audiência e que se reúne nas escadarias do edifício. José Diogo, assassino confesso, é absolvido, enquanto “o latifundiário assassinado é condenado postumamente, pela opressão e exploração que exerceu sobre o povo e declarado inimigo do povo alentejano”. A fiança é paga pelo deputado da UDP, Américo Duarte. À noite, José Diogo comparece num comício daquele partido no Campo Pequeno.
- “O camarada José Diogo, desde há um ano vítima das malhas da justiça burguesa, defensora da burguesia e repressora do povo, foi libertado hoje”. (in República)
- “O tribunal popular, democraticamente eleito pelo povo presente, perguntou se alguém se queria constituir em defensor do latifundiário Columbano: porque não apareceu nenhum defensor, foi lida a peça de acusação e depuseram duas testemunhas que explicaram a opressão e exploração de que foram vítimas por parte de Columbano”. (José Diogo libertado”, in República)
- O plenário da assembleia do MFA centralizou o poder político-militar em três elementos do Conselho da Revolução: Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho. O MDP/CDE diz que estas medidas “são extremamente positivas”, pois “marcam um reforço da autoridade, necessário ao avanço democrático em direcção ao socialismo”.
- O Luta Popular, órgão central do MRPP, vai passar a diário. O jornal, cuja tiragem oscila entre os 60 e os 80 mil exemplares, deverá incluir, nesta nova fase, páginas de economia, de cultura e de política internacional, para o que “foram já estabelecidos contactos com a República Popular da China”. Saldanha Sanches deve manter-se como director.
NINGUÉM CALARÁ A VOZ DA CLASSE OPERÁRIAA!
27 de Julho de 1975
- Eusébio, hoje com 33 anos, decidiu assinar por dois anos com um clube de Boston que lhe pagará três mil contos.
- Vasco Gonçalves encerra o Congresso dos Sindicatos, com um improviso de uma hora. Presentes na Gulbenkian representantes de 200 sindicatos, que saúdam vibrantemente o “companheiro Vasco”, rodeado de numerosos militares gonçalvistas. “O primeiro golpe que demos no capitalismo monopolista do Estado foi a aprovação da unicidade sindical”, afirma. O novo secretariado da Intersindical só integra militantes do PCP; até Manuel Lopes, o militante do MES que presidia à sessão de abertura do congresso, é excluído do órgão.
- Maria Fernanda dos Santos Maia fala, no Jornal de Notícias, da luta de 20 anos da gente do seu bairro por uma casa digna. Participa, juntamente com numerosos activistas de Comissões/Associações de Moradores e das Brigadas Técnicas, no I Encontro SAAL – Norte, que está a decorrer no Centro de Formação Profissional Acelerada, ao Cerco do Porto. “No Bairro do Acácio (São Roque da Lameira) são 52 casas e nenhuma delas tem retrete. Servimo-nos de um balde e vamos despejá-lo à lixeira”, conta, desafiando a história de sucessivos requerimentos à Câmara, que esta “abafava”, mas de que nunca quiseram desistir: “Fomos teimosos. Agora, o terreno está expropriado”. Segue-se a construção de 47 fogos. É verdade que o senhorio “anda com ordens de despejo. Ele ainda não acredita que a exploração acabou”. Fernanda acredita. Mais: tem a certeza. Tanta, como a certeza de que vai ter uma casa. De que todos vão ter uma casa.
A PAZ, O PÃO, HABITAÇÃOO...!
28 de Julho de 1975
- Em entrevista ao órgão central do PC austríaco, Álvaro Cunhal disse que o seu partido não confunde “os objectivos da revolução com os da democracia burguesa” e que a luta dos comunistas portugueses se faz “por um regime caracterizado pelo mais amplo direito às liberdades”. Cunhal aproveita para deixar um aviso: as “forças reaccionárias” pretendem “realizar um golpe de Estado” em Portugal, “alegando o perigo de um suposto golpe que estaria a ser fomentado pelo Partido Comunista”.
- Recentemente “liberto pelo povo” do Hospital Militar Principal, onde estava detido, o secretário-geral do MRPP, Arnaldo Matos, analisa em A Capital a concentração de poderes no triunvirato Gomes, Gonçalves e Otelo. “Em termos de classe”, diz o líder a quem chamam “o grande educador da classe operária”, a decisão de criar um triunvirato significa “que a pequena burguesia democrática (de Melo Antunes a Vasco Lourenço), de que o grande capital se serviu para procurar iludir a classe operária (...), foi empurrada do palco para os bastidores”, pois tornou-se “incómoda” para o “grande capital, imperialista ou social-imperialista”. Há duas possibilidades muito reais, avisa: a de um golpe “fascista e social-fascista” e a de uma “guerra civil, a desencadear, quiçá, brevemente”.
- Otelo é o convidado de honra de Fidel Castro no comício do 22º aniversário da revolução cubana. Único orador estrangeiro, fala em castelhano e em uniforme de campanha: irmãos na humilhação, somos irmãos no combate e seremos irmãos na liberdade...
- “Marteleiros, os famigerados fabricantes de vinho a martelo, intermediários e contrabandistas, actuando, normalmente, na sombra, através da influência exercida sobre seus, são, regra geral, os organizadores das manifestações reaccionárias caracterizadas pela violência, explorando massas populares que durante tantos anos foram sujeitas a uma intensa propaganda anticomunista”. (“Anticomunismo à solta na Lourinhã e Torres Vedras”, in A Capital)
- Anda agitada a vida política em Sintra. Mais de mil pessoas, escreve A Capital, juntaram-se ontem à noite diante da Câmara, num comício “de repúdio pela manobra contra-revolucionária intentada nomeadamente por industriais da construção civil”, que pretendem a expulsão da “comissão administrativa democrática” e voltar a colocar a autarquia “ao serviço dos exploradores do povo”.
- Fixação das normas a que devem obedecer as expropriações rurais, visando a liquidação do domínio dos grandes agrários – Decreto-lei nº 406-A/75
- Medidas de crédito agrícola às cooperativas de agricultores e unidades colectivas de produção – Decreto-lei nº 406-B/75
- Extinção das coutadas, consideradas uma fonte de privilégios – Decreto-lei nº 407-C/75
- Foi demitido da função pública o catedrático Soares Martinez. O República chama-lhe “sórdido personagem”, admirador de Salazar, de quem foi ministro da Saúde, e “gorila-mor” da Faculdade de Direito de Lisboa, enquanto “introdutor e solícito anfitrião da última maravilha técnica desenvolvida pela Reforma Veiga Simão – os ‘gorilas’”.
- “Sei que ele era um homem de esquerda e surpreende-me bastante as posições que ele defende neste momento. Tenho de falar com ele para saber se, realmente, está ou não com a social-democracia europeia”. (Decisor e mentor Otelo, sobre Mário Soares, in A Capital)
- “Por tudo o que vi [durante uma semana, em Cuba], concluo que vale a pena construir o socialismo”. (Camarada socialista Otelo, à chegada ao aeroporto de Lisboa)
- “Vai-se tornando impossível fazer uma revolução socialista na totalidade pacífica”, disse Otelo a A Capital, usando mais uma vez a imagem do Campo Pequeno para significar a possibilidade de acções repressivas por parte das autoridades militares.
- A cooperativa de Aveiras de Cima ocupou a Herdade do Pombal, alargando assim para 4500 hectares o terreno que os seus 18 trabalhadores exploram neste momento. Um porta voz do IRA disse que “este grupo tem mostrado boas intenções e um certo grau de participação”, mas não deixou de advertir que tanto este organismo como os Conselhos Regionais da Reforma Agrária “não poderão avalizar acções irreflectidas que possam prejudicar os interesses das classes exploradas dos campos”.
- O Jornal de Gaia passou hoje a ser publicado sob a responsabilidade única dos seus trabalhadores. Objectivo: torná-lo um jornal ao serviço do poder popular.
- “O povo açoriano, manipulado pela reacção internacional (com destaque para o imperialismo norte-americano), enferma de um anticomunismo encarniçado e tem do continente ideias em regra totalmente deformadas”. (“Manipulação do povo açoriano”, in Diário de Notícias)
- Está constituído o Comité Revolucionário dos Estudantes de Direito. O manifesto afirma que, no momento histórico que atravessamos, era necessária e urgente a criação de um órgão estudantil que, “mergulhado profundamente na luta de classes, organizasse e dirigisse o pequeno exército popular constituído pelos estudantes”.
- Aparece envolto em mistério o afastamento de Jaime Neves do Regimento de Comandos, na sequência de um plenário, ontem, na unidade. O Copcon ratificou a decisão, inédita, ao emitir um comunicado no qual alude à saída do regimento de nove oficiais e quatro sargentos, falando na necessidade de maior disciplina, eficiência e consciência política por parte da unidade.
- “Os novos turistas, de sacos às costas, que vêm ver a revolução, vêem com olhos de ver e auscultam Portugal como os outros não faziam”. (in O Jornal)
- Diariamente partem de Luanda sete aviões com destino a Lisboa. A Reuters estima em 300 mil os portugueses a evacuar atè à independência. Trata-se, no dizer de um observador, do “maior êxodo de colonos brancos registado em África desde a guerra da Argélia”.
- Silva Cardoso, sub-comissário em Angola, pede a demissão. Alarmado com a guerra civil, o Conselho da Revolução envia uma missão a Luanda. A 5ª Divisão, por seu lado, passa a fazer uma apreciação prévia das notícias das agências sobre Angola.
- “À esquerda do PCP (que, por outro lado, procura a todo o transe não perder o comboio do movimento de massas, cuja dinâmica o ultrapassa), desde o MES ao MRPP, todas as organizações com uma presença significativa na cena política portuguesa lançam-se hoje no grande salto em frente do poder popular”. (Vicente Jorge Siva, in Expresso)
- Comentário de Otelo para Jaime Neves, após se ter avistado com os rebeldes do Regimento dos Comandos: “Jaiminho, perdeste a confiança dos teus homens”.
- Durante a semana que passou, foram 421 as operações clínicas adiadas e doentes cujos tratamentos foram atrasados por falta de sangue nos três principais centros urbanos do país.
É SÓ SAÚDEE!
3 de Agosto de 1975
- “Custa-me realmente ver a maneira como parte do povo português, especialmente os colonos e os emigrantes, são agredidos constantemente por determinados órgãos de informação, o que conduz, efectivamente, a um destroçar da sociedade portuguesa. Pois, se for necessário novo golpe, com a finalidade de repor o equilíbrio na actual conjuntura nacional, desde que seja para o bem do povo português, não hesitarei em entrar nele”. (Jaime Neves, in Jornal de Notícias)
- Sob a ameaça de populares, cerca de 40 militantes do PCP foram evacuados pelo Exército da sede do partido, em Vila Nova de Famalicão. Tudo começou com uma manifestação de trabalhadores da Têxtil Manuel Gonçalves, favoráveis ao regresso do patrão.
- “O povo diz-nos que devemos avançar na conquista do poder”, proclamou-se ontem à noite no Porto, num comício do MRPP que contou com a presença de Arnaldo Matos.
- A Comissão de Moradores da Zona Geográfica de Fanares de Algueirão/Mem Martins, “no sentido de remediar a carência que se faz sentir de salas de aulas para o Ensino Primário, bem como a inexistência de um verdadeiro centro de cultura”, decidiu, em plenário, propor a ocupação da Vivenda Conde, no Largo da Estação, conta o Jornal de Notícias. Aprovada a proposta, procedeu-se à ocupação, “tendo a comissão iniciado as suas realizações de carácter cultural com uma exposição fotográfica sobre a construção do socialismo na China”...
- Álvaro Cunhal disse em Évora que “durante alguns meses a reacção pôs a máscara democrática, escondendo-se atrás de partidos que dizem ser pela revolução. Agora, já mostra a cara”. O dirigente comunista falava num comício junto do templo de Diana. “Depois do 25 de Abril, as forças políticas de esquerda quase que esqueceram os fascistas e eles agora levantam a cabeça”, lamentou Cunhal. Antes, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Manuel Vicente, declarara enfaticamente que, “se a defesa da revolução exige pegar em armas, o povo alentejano estará nas primeiras linhas”.
- Em Beja, durante o I Encontro dos Trabalhadores das Herdades Colectivas e das Cooperativas Agrícolas do Distrito, ouviu-se a voz de um delegado sindical de Ferreira do Alentejo falar igualmente na possibilidade do recurso a armas: “Se eles, os fascistas, têm armas, nós também as temos. Chamam-nos gatunos... Que chamará a gente a esses malandros que nos roubaram durante 48 anos?”
- Com a ajuda da Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas, são ocupadas sete herdades de Mora.
- A Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida por Álvaro Cassuto, dá um concerto ao ar livre no bairro de Benfica, com obras de Joly Braga Santos (Temas sobre um coral alentejano) e Frederico de Freitas (Ribatejo). “Música, uma arma da revolução ao serviço do povo” – lê-se num painel.
- “No Alentejo, se não for um golpe traiçoeiro e de surpresa, a força organizada dos trabalhadores está em condições de dar aos reaccionários os devidos correctivos. Mas no Centro e no Norte a situação é difícil. Muitos centros de trabalho do Partido têm sido assaltados e incendiados. Defender os centros de trabalho do PCP é defender a liberdade de todo o nosso país”. (Camarada Barreirinhas Cunhal, in Jornal de Notícias)
- O clime de violência política é atestado por um relatório oficial: só entre 29 de Julho e 5 de Agosto houve 25 incidentes, entre os quais dez assaltos a sedes de partidos. Um dos mais recentes é em Famalicão, onde o cerco à sede do PCP causa dois mortos e numerosos feridos.
- “No tribunal de polícia respondeu ontem o motorista X..., acusado de injúrias e tentativa de agressão à autoridade, na sequência da pretensão de fumar dentro de um autocarro do STCP. Avisado pelo condutor sobre a legislação e consequente transgressão que o seu acto implicava, não acatou o aviso, o que originou a intervenção de um agente da PSP. Este foi mal recebido por X..., que retorquiu: ‘agora não há leis e vem esta merda proibir-me de fumar?’ De seguida, proferiu uma sequência de insultos do mesmo jaez, pelo que acabou por ser detido e levado para a esquadra. Ainda aqui, retomou a sua linguagem destravada, apelidando desta feita o Governo Provisório de ‘fantoche’ (além de chamar aos seus membros ‘comunistas’ e ‘bandidos’). Perante o juiz, constatou-se que desconhecia a legislação em vigor, visto ser um deslocado de Angola. O ‘ambiente desfavorável’ foi invocado como atenuante, que contou ainda com a precária situação económica. Assim, acabou por ser condenado em 30 dias de prisão, ficando a pena suspensa pelo prazo de dois anos”. (“Banco dos Réus”, in Jornal de Notícias)
- “O Partido Socialista terá de perceber que estamos a fazer uma revolução e deixar de pretender resolver tudo através do eleitoralismo e do parlamentarismo”. (Grande ideólogo Vasco Lourenço (de Melena e Pá), in Jornal de Notícias)
- O JN e O Século publicam textos de teor editorial sobre o clima de violência em que o país mergulhou e de que são exemplo, nas últimas horas, a destruição das sedes do PCP, MES e FEC, em Santo Tirso; o rebentamento de uma bomba em Lisboa, matando o seu autor; detonação de uma carga explosiva num camião da engenharia do Exército, que participava no melhoramento de estradas em Pinhel; e, esta manhã mesmo, o assalto e queima de documentos nas sedes do PCP e do MES em Bombarral.
- A Assembleia Constituinte arrasa o projecto de Lei de Imprensa do ministro Correia Jesuíno. O documento prevê uma Comissão de Análise dos Meios de Comunicação Social, constituída por seis militares. Finalidade: “ajuizar da existência de práticas condenáveis e aplicar sanções”.
- “Portugal é o laboratório de ensaio da revolução socialista da Europa”, disse Ernest Mandel, dirigente e teórico da IV Internacional (trotskista).
- O Jornal Novo saiu à rua com uma terceira edição para o dar a conhecer na íntegra, de modo a satisfazer “a espectativa [sic] do público”. Foi esta tarde entregue ao Presidente da República. Vem dactilografado ainda e é “cacha” jornalística absoluta, apesar de correr nos meios políticos que estava a ser elaborado um documento de alternativa política para os caminhos que a revolução vem trilhando. Trata-se de um desafio frontal, ainda que sem nomes, a Vasco Gonçalves, ao PCP e à esquerda revolucionária. O jornal denomina-o de Documento Melo Antunes, mas em breve ficará conhecido por Documento dos Nove, numa referência ao número dos seus subscritores, todos membros do Conselho da Revolução: Vasco Lourenço, Canto e Castro, Vítor Crespo, Costa Neves, Melo Antunes, Vítor Alves, Franco Charais, Pezarat Correia e Sousa e Castro.
- Chegou-se ao momento “das grandes opções”, escrevem os Nove. O momento de terminar “com as ambiguidades que foram semeadas e progressivamente alimentadas por todos aqueles que, dentro e fora das Forças Armadas, estavam interessados no descrédito de uns tantos, para melhor poderem fazer valer e impor as suas próprias ideias”. O documento assume que, subjacente ao Programa das Forças Armadas, existia “um pensamento de esquerda”, que nele inscreveu “o essencial das propostas políticas que apontavam para um dado modelo de socialismo”. O balanço que faz do período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril é, contudo, muito crítico. Portugal encontra-se “em mais uma encruzilhada da história”. Compete ao MFA, “em completa independência dos partidos políticos, definir um projecto político de transição para o socialismo” que diga não, simultaneamente, à “ditadura burocrática” e ao “anarquismo e populismo”. Para tanto, concluem os Nove, “é necessário reconquistar a confiança dos portugueses, acabando os apelos ao ódio e as incitações à violência e ao ressentimento”. Ora, avisam, uma tal sociedade, baseada na tolerância e na paz e não sujeita “a novos mecanismos de opressão e exploração”, não poderá ser construída “com a actual equipa dirigente, ainda que parcialmente renovada, dada a sua falta de credibilidade e manifesta incapacidade governativa”.
- “A solução que hoje vos apresento é uma medida transitória, um Governo de passagem, que espero seja a pausa política para, em clima de ordem, disciplina e trabalho, se poder construir algo de mais definitivo. (...) Ninguém é dono da Revolução, ninguém é dono da verdade absoluta: sejamos firmes mas suaves, combativos mas tolerantes nas lutas políticas que traçarão o rumo da Revolução Socialista Portuguesa”. (Presidente da República Costa Gomes – o “Rolhas” -, no acto de posse do V Governo)
- Correia Jesuíno, reempossado ministro da Comunicação Social, pronunciou-se já, a título pessoal, sobre o Documento dos Nove apontando-o como “uma espécie de pronunciamento que exige um contrapronunciamento”. Este poderá assumir diversas formas: “uma dela é deixar cair no vazio a atitude inglória destes oficiais, outra é a mobilização de massas, outra ainda será a actuação por vias militares”. O Directório pronunciou-se também contra a atitude dos autores do documento, “gravemente perturbadora do processo revolucionário em curso, divisionista” e que “aproveita a escalada reaccionária”. Otelo faz idênticas críticas: “pernicioso para o processo revolucionário em curso e causador de divisionismo entre os militares”.
- A Assembleia aprovou os três primeiros artigos da Constituição. Sem os votos do MDP, que continua sem comparecer em protesto contra palavras de Lopes Cardoso, ontem, e, no segundo e terceiro artigos, do deputado da UDP. Américo Duarte abandonou o hemiciclo depois de o presidente lhe ter desligado o microfone. Antes, recusou-se a retirar a palavra “fascista” com que insistia em dirigir-se ao fundador do CDS, Freitas do Amaral.
- Logo na tarde da sua tomada de posse, o V Governo decidiu a nacionalização das cervejeiras e da Setenave, a redução do preço dos adubos e a abertura de um crédito especial aos municípios.
- A Assembleia Constituinte aprovou ontem os artigos 6º e 7º da Constituição, este último reconhecendo o direito à insurreição “contra todas as formas de opressão, nomeadamente contra o colonialismo e o imperialismo” e preconizando “laços especiais de amizade e cooperação com os países de língua portuguesa”.
- Desfez-se o Governo de Transição em Angola. O MPLA combate agora em duas frentes: contra a FNLA, cujas forças se encontram às portas de Luanda; e contra a UNITA, que até agora se tinha mantido relativamente equidestante das duas facções em confronto. Ndalatando, Malanje, Henrique de Carvalho, Novo Redondo, Carmona e Negage encontram-se praticamente abandonadas e, dos 15 distritos angolanos, apenas três contam com o respectivo governador. O panorama, escreve o Expresso, é “de guerra total”.
- “Se esta revolução ainda não acabou, então teremos de aceitar que a crise, assim entendida, é ela caminho da revolução e não consequência da revolução”. (in Diário de Notícias)
- Os nove autores da carta ao Presidente da República sobre a situação política viram as suas funções no Conselho da Revolução suspensas por decisão do Directório. A decisão foi dada a conhecer ao país num brevíssimo comunicado que adianta terem sido os citados oficiais mandados aoresentar nos estados-maiores dos ramos a que pertencem, “para posterior colocação”.
- “Tudo é possível: uma nova ‘fuite en avant’ com o estrangulamento dos restos da liberdade ou a queda do Vasco Gonçalves e dos seus comunistas. No Norte do país, as sedes do Pc foram reduzidas a estilhas. Mortos, alguns. Crise no PC? Possível. Um abrandamento do estalinismo. Entretanto, uma incrível proposta para uma nova Censura”. (Vergilio Ferreira, in Conta Corrente 1)
- Tiroteio em Luanda entre forças dos três movimentos durou dez horas e obrigou à evacuação dos ministros da FNLA no Governo de Transição.
- Atendendo à gravidade da crise, a UDP faz publicar um comunicado, em que “convoca todos os seus activistas e simpatizantes que estejam de férias (...) para regressarem”.
- A Presidência da República só esta manhã recebeu o primeiro telex dando conta de uma insurreição, ontem, em Timor. Elementos da UDT – um dos três partidos timorenses mais importantes do território, defensor da manutenção de laços especiais com Portugal – atacaram o comando da PSP, apoderaram-se de armas e cercaram em seguida o Quartel-General das Forças Armadas Portuguesas.
- “O problema português é este e só este: de um lado, uma minoria, contra a vontade do povo, está a impor à nação o comunismo, onde não têm lugar a pátria independente, nem a religião. Do outro lado, uma esmagadora maioria a dizer ‘não’ a tal comunismo”. (D. Francisco Maria da Silva, arcebispo de Braga)
- O Diário de Lisboa informa que se registou ontem à noite, em Braga, “uma autêntica batalha campal de que resultaram 28 feridos. A cidade viveu “um dos dias mais negativos da sua história política quando, na sequência de uma manifestação de apoio ao Episcopado, que decorreu sem incidentes, um grupo de manifestantes tentou assaltar a sede local do PCP”. Foi só depois da pacífica manifestação ter terminado que os recontros se iniciaram quando surgiu “uma troca de palavras” entre um grupo de manifestantes que passava diante da sede local do PCP e os militantes que se encontravam à varanda do edifício. “Dois dos manifestantes treparam até à varanda, tendo um deles arriado do mastro a bandeira daquele partido, que foi rasgada e queimada. Entretanto, a porta principal foi rebentada e, nessa altura, as pessoas que estavam dentro da sede fizeram fogo de espingardas caçadeiras”. Uma força militar enviada em reforço do RI 8 foi acolhida pela multidão (calculada em cerca de 2000 pessoas) com gritos de “Abaixo a nova PIDE”. Os soldados lançaram gás lacrimogéneo e dispararam rajadas de metralhadora.
- Criação de um Tribunal Militar Revolucionário, para julgar os implicados no golpe contra-revolucionário de 11 de Março – Decreto-lei nº 425/75
- Depois de Braga, Viseu. Ao princípio da madrugada de hoje, conta o Diário de Lisboa, em primeira página, todo o recheio da sede do PCP naquela cidade foi atirado pelas janelas e queimado. Doze feridos na sequência de disparos, cuja origem não foi de imediato apurada. As destruições prolongar-se-ão por longas horas, atingindo sete sedes partidárias, sindicatos e duas lojas de simpatizantes do PCP.
- O Presidente Costa Gomes recebeu a terceira carta aberta em menos de uma semana de uma alta figura da actualidade política portuguesa. Comandante da Academia Militar e membro do Conselho da Revolução, Pinto Soares decidiu demitir-se de ambos os cargos. Faltam “serenidade, unidade e autoridade” no Conselho da Revolução, queixa-se o general.
- O regresso dos refugiados volta à primeira página, com o Diário de Lisboa a escrever que começou “uma verdadeira ponte aérea” entre Luanda e a capital portuguesa. Quem desembarca “é uma gente diferente da que chegou primeiro, com recheios de casa e automóveis de luxo atrás de si”, nota a reportagem. O IARN está a procurar resolver-lhes os problemas mais imediatos: leite para as crianças, primeira refeição em terra, alojamento precário nas instalações do Inatel, que está cheio, ou da Quinta da Graça, na Linha do Estoril, onde passaram a ser colocados os que não têm parentes em Lisboa, e um subsídio de desemprego, já prometido pelo Governo. Aos que nada têm, acrescenta o jornal, “dá-se 20, 50 ou 100 escudos para as primeiras despesas”. Quando o repórter lhes perguntou quem eram, os próprios identificaram-se da seguinte forma: “Somos cidades inteiras! Somos gente que trabalhava no comércio, na agricultura, em oficinas, funcionários de toda a espécie”.
- O Diário de Notícias publica a intervenção de Vasco Gonçalves na última assembleia do MFA. “Uma importante alocução sobre a dinâmica revolucionária do processo português”, é como o matutino apresenta o texto, considerado “o retrato de um verdadeiro revolucionário”. Numa alusão clara às declarações de Otelo sobre o Campo Pequeno, Vasco Gonçalves dá o exemplo da Frelimo, “que não cortou o pescoço à Joana Simeão: mandou-a para um campo de trabalho, que é o que a gente precisa de fazer aí a uma quantidade de gente. Não é mandá-los para as prisões, mas é mandá-los para um campo de trabalho”.
- O primeiro-ministro da Dinamarca, Joergensen, foi impedido de entrar na Lisnave.
- O Governo decidiu a nacionalização do que resta da CUF, a criação de uma junta regional para os Açores, a declaração da imprensa diária dependente do Estado como sector em crise e a transformação da agência noticiosa ANI em ANOP.
- Também o Copcon vem a terreiro apresentar um programa para salvar a revolução. O documento intitula-se “Autocrítica revolucionária do Copcon / Proposta de trabalho para um programa político”. Assina-o “um grupo de oficiais” ligados àquela estrutura militar dirigida por Otelo Saraiva de Carvalho. No resumo que dele faz, o Diário de Lisboa apresenta-o como uma recusa simultânea, “firme e total, ao fascismo, à social democracia [!!!] e ao capitalismo de Estado, que considera formas exploradoras contra a emancipação dos trabalhadores”. O documento defende a constituição de organismos de poder dos trabalhadores – desde conselhos de aldeias, de fábricas e de bairro até uma assembleia nacional popular e sustenta que Portugal deve cessar com a sujeição à CEE e à EFTA, enveredando por uma política económica de verdadeira independência nacional.
- Alguns excertos do documento do Copcon atrás citado: “Como pode um projecto denominar-se de esquerda, quando escamoteia o papel das massas e recusa a acção das suas vanguardas?”; “Será mantendo nas mãos dos burgueses a posse dos meios de produção que estes serão postos ao serviço do povo?”; “Historicamente está demonstrado que personalidades moderadas que pretendem despoletar acções violentas do fascismo por meio de posições conciliatórias são as suas primeiras vítimas, ou noutros casos se transformam nos opressores das massas que pretendem libertar”.
- Na Assembleia Constituinte, o general Galvão de Melo, deputado pelo CDS, apresenta um requerimento para que se esclareça se o deputado da UDP, Américo Duarte, “foi ou não informador da PIDE/DGS”.
- Fixação em 45 horas do limite máximo do horário semanal de trabalho na Função Pública – Despacho do ministro da Administração Interna
- O Conselho de Minsitros decide avançar com a barragem do Alqueva. Promete 13 milhões de contos, 31 mil empregos e uma produção agrícola dez vezes superior.
- Pertencente à família Vacas de Carvalho, a herdade da Lobeira, em Montemor-o-Novo, de 1400 hectares, é ocupada à margem da lei da Reforma Agrária. O Copcon ordena a desocupação, sem sucesso.
- “Temos três revoluções à escolha. A revolução Vasco Gonçalves. A revolução Melo Antunes. A revolução Isabel do Carmo. Receia-se é que sejamos um país pequeno demais para tanta revolução junta”. (Artur Portela Filho, in Jornal Novo)
- “Os trabalhadores em laboração no Diário de Notícias tomaram conhecimento, ontem à noite, de um documento assinado por um pequeno grupo de provocadores infiltrados na empresa, os quais se apresentam como apartidários. Trata-se de um miserável pasquim elaborado nas costas dos trabalhadores e posto a circular no exterior antes do plenário da empresa ter oportunidade de o apreciar e discutir”. (“Aviso aos leitores”, in Diário de Notícias)
- Ao contrário de uma tendência que se detecta nas intervenções públicas das vozes que provêm do sector político onde se movimenta, Eduardo Prado Coelho acha que já não basta “propor o combate à reacção e o reforço da unidade antifascista”. É preciso “uma frente de unidade popular real, em tornos dos objectivos de uma democracia avançada e, mais tarde, do socialismo”.
- “A TAP está a preparar uma ponte aérea entre Angola e Portugal que fará chegar a Lisboa, até Outubro, 300 mil portugueses”. (in Expresso)
- A “socialização do cinema português”, prevista num documento da Direcção-Geral de Espectáculos, está a sofrer a contestação de cineastas, que interpretam os termos em que vão ser criadas unidades de produção cinematográfica como tendentes a “reforçar a vocação centralista e controlista do Ministério da Comunicação Social”.
- Degrada-se a situação em Timor, informa um telegrama da Reuters. O comandante da PSP de Dili, Maggiolo Gouveia, aderiu à UDT, diz um comunicado oficial, enquanto refugiados falavam, à chegada a Darwin, na Austrália, na existência de vários mortos nos recontros entre a UDT e a Fretilin.
- A Comissão Coordenadora do Programa do MFA em Angola informa que no Lobito há “muitos mortos e feridos” e mais de mil refugiados no quartel português, em consequência de combates com armas pesadas entre os três movimentos.
- Refugiados que chegaram a Windoeck, no Sudoeste Africano, disseram que o Exército português se recusou a escoltar um comboio de 2000 veículos através de fracções nacionalistas em disputa no sul de Angola. O comboio encontra-se neste momento estacionado num campo militar em Sá da Bandeira, preparando-se para uma viagem de mais de 3000 quilómetros até àquela cidade. Muitos dos refugiados chegam apenas com a roupa que trazem no corpo e estão a ser instalados em campos de trânsito organizados pelo Governo sul-africano, que administra o Sudoeste Africano.
- “Decerto, Excia. Revª, o País não quer ser colonizado nem cultural nem ideologicamente. Decerto, Excia. Revª, o País não quer ser violado na sua consciência religiosa ou cívica de séculos. Mas o País quer ainda menos que lho digam homens da Igreja cúmplices de abominações passadas que nunca os indignaram, bispos-políticos no mais desprezível sentido do termo, prontos a suscitar e presidir a novos autos-de-fé como aqueles que com sua benção ostensiva acabam de ter lugar no coração desse Minho de que Vossa Excia. Revª é o pastor fanático e contra-revolucionário”. (Ideólogo e grande democrata Eduardo Lourenço, in Jornal Novo)
- Uma nota da Direcção-Geral de Saúde confirma um surto de cólera detectado no Norte mas garante que “está estabelecido um rigoroso serviço de ‘surveillance’ (sic)”.
- Em Jacarta, por onde já passou um emissário do Governo português, a caminho de Dili, o Presidente Suharto declarou que no seu país “a porta está aberta para a fusão do Timor Português com a Indonésia, se o povo timorense assim o quiser”.
- Registaram-se mais de 20 feridos em Alcobaça, na sequência de tiroteio que interrompeu um comício do PCP, presidido por Álvaro Cunhal. Centenas de pessoas que se concentravam junto do pavilhão onde decorria o comício começaram a apedrejar as janelas do edifício, partindo os vidros e danificando também automóveis estacionados nas proximidades, ao mesmo tempo que dirigiam frases contra o comício. O Jornal de Notícias informa que “a certa altura gerou-se uma situação confusa, tendo sido disparados numerosos tiros que atingiram algumas pessoas”. A PSP solicitou a presença de militares do RI7, de Leiria, e do RI5, das Caldas da Rainha. “Quanto aos participantes no comício, continuavam no pavilhão, nesta altura cercado pelos manifestantes, postados junto das barricadas que levantaram e de fogueiras feitas em vários pontos”.
- “Tem nas suas garagens da Quinta (...) de requintes palaciais (onde só come em baixelas e copos de cristal): 1 Rolls Royce, 1 Jaguar M10, um Jaguar E, 1 Mercedes 220, 1 Austin 1275 e 1 carrinha Mercedes. (...) Ausentou-se em segredo (...) para o Brasil e só voltou depois de o resultado das eleições não ser tão mau como pensava”. (Comunicado da Comissão de Trabalhadores de uma empresa de Cascais, in Diário de Notícias)
- Frases de um cartaz afixado em várias cidades do país, representando Vasco Gonçalves abraçado a um operário com uma forquilha na mão e a um camponês armado: MFA, VASCO, POVO / POVO, VASCO, MFA / Força, força companheiro Vasco / Nós seremos a muralha d’aço.
- Vasco Gonçalves discursa numa escola de Almada, com transmissão em directo pela RTP e principais rádios. O primeiro-ministro é recebido em delírio pela multidão, que entoa o ‘slogan’ “companheiro Vasco”. Algumas frases célebres: “Em toda a nossa história houve sempre portugueses que, por espírito mesquinho de classe, estiveram de cócoras diante do estrangeiro”; “A libertinagem impera em certa imprensa que roça hoje quase pela obscenidade”. Ao Expresso chama de “pasquim”. A sessão termina com Vasco – “banhado em lágrimas”, como nota o Diário de Lisboa – a lançar cravos para a assistência.
- “O Documento dos 30, compilado nas costas dos trabalhadores desta empresa, e que mais não visa do que criar no seio da mesma a divisão, a confusão e a anarquia, lançado ardilosamente no momento em que o país tenta combater a reacção nazista, fascista e social-democrata, que se tem lançado desesperadamente ao ataque sob a capa de socialistas, vieram [sic] de uma vez por todas tirar dúvidas (se é que ainda existiam) de que os saneamentos não são selvagens quando indivíduos calaceiros, bêbados e oportunistas se arvoram em pseudo-revolucionários e arautos da liberdade”. (in Proposta de Saneamento de 30 Redactores do Diário de Notícias)
- Lavradores de toda a ilha Terceira aprovaram moções exigindo a transferência para fora dos Açores de vários militantes do PCP “e seus satélites”, incluindo um padre e numerosos militares, entre os quais seis oficiais.
- Um assalto à sede do PCP, em Ponte de Lima, provocou um morto e uma centena de feridos. O ataque começou no princípio da tarde de ontem, dia de feira na vila, terminando em verdadeira batalha campal.
- Criação da Secretaria de Estado para a Cooperação Económica com os Países Socialistas – Decreto-lei nº 444-A/75
- UNITA e FNLA atacaram tropas portuguesas no Luso.
- O V Governo decidiu devolver os terrenos baldios às comunidades que deles foram desapossadas no anterior regime.
- Metalúrgicos, têxteis, rodoviários, J. Pimenta, Mague, Cel Cat, Sorefame, Siderurgia, Lisnave, O Século encontram-se entre os sectores e empresas que ofereceram adesão máxima à paralisação de meia hora contra a “violência fascista”, pedida pela Intersidical para ontem. O Século nota, citando dirigentes sindicais em conferência de imprensa, que pela primeira vez em Portugal houve uma jornada de luta por iniciativa da central única dos trabalhadores, o que prova “que as massas trabalhadoras não estão adormecidas” e mostra que “há força para abolir a sociedade de classes”.
- No final da conferência de imprensa, um pouco mais de um milhar de manifestantes afectos ao MRPP – entre os quais se viam “membros da lista B do Sindicato dos Jornalistas e da lista A dos Bancários, alguns membros do Sindicato dos Estivadores e de, pelo menos, uma comissão de moradores” – manifestaram-se contra a iniciativa, apedrejando a sede da Inter, na rua Vítor Córdon. Remate da notícia, em O Século: “Se vieram apedrejar a Intersindical, é sinal que foi grande o êxito da paralisação contra o fascismo”.
- Há guerra civil em Timor, informam de Macau, por onde estão a ser canalizadas as informações das autoridades militares portuguesas naquele território.
- Nacionalização da Companhia Nacional de Petroquímica – Decreto-lei nº 453/75
- Procede-se à tomada de posse de um grupo de secretários de Estado. Pela primeira vez, um operário entra num governo, como secretário da Segurança Social: Armando Teixeira da Silva (futuro líder da Intersindical).
- “Nunca teve o povo português um Governo tão revolucionário e tão coeso”. (Companheiro Vasco, na tomada de posse dos secretários de Estado)
- “Não há tempo a perder. Dividem-se, fragmentam-se e opõem-se entre si forças que têm estado com o processo. O MFA está enfraquecido e a sua própria existência corre perigo. Única saída: uma séria e imediata tentativa de diálogo e entendimento, tanto no MFA como no movimento popular e democrático, conduzindo a uma ampla e poderosa frente popular, democrática, socialista”. (Camarada Barreirinhas Cunhal, em conferência de imprensa)
- “Não tenho dúvidas de que o Belenenses está em consonância com a revolução e considera que, acima de tudo, é ao serviço de um Portugal efectivamente socialista (e não social-democrata) que pensa e organiza todas as suas actividades. Não, a contra-revolução não entrará no nosso país através do Belenenses...”. (Manuel Sérgio, vice-presidente do Clube de Futebol “Os Belenenses”, in O Século)
- Suspensão transitória da vigência do Acordo de Alvor, assinado em 15 de Janeiro com a FNLA, o MPLA e a UNITA – Decreto-lei nº 458-A/75
- A comissão de inquérito aos acontecimentos de 11 de Março não encontrou “quaisquer indícios que permitam supor que o tenente-coronel de infantaria António Ramalho Eanes estivesse ligado ao golpe contra-revolucionário do 11 de Março de 1975”. Suspeitas levantadas na noite a seguir ao golpe levaram Eanes a demitir-se da presidência da RTP exigindo um inquérito ao seu comportamento. Os trabalhadores da empresa que na altura lhe manifestaram claro apoio emitiram agora um comunicado congratulando-se com o resultado do inquérito, ainda que lamentem “a demora registada na reparação devida ao íntegro e exemplaríssimo oficial progressista das Forças Armadas”.
- Suspensão dos órgãos sociais da empresa Têxtil Manuel Gonçalves – Resolução da Presidência do Conselho de Ministros
- O Conselho de Ministros, ontem reunido, aboliu o exame de aptidão ao Ensino Superior, substituindo-o pelo Serviço Cívico. Segundo o diploma legal que passa a regular o acesso ao Ensino Superior, os candidatos terão um “ano de orientação”, durante o qual tomarão contacto “com a realidade sociocultural do País”, de modo a ficarem motivados “civicamente para a resolução dos grandes problemas nacionais”.
- “Percorremos juntos e com muita amizade um curto-longo caminho da nossa história. Agora, companheiro, separamo-nos. Julgo estar dentro da realidade correcta deste país e assim proceder. Como dizia Mao – citando os clássicos... – um revolucionário deve estar sempre com as maiorias populares. Só com elas poderemos caminhar em frente na revolução, que é e se quer nacional”. [...] Peço-lhe que descanse, repouse, serene, medite e leia. Bem necessita de um repouso muito prolongado e bem merecido pelo que esta maratona da Revolução de si exigiu até hoje. Pelo seu patriotismo, a sua abnegação, o seu espírito de sacrifício e de revolucionário”. (Carta do ideólogo Otelo ao louco Vasco)
- “Ao fim da tarde ontem continuava ‘guardado à vista’, no Largo de São Sebastião, na Charneca do Lumiar, um autocarro da Carris que a comissão de moradores daquela área resolveu tomar como ‘refém’, na tarde de sexta-feira, até que a empresa resolva estabelecer carreiras de transportes colectivos de superfície para aquela zona, a fim de servir os respectivos moradores”. (in O Primeiro de Janeiro)
- A sessão decorre no anfiteatro das Belas Artes, no Porto, e junta as Intercomissões de Trabalhadores da Zona Norte. Presentes 24 comissões. As divergências estalam logo no momento da leitura do expediente, quando o Secretariado recorda a sua posição de repúdio pela recente greve de meia hora, determinada pela posição “ridícula” assumida pela Intersindical e a solidariedade que tinha manifestado ao Conselho Revolucionário dos Moradores do Porto, dado que este considera o brigadeiro Corvacho um defensor das organizações populares. Seguem-se excertos de um relato jornalístico: “O primeiro interveniente considerou que as Comissões de Trabalhadores ‘não devem estar atreladas nem a partidos nem a facções da burguesia, que digladiam [sic]’. Um outro orador manifestou estar em desacordo ‘que o social-fascismo fosse o principal inimigo, mas sim o fascismo’. Um outro elemento afirmou que a classe operária deve ser autónoma e que o principal inimigo a combater é o imperialismo, enquanto outro entende que é o social-imperialismo. O descontentamento das massas populares tem sido aproveitado pela direita e, portanto, deveria ser dada uma alternativa às massas ‘combatendo o social-fascismo, mas de maneira a que o fascismo não se aproveite’ – eis o teor de outra intervenção. ‘O social-fascismo russo está a entrar, enquanto o imperialismo americano já cá está. Pois é necessário combater o americano e não deixar entrar o russo’, defendeu o orador seguinte. [...] E, dentro disto, o tempo passou-se. Ao fim de duas horas, já quando havia gente que abandonara a sala, foi posta à assembleia a primeira votação, sendo ratificada a moção na qual o Secretariado das Intercomissões de Trabalhadores dava a sua solidariedade ao Conselho Revolucionário dos Moradores do Porto, que defende a posição do brigadeiro Corvacho (...)”.
- Saiu o primeiro número do jornal A Luta, dirigida por Raul Rego.
- A Frente de Unidade Revolucionária (FUR) nasce numa reunião em que paricipam responsáveis da 5ª Divisão e do Copcon. É formado um secretariado e convocada uma manifestação. Com a “benção” de Vasco Gonçalves, a ela aderem a LCI, LUAR, FSP, MDP, MES, PCP, PRP/BR e 1º de Maio.
- Continuam a chegar notícias preocupantes de Timor e de Angola. “Centenas de mortos nas ruas de Dili” e “Portugueses sitiados em Nova Lisboa”, titula A Capital em primeira página.
- Foi destruída a sede do MDP e atirados cocktails Molotov contra a sede do PCP em Leiria, horas depois de uma manifestação que reuniu 25 mil católicos nas ruas da cidade. Em Évora 50 mil pessoas participaram num comício entusiástico presidido, por coincidência, pelas duas figuras de maior destaque nos dois partidos cujas sedes sofreram ataques em Leiria – José Manuel Tengarrinha, do MDP/CDE, e Álvaro Cunhal, do PCP.
- “Quanto ao primeiro Comunicado, foi dada ordem às 19.15 (...) para se obter a suspensão da sua leitura e a de comentários sobre o seu conteúdo; (...) Quanto ao segundo Comunicado, determina-se a sua nulidade, pois foi redigido e publicado sem seu conhecimento”. (3º Comunicado do Presidente da República)
DESCOMUNIQUE-SEE!
26 de Agosto de 1975
- Mensagem de Lemos Pires, governador e comandante militar de Timor, recebida ontem em Macau: “Só poderei aguentar-me até amanhã. Depois não sei”.
- O Conselho da Revolução suspendeu as actividades da 5ª Divisão e mandou reintegrar o brigadeiro Corvacho no comando da Região Militar Norte. As medidas surgem no meio de especulação sobre a substituição iminente de Vasco Gonçalves. Dizem vários jornais que será pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, Carlos Fabião.
- “Tal como tem existido, o MFA não pode nem deve ser considerado como uma força revolucionária”, sustenta a organização trotsquista LCI. E explica: “Não só porque possui no seu seio numerosos oficiais de direita e sociais-democratas, como Jaime Neves e Melo Antunes, e elementos que se inclinam para a conciliação entre estes últimos, como Otelo, mas também porque, dado o papel político que tem desempenhado, permitiu à burguesia ganhar tempo e adiou os conflitos decisivos entre as classes”.
- Não passaram ainda 24 horas e já a organização 1º de Maio rompeu com a frente de oito partidos que constitui a Fente de Unidade Revolucionária. “A frente proposta e a plataforma acordada pelas oito organizações não preenche as condições mínimas para a condução correcta do processo revolucionário”, informa, em comunicado. E mais: “a plataforma, em lugar de pôr o PCP a reboque dos revolucionários, pôs os revolucionários a reboque do PCP”.
DIVISIONISMO REVOLUCIONÁRIOO!
27 de Agosto de 1975
- Há uma vaga de incêndios no país, com Mortágua ameaçada pelas chamas, esta madrugada. Ao mesmo tempo, registam-se restrições ao consumo de água, que em Évora não pode excederos 15 m3 por consumidor.
- O governador Lemos Pires abandonou Dili. O gabinete do coronel português, acompanhado por uma companhia reforçada de pára-quedistas e por 27 elementos da Marinha, num total de 104 homens, instalou-se na ilha de Ataúro, que fica a cerca de 20 quilómetros de distância.
- O V Governo aprova um diploma sobre o “controlo organizado da produção pelos trabalhadores”.
- Os soldados do Regimento de Polícia Militar não embarcarão para Angola. A decisão foi tomada ontem, em plenário de unidade, por unanimidade e aclamação. Elementos das companhias mobilizadas para aquele território vão organizar agora a recusa colectiva aos embarques, quer naquele quartel quer noutras unidades. Fundamentando a posição, os militares dizem que a continuação dos embarques “não é mais do que a continuação da guerra sob a capa do neocolonialismo”; que “não compete aos soldados, filhos do povo de Portugal, combater, morrer e matar em Angola, quer ao serviço do imperialismo americano quer do social-imperialismo russo”; e que a única forma de demonstrar ao povo angolano o internacionalismo proletário dos soldados é os soldados fazerem “a Revolução em Portugal”.
VIVAM OS REFRACTÁRIOSS!
28 de Agosto de 1975
- Costa Gomes conheceu ontem uma experiência inédita e caricata desde o 25 de Abril: discursando perante dezenas de milhar de manifestantes da Frente, a que se começa a chamar FUR, foi alvo de vaias da multidão, donde se erguia frequentemente a palavra de ordem: “Abaixo a social-democracia”. As vaias ao Presidente contrastavam com o apoio caloroso e inequívoco a Vasco Gonçalves , que disse estar a revolução, hoje, em Portugal, a correr “graves perigos”.
- “No decorrer do plenários [nas instalações do Diário de Notícias], foi proposto pela Comissão de Inquérito e sobretudo por alguns dos signatários do ‘documento’ [dos trinta redactores do jornal críticos da direcção] que a votação se processasse por meio de ‘voto secreto’. Afirmava-se que, deste modo, as pessoas estariam libertas de eventuais pressões externas ou do companheiro do lado. A assembleia, chamada a pronunciar-se, decidiu-se pelo processo de ‘braço no ar’, sempre utilizado em plenários anteriores, considerando assim que, sendo esta uma situação grave, importava vinculá-la a um compromisso revolucionário”. (“Voto de braço no ar”, in Diário de Notícias)
- O plenário de trabalhadores da Empresa Nacional de Publicidade, proprietária do Diário de Notícias, saneou 22 dos 30 redactores signatários do documento crítico da orientação ideológica imprimida pela actual direcção ao matutino. A proposta de saneamento, aprovada “pela esmagadora maioria dos trabalhadores presentes no plenário” (192, num total de 1400 trabalhadores da empresa), decidiu o afastamento dos 22 redactores, “sem quaisquer indemnizações”, acusando-os de serem “os principais responsáveis no empolamento exterior de um caso que diz respeito a todos os trabalhadores” da empresa.
SANEAMENTOS DEMOCRÁTICOSS!
29 de Agosto de 1975
- Ultrapassa os dois milhares, o número de mortos em Timor, segundo o testemunho de refugiados que continuam a chegar ao Norte da Austrália.
- “Portugal está a arder”, escreve Urbano Tavares Rodrigues em O Século. “É, por um lado, o asalto sistemático (e, às vezes, vergonhosamente tolerado por quem se lhe devia opor com verdadeira firmeza) às sedes dos partidos progressistas, em especial do PCP, do MDP, do MES. Por outro lado, há os incêndios nas florestas, a destruição do equilíbrio ecológico, a política da terra queimada, criminosamente levada a cabo pelos reaccionários desapossados de alguns (ou de muitos) privilégios”.
- Vasco Gonçalves aceitou, esta madrugada, abandonar o cargo de primeiro-ministro. Pinheiro de Azevedo foi a personalidade escolhida para o substituir. Apesar das ameaças de “forças reaccionárias que encontram aceitação nas Forças Armadas e na chefia de certos partidos esquerdistas, não há lugar para uma democracia burguesa em Portugal”, declara Vasco ao Le Monde, horas antes da sua despedida do Governo e da sua nomeação para chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas.
QUE SAUDADES, VASCOO!
30 de Agosto de 1975
- Nacionalização da indústria cervejeira – Decreto-lei nº 474/75
- Em jogo realizado anteontem, em Jacarta, o Benfica empatou a zero com a selecção de futebol da Indonésia.
- “Ninguém compre o Diário de Notícias”, apelou a assembleia-geral do Sindicato de Jornalistas, em apoio aos redactores saneados daquele jornal, por terem denunciado a censura “social-fascista exercida pela administração e cúpulas da redacção”.
- Em Luanda, realiza-se o primeiro julgamento popular de um grupo de combatentes do MPLA, acusados de terem assassinado 13 civis desarmados. Uma multidão ratifica o pedido de fuzilamento dos assassinos, cuja execução é imediata.
Join us this March for an enchanting piano program!
-
*Join us this March at Avenida Palace for an enchanting piano program!
Experience the magic of music as we blend jazz and classic tunes, creating
unforgett...
Ce n'est qu'un au revoir
-
Há anos que vivia no medo deste dia.
Ei-lo. Chegou.
Em 2016 perdi David Bowie e, principalmente, Leonard Cohen. Em 2017 perdi
Jean d'Ormesson (e a cabr...
Piu
-
Quanto mais leio as notícias menos me apetece escrever sobre elas. Tenho
dito. E não fora este desabafo sair-me tão natural que decerto os meus
dedos se...
«Um relógio parado está certo duas vezes por dia;
-
Já um que funciona pode nunca estar certo, andar atrasado ou adiantado.»
Fanado ao Luís. Mas, ao contrário dele, prefiro estar certa pelo menos duas
vezes...
remix em pessoa
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Sábado ao fim da tarde, chuva miudinha e Jô Soares a dizer Fernando Pessoa
no Teatro Villaret. Sala cheia, bilhetes comprados com uma semana de
antecedênci...
Num fajer oj maiorej naj pedraj!
-
[image: 0076 002 Num fajer oj maiorej naj pedraj]
Higiénicoj e rejpeitojoj cumprimentoj do
*Xívico Anacleto*, o boxo guarda predilecto!
Aurora
-
Aurora
Noite de plenilúnio! A soberba dos agapantos
Desmaia, delicada, entre sopros de inquietude.
Ao longe – tão perto dali, afinal – soçobram prantos
Com...
66 comentários:
4 de Julho de 1975
- “Pressente-se uma viragem do Governo para a sensatez. Entretanto continua a acentuar-se o déssaroi. Sinto-me desorientado. (...) Estarão conclusos os oito séculos da nação? Haverá um homem ignorado que deite mão a este descalabro?”.
(Vergílio Ferreira, in Conta Corrente 1)
- O capitão-tenente Bouza Serrano é o novo presidente da Emissora Nacional. Nomeado pela 5ª Divisão, com 31 anos, declara que “é um erro considerar que todos os antifascistas são obrigatoriamente revolucionários”. Para o novo presidente da rádio estatal, “neste momento, em que a dinâmica do processo revolucionário já ultrapassou muita gente, pode haver objectivamente ditos antifascistas que se manifestem contra-revolucionariamente”.
- O Jornal alude à “terrível impressão” de que faltam, aos que detêm o poder, as armas da inteligência, da lucidez e da autoridade democrática, para executarem as soluções políticas que precisam de tomar. E não hesita em pedir inspiração a Fidel Castro, segundo o qual “ninguém tem o direito de querer fazer passar a depravação, a desordem e a anarquia por socialismo”.
FIDEL INSPIRADORR!
Ploooinnng!
ORA, ORA! NÃO DIGA ISSO! ESTÁVAMOS DESESPERADOOSS!
5 de Julho de 1975
- Depois de Moçambique, Cabo Verde é a segunda colónia portuguesa a proclamar a independência na presença das mais altas autoridades, representadas pelo primeiro-ministro Vasco Gonçalves, que fala de improviso. A cerimónia decorre no Estádio da Várzea, na Cidade da Praia. O secretário-geral do PAIGC, Aristides Pereira, é o Presidente da República.
- O major Aventino Teixeira (afecto ao MRPP) é exonerado de presidente da administração da Sociedade Nacional de Tipografia, a empresa proprietária do jornal O Século e de numerosas revistas.
- São instituídos os conselhos regionais de reforma agrária. (Decreto-lei nº 351/75)
REFORMA AGRÁRIA, SEMPREE!
6 de Julho de 1975
- “É preciso não confundir um antifascista, desejoso de viver numa sociaciedade capitalista com todos os inerentes privilégios, com um antifascista desejoso de viver numa sociedade socialista, onde acabe de vez a exploração do homem pelo homem”.
(Pensador comandante Manuel Bouza Serrao, in O Primeiro de Janeiro)
- Os participantes do curso de treinadores, que decorreu no Instituto Nacional de Educação Física (INEF), “chegaram ao extremo de se introduzirem, propositadamente, no balneário feminino, onde foram encontrados a espreitar nos chuveiros”, denunciam os alunos do 3º ano. Em comunicado, os estudantes exigem que cesse imediatamente a utilização das instalações pelo curso. “Perguntamos: são estes os técnicos que hão-de comandar homens no dia de amanhã?”.
- Instala-se a angústia entre os operadores turísticos. Portugal viu diminuir as entradas de visitantes em 35,7 por cento, relativamente a 1973.
- A independência de Cabo Verde, proclamada ontem, na presença do primeiro-ministro, Vasco Gonçalves , ocupa a parte mais nobre das edições de hoje de O Primeiro de Janeiro e do Jornal de Notícias. “A luta de libertação do PAIGC contribuiu poderosamente para a nossa libertação do jugo fascista”, diz Vasco Gonçaves no primeiro, enquanto no segundo aparece, mais directo e contundente, a proclamar “emocionado”: “libertámo-nos da canga do fascismo”. O PAIGC, fundado por Amílcar Cabral, conduziu a luta de libertação na Guiné e em Cabo Verde – dois Estados onde é, a partir de agora, o partido único.
DEMOCRACIA NAS EX-COLÓNIASS!
7 de Julho de 1975
- A primeira página de O Século mostra o ministro da Agricultura, Oliveira Baptista, dirigindo-se, ontem, aos trabalhadores da cooperativa de Casebres, que considera um exemplo do que é a Reforma Agrária. O jornal aponta ainda “a experiência que um grupo de 17 trabalhadores rurais está a levar a cabo em terras de Vale do Mouro, ao construir a Cooperativa Produtora Agrícola de Aveiras de Cima”, como “um exemplo, entre muitos, da luta dos camponeses deste nosso País pela terra a quem a trabalha”.
- O Diário Popular, também com destaque de primeira página, inicia uma série de reportagens sobre a situação nos Açores, onde “o imperialismo norte-americano e as classes possidentes do arquipélago” estão por detrás de uma estratégia separatista que serve “como foco de agitação que alimenta a instabilidade política do País”.
- Trabalhadores da CUF denunciaram, em plenário, relações do grupo “com o imperialismo internacional e a hierarquia católica”. Aquele complexo fabril – que abarca 427 empresas – estava representado na União Católica dos Industriais e Dirigentes do Trabalho (UCIDT), “organização que se pode comparar ao Partido Democrata Cristão nos objectivos que se propunha atingir”.
OS CRISTÃOS,... ESSES IMPERIALISTASS!
8 de Julho de 1975
- “O momento exige que aqueles que escolhem a revolução assumam plenamente a necessária impureza de uma revolução. Como há dias perguntava Piteira Santos, retomando Robespierre: “ou será que querem, a revolução sem revolução?”.
(Ideólogo revolucionário Eduardo Prado Coelho, in A Capital)
- Trabalhadores de O Século exigiram a reintegração do major Aventino Teixeira. Administrador-delegado do Governo na empresa, este oficial foi exonerado há quatro dias. Segundo informação por ele mesmo prestada ao plenário, o afastamento ligou-se directamente às declarações elogiosas que proferiu a respeito do líder do MRPP, Arnaldo Matos, detido, como aliás numerosos militantes dete partido político de extrema-esquerda, há mais de um mês, sem culpa formada.
- “O custo da alimentação de uma família média, em Portugal, aumentou 25 por cento entre Maio de 1974 e Maio de 1975”.
(in Boletim Conjuntura, do Banco Português do Atlântico)
APERTAR O CINTO É REVOLUCIONÁRIOO!
9 de Julho de 1975
- “Uma boa parte dos governantes [do Governo de Transição de Angola] é totalmente incompetente, mas nem sequer tem consciência disso, perdendo o seu tempo em escaramuças caricatas para a obtenção de miniprestígio de fachada”.
(Vasco Vieira de Almeida, in Diário Popular)
- Reunida durante 18 horas no Centro de Sociologia Militar, em Lisboa, a Assembleia do MFA aprovou “um histórico documento da revolução”, informa o DP. A decisão foi tomada pelos 240 membros da Assembleia – oficiais, sargentos e praças. O Documento-Guia, como virá a ser denominado, institucionaliza a Aliança Povo-MFA. Na prática esta consistirá na ligação entre unidades militares e organismos populares de base, como comissões de moradores e comissões de trabalhadores. Embora diga que não pretende “nem ignorar os partidos devotados à construção do socialismo nem militarizar o Povo”, o texto aponta para a constituição de uma Assembleia Popular Nacional, no topo daquela aliança. As experiências de organização das populações e trabalhadores, nos últimos meses, ver-se-ão deste modo guindadas em breve a ógãos do poder, quer a nível local e regional, quer a nível nacional, como infra-estrutura fundamental da futura Assembleia.
ALIANÇA POVO-MFAA!
10 de Julho de 1975
- O título República volta hoje a ser gritado pelos ardinas, nas ruas. Não o República de Raul Rego, Vitor Direito, João Gomes, Álvaro Guerra e de uma maioria de redactores, mas o República da maioria dos trabalhadores não jornalistas, em que prevalece o peso das oficinas. O jornal é dirigido pelo coronel Pereira de Carvalho, proposto aos trabalhadores por uma Comissão Administrativa, nomada pelo Conselho de Revolução, o que contraria a decisão do Governo de entregar o jornal aos proprietários. Os trabalhadores esclarecem, numa nota publicada na primeira página, que o nome do coronel surge no cabeçalho em vez de “Sob a responsabilidade dos trabalhadores”, como antes haviam decidido, mas afirmam que é deles a responsabilidade da feitura do jornal.
- “É a família, essa família tão glorificada, tão cantada, tão dita de base de um sistema Político, que vive na angústia diária a comprimir-se em cacifos a que por ironia e escárnio se chamam de casas assoalhadas”.
(in República)
REPÚBLICA – EXEMPLO DA REVOLUÇÃOO!
11 de Julho de 1975
- “Morreu-se no último ano mais do que em 14 anos de guerra”.
(in Jornal de Angola)
- Não passaram 24 horas sobre a saída do República e o PS já reagiu da forma mais dura possível – os seus ministros e secretários de Estado cessarão funções.
- Um Conselho de Ministros restrito elaborou um conjunto de projectos-lei que nacionalizam as petroquímicas, sociedades Pirites Alentejanas e Mineira de Santiago, companhia vidreira Covina e o grupo de empresas rodoviárias Camionagem Esteves. Foi decidido igualmente o controlo estatal da cortiça, em vários distritos.
- Descrevendo a chegada do primeiro dos três contingentes militares que partiram de Moçambique na véspera da independência, o Diário Popular conta que se ouviram vozes de soldados a aconselharem Portugal a seguir o exemplo da Frelimo, na criação do...
PODER POPULARR!
12 de Julho de 1975
- “Amigos, camaradas, trabalhadores, companheiros, revolucionários: a luta é de morte com as forças capitalistas”.
(Grande camarada brigadeiro Corvacho, em manifestação de apoio ao MFA, in Diário Popular)
- Às 9 horas locais, Nuno Xavier Dias, um capitão da Força Aérea Portuguesa, natural da ilha de São Tomé e que foi eleito presidente da Assembleia representativa do povo do arquipélago, proclamou a independência de São Tomé e Príncipe. O primeiro presidente é Manuel Pinto da Costa, secretário-geral do partido único MLSTP. Dos dois mil portugueses que aí viviam, apenas permaneceram cerca de uma centena, com predomínio para comerciantes.
- Gritos de “não apoiado” e “é mentira” responderam a palavras do almirante Rosa Coutinho no Congresso da Confederação da Indústria Poruguesa (CIP). O representante do CR, acompanhado pelo general Carlos Fabião e pelo ministro do Trabalho, major Costa Martins, considerou que na situação actual de transição para o socialismo não deverá haver “empresário com consciência tranquila que tenha medo do futuro”.
- O Sindicato dos Trabalhadores do Comércio do Distrito de Lisboa assinala a coincidência da realização, durante este fim-de-semana do congresso da CIP e de um plenário de pequenos e médios comerciantes, num contexto de “grande investida da reacção” contra o processo revolucionário – “a fuga dos pides, a propalação de boatos alarmistas, as tentativas de quebra de unidade entre as massas populares e o MFA”.
REACÇÃO A CONSPIRARR!
13 de Julho de 1975
- O líder do MRPP, Arnaldo Matos, escapou do Hospital Militar da Estrela, informa O Primeiro de Janeiro. O matutino portuense diz ainda que Arnaldo Matos “se deslocava agora frequentemente amparado”, depois do agravamento súbito de uma úlcera, razão pela qual aponta como hipótese explicativa para a fuga as “relações com soldados e deficientes das Forças Armadas na Estrela”.
- “As leis vigentes só devem ser cumpridas desde que não contrariem a revolução”, teoriza Otelo, num debate sobre o Documento-Guia, promovido pela RTP.
- “Não haverá grande abalo”, disse Álvaro Cunhal a propósito do abandono do Governo por parte dos ministros socialistas. O PPD, porém, deverá seguir o exemplo do PS.
- Passou-se algures numa sessão de Dinamização Cultural. Chegada a hora da sessão, não havia quase ninguém, a ponto de terem de chamar povo a suas casas. Ninguém parecia querer tomar a palavra, até que uma velhinha a tomou para dizer que lá na terra tinham medo dos comunistas. O oficial dinamizador vai de puxar de todo o seu poder oratório e persuasivo, para afastar os temores da duvidosa velhinha. Que isso era tudo enganos que lhe metiam na cabeça, que se pretendia melhorar as vidas de cada um e dar água e dar estradas e dar hospitais e etc. “Percebeu?”, disse por fim. “Bem, se eles são assim como o senhor diz, já gosto deles. Mas então por que lhes chamam esse nome??”.
(in Expresso)
OBSCURANTISMO FASCISTAA!
14 de Julho de 1975
- “Diz que não sei quê / Que quer construir / Socialismo em liberdade / Mas isso para mim / Que não sou de intrigas / Cheira-me a continuidade”.
(Versos de uma cantiga de Carlos Alberto Moniz, Maria do Amparo, Alfredo Vieira de Sousa e Pedro Osório)
- “Combates em Angola onde há mortes às centenas”, titula o Diário de Notícias. O MPLA expulsou a FNLA de Luanda. A situação é “preocupante”, diz o ministro Melo Antunes. O chefe da diplomacia portuguesa fala em “ambição de poder” das diversas forças políticas em presença em Angola e disse que os portugueses que ali vivem estão a ser “violentados física e psicologicamente”.
- Contrariando intenções do Governo e do CR, apostados em criar “legislação adequada e tribunais específicos para o julgamento de criminosos fascistas como os ex-agentes da PIDE e os implicados na intentona reaccionária de 11 de Março”, o Plenário de Advogados, reunido em Coimbra, aprovou uma moção que recusa a criação de tais tribunais especiais. Os advogados rejeitaram estrondosamente uma moção que propunha o “apoio incondicional à linha política do CR”, bem como uma outra em que se defendia a adaptação da profissão ao rumo socialista iniciado no país. O autor, Duarte Vidal, sugeria que grupos de advogados se delocassem “a países onde vigoram regimes que caibam na designação genérica de socialistas, a fim de serem coligidos elementos necessários à mais correcta inserção da advocacia na nova sociedade”. Esta proposta provocou uma incontida onda de protestos, com a assistência de pé, gritando “fora, fora”...
TRIBUNAIS POPULARES, JÁÁ!
E pronto!
O PREC desloca-se a mais uma acção de dinamização cultural, desta feita a terras da Beira Alta. Antecipando as suas notícias diárias, o PREC solidariza-se com a batalha da produção!
Ploooinnng!
...SOMOS LIVRES, SOMOS LIVRES... (DO PREC E, PELAS AMEAÇAS, POR POUCO TEMPO, É CERTO! MAS ENQUANTO O PAU VAI E VEMM...)
Ainda cá estou, ó fascista Aliano! Vê lá não te denuncie ao camarada Otelo para ires bater com os costados a Caxias! Esta reacção ao serviço do imperialismo americano sempre a conspirar...
Ploooinnng!
CAXIAS??? MAS ESSE NÃO MANDAVA OS FASCISTAS PARA O CAMPO PEQUENOO?!
Ploooinnng!
TUDO TÃO "CECUGADO"! ATÉ OS ESTOU A ESTRANHARR!
CECUGADO??? QUÉ ISSO?
Ploooinnng!
SÓ ME FALTAVA UMA SECRETÁRIA QUE NÃO SABE ESCREVER PORTUGUÊS! É "CESSUGADO", COMO ESTÁ BOM DE VER! PARA A RUA, JÁ, E EM FORÇAA!
Estar cessugado em Caxias? Eu cá estou! Cessugadissime!!
Ploooinnng!
EM CAXIAS???! MAS NÃO COSTUMAVAS FAZER PRAIA NA CRUZ QUEBRADAA?!
15 de Julho de 1975
- “Neste final de ano lectivo, o mestre vai ser o Povo”, disse o segundo comandante da Academia Militar, brigadeiro Balacó, no arranque dos exercícios finais, que este ano consistem numa “campanha de dinamização cultural e cívica” no distrito da Guarda. Os alunos da Academia empenhar-se-ão, fundamentalmente, em “trabalhos de engenharia civil”, fazendo reparações nas aldeias. A campanha, intitulada “Trabalhar com o Povo, construir a Revolução”, decorre até 5 de Agosto e envolve meio milhar de homens. A Academia Militar é comandada, neste momento, pelo general Pinto Soares, membro do Conselho da Revolução.
- “São na ordem dos milhares, os mortos, feridos e desaparecidos em consequência de quatro dias de combates em Luanda”.
(in Diário Popular)
- Segundo o DP, registaram-se em Rio Maior “autos-de-fé” provocados por “grupos de reaccionários” que, no meio de “insultos e ameaças à imprensa”, rasgaram e queimaram os maços de jornais transportados pelas carrinhas do DL, que distribuía também aquele jornal. O Comércio do Porto julga saber que na base dos ataques esteva a forma como os citados jornais noticiaram ontem os acontecimentos em torno do assalto às sedes locais do PCP e da FSP.
LÁ VEM A MOCA REACCIONÁRIA DE RIO MAIORR!
16 de Julho de 1975
- Regulamento da cessação do contrato individual de trabalho (vulgo “Lei dos Despedimentos”) – Decreto-lei nº 372-A/75
- A Comissão de Moradores da Freguesia de Santa Isabel, onde se situam as instalações do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, condenou a atitude dos alunos que têm criado “um clima de anarquia naquele estabelecimento de ensino, com prejuízo para o aproveitamento escolar dos verdadeiros estudantes”. A Comissão diz que os prejuízos causados pelos alunos no liceu “excedem já os dois mil contos”. E porque considera que “o povo trabalhador não pode continuar a permitir que o dinheiro que paga para manter as escolas seja impunemente delapidado por delinquentes da burguesia”, exige que o Ministério da Educação assegure a execução das decisões da Comissão de Gestão e propõe que a distribuição dos candidatos pelos diferentes estabelecimentos de ensino seja feita “não de forma elitista, como até aqui, mas ouvindo as Comissões de Moradores”. Assim se garantirá “um critério baseado na localização geográfica das residências dos estudantes e na defesa dos interesses das classes menos favorecidas”, conclui a moção.
- “Camaradas, tenho de vos dizer, com a lealdade e a verdade que me caracterizam, que estão a cometer um erro. O general Otelo Saraiva de Carvalho é um herói do 25 de Abril”.
(Camarada revolucionário Mário Soares, perante uma manifestação que gritava “Otelo para Moçambique”)
MAROCAS MARXISTA – O HONESTOO!
Ploooinnng!
OH, NÃO! ELE ESTÁ DE VOLTA!!! MAIS CAMPANHAS DE DINAMIZAÇÃO, JÁÁ!
17 de Julho de 1975
- O PPD abandonou o Governo. Os dirigentes do partido tomaram a decisão depois de Costa Gomes os ter chamado para lhes comunicar que o Conselho da Revolução não aceitara as condições colocadas pelo partido para continuar no Governo. Chegou ao fim, desta forma, o modelo de coligação governamental que vinha funcionando desde o 25 de Abril. Vasco Lourenço, porta-voz do CR, disse que Vasco Gonçalves irá, o mais rapidamente possível, constituir o V Governo Provisório, “a formar por militares e civis de comprovada capacidade e progressismo”.
- Quase em reunião permanente, o CR aprova uma proposta de Marques Júnior, delegando poderes numa comissão constutuída por Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo.
- Ontem ao fim da tarde, em Lisboa, milhares de pessoas marcharam até São Bento apoiando o MFA e gritando “Dissolução da Constituinte, já!”. Abriam o desfile centenas de militares fardados, de vários regimentos da área de Lisboa, entre os quais o Ralis, que mandou blindados. O repórter de A Capital reconheceu num deles o major Diniz de Almeida (a figura mais destacada na defesa do quartel, no 11 de Março) em direcção a quem, quando o reconheceu, a multidão começou a gritar: “Operários e camponeses, soldados e marinheiros, unidos venceremos”.
- O chefe do Exército, Carlos Fabião presidiu à cerimónia do juramento de bandeira no RI5. O repórte de A Capital não poupa palavras de elogio: “O juramento de bandeira, longe de assumir o carácter de festa na parada, foi um autêntico acto em campanha. Ao desfile não se seguiu o opíparo banquete dos generais, antigamente custeado pela depredação do miserável pré dos recrutas. Agora não: Fabião, general, Silva, recruta, ambos de marmita na mão, toca de pôr na bicha para o rancho, ao ar livre, que, vá lá, foi melhorado pois os rapazes já andavam há uma semana a comer conservas”.
REVOLUÇÃO DA MARMITAA!
18 de Julho de 1975
- João Cravinho e Jorge Sampaio, do grupo ex-MES, apresentam um longo documento sobre “a crise geral do sistema”, que resulta “de a burguesia se mostrar já incapaz de governar e de o proletariado não ser ainda capaz de o fazer”.
- O PS em Braga e o PPD no Porto mobilizaram milhares e milhares de pessoas ontem à noite, em concentrações marcadas por um tom de crescente crítica à imprensa e assobios ao MFA. A Capital diz que a cidade do Porto será hoje um “centro de tensão política”. Refere-se ao comício, antecedido de concentração, que o PS marcou para esta noite, no Estádio das Antas, e à concentração precedida de interrupção do trabalho nos serviços públicos pelas 17 horas, a pedido de comissões de moradores e de trabalhadores, bem como da Intersindical, MDP/CDE, FSP, MES, LUAR, LCI, Faculdades de Ciências e de Belas-Artes e comissão administrativa da Câmara.
- “Vigilância – a maior força do povo” é o título colocado a toda a largura na primeira página do República. Este jornal diz em manchete que o PS e o PPD se uniram “em santa aliança” e prevê que a “campanha de agitação política” em que estão empenhados deve atingir “o seu ponto alto”, através de comícios e manifestações, este fim-de-semana, no Porto e em Lisboa. Há já referâncias a barragens de estrada montadas nas proximidades da capital.
A BARRICADA É A ARMA DO POVOO!
19 de Julho de 1975
- O dramaturgo e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, Luís Francisco Rebelo, saiu do PS. Na carta de demissão, acusa os dirigentes deste partido de traírem “os verdadeiros socialistas e o socialismo”, ao romperem “a unidade das forças progressistas e a unidade entre o Povo e o MFA”.
- Perante a convocatória de uma manifestação na Alameda Afonso Henriques, na capital, onde se irá pedir a demissão de Vasco Gonçalves, o Copcon controla os acessos a Lisboa, onde populares levantaram barricadas, incitados pelo PCP, sindicatos e boa parte da imprensa escrita. Já ontem, no Pavilhão dos Desportos, Álvaro Cunhal falou em “impedir uma marcha sobre Lisboa” e exortou à edificação de uma “verdadeira muralha aço”. Também a Intersindical, em comunicado, considerou ontem à tarde que “a marcha sobre Lisboa reúne condições para nela se incorporarem todas as forças reaccionárias empenhadas no regresso do país aos tempos da ditadura fascista”.
- “A reacção quer hoje marchar sobre Lisboa. Como Mussolini sobre Roma e os fascistas no 28 de Setembro sobre Belém”.
(Primeira página do jornal República)
- “Povo e militares nas barricadas em defesa da Revolução”.
(Manchete do Diário de Notícias)
FORÇA, FORÇA, COMPANHEIRO VASCO, NÓS SEREMOS A MURALHA DE AÇOO!
20 de Julho de 1975
- O comício de ontem, na Alameda Afonso Henriques, juntou mais de cem mil manifestantes, descontentes com o caminho que a revolução vem tomando. Contudo, a imprensa escrita de hoje não dá relevo a este comício. O Primeiro de Janeiro prefere apresentar a foto de uma barragem levantada por populares e militares na auto-estrada do norte, durante a manhã de ontem, destinada a impedir o acesso de manifestantes à Fonte Luminosa.
- O Jornal de Notícias e O Primeiro de Janeiro dão grande relevo a um documento da autoria do primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, sobre a situação política. A importância da análise advém-lhe não tanto, embora também, da autoria, mas por que foi aprovado na generalidade pela Assembleia do MFA. Vasco Gonçalves dá por adquirida a “situação de crise generalizada” que o país atravessa e cujas raízes encontra no “arsenal de manobras insidiosas” a que recorreu o capitalismo, no sentido de impedir o avanço do processo revolucionário a seguir ao 11 de Março.
- “Há que evitar que a árvore esconda a floresta. É revolucionário tudo quanto faz avançar globalmente a revolução e é contra-revolucionário tudo quanto, globalmente, a faz recuar ou lhe cria dificuldades”.
(Visionário e pedagogo camarada Vasco Gonçalves, in O Primeiro de Janeiro)
Ó VASCO, MALUCOS SÃO ELESS!
21 de Julho de 1975
- A Emissora Nacional passa a transmitir um programa diário intitulado “Terra a quem a trabalha”.
- A onda de manifestações prossegue, em Viseu, desta vez a cargo da diocese. A 5ª Divisão reage e inicia uma campanha de apoio a Vasco Gonçalves.
- A profundidade da divisão entre os descontentes do processo revolucionário e os militares está bem patente num comunicado que o MFA, através da 5ª Divisão, difundiu, ao princípio da madrugada, e a que a imprensa dá maior relevo que à manifestação da Fonte Luminosa. Nesse comunicado, consideram-se “caluniosas as dúvidas insinuadas sobre a isenção partidária do general Vasco Gonçalves”, a quem se reafirma “o seu inteiro apoio”, confiante “no seu elevado espírito revolucionário para levar a bom termo a tarefa de formação do novo Governo Provisório”. E nele diz-se mais: a designação dos chefes de Governo é da competência do MFA, que não reconhece para tal “representatividade bastante a nenhuma organização partidária”.
VASCO, ESTÁS NO BOM CAMINHOO!
Camarada Leandro:
Em assembleia geral, os trabalhadores deste blóguio decidiram, democraticament e por unanimidade (votação de braço no ar), exigir à comissão de gestão desta Unidade Colectiva de Produção a que tu presides a imediata criação de uma nova página, satisfazendo os legítimos anseios dos milhares e milhares de camaradas, que não estão para andar a perder tempo com o cursor para baixo e para cima.
A não satisfação desta pretensão terá como consequência o recurso à greve por tempo indeterminado e será encarada como uma manobra reaccionária e fascizante, inimiga do avanço da Revolução, e uma força de bloqueio à desejada batalha da produção.
25 DE ABRIL SEMPREE!
22 de Julho de 1975
- “O Partido Socialista é hoje o pólo de atracção da reacção. É possível que Mário Soares ainda não saiba, mas qualquer de nós sabe”.
(Ideólogo Eduardo Prado Coelho, in A Capital)
- Centenas de homens, mulheres e crianças aglomeraram-se na aerogare de Luanda, esperando vaga nos aviões da TAP. Apesar de já não haver lugar nos hotéis, pensões e hospedarias, começaram a afluir à capital angolana inúmeras pessoas idas de Henrique de Carvalho, Malanje, Dalatando, Silva Porto e Nova Lisboa, a fim de se fazerem transportar rumo a Portugal.
- O Ministério do Equipamento Social e do Ambiente quer aumentar para 140 os 44 quilómetros de que o país dispõe neste momento em auto-estradas. Assim, deverão reabrir no segundo semestre do ano que vem os troços entre Vila Franca de Xira e o Carregado e entre o Fogueteiro e Setúbal. Um ano depois será a vez do lanço entre o Carregado e Aveiras de Cima. A norte, a ligação entre Carvalhos e São João da Madeira entrará em funcionamneto também em 1977, esperando-se que a ligação Porto-Famalicão abra no segundo semestre de 1978. Foi decidido também prolongar até Cascais a A5, que neste momento não vai além do Estádio Nacional.
DEVE SER CERTO, DEVEE!
23 de Julho de 1975
- A 5ª Divisão lança um mote de apoio ao primeiro-ministro, publicado em cartaz de João Abel Manta na capa do Diário de Notícias: “Força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço”.
- O MES promove um comício em Lisboa: Nele, afirma Augusto Mateus: “enquanto vivermos numa sociedade de classes, terá de haver sempre ditadura; nós já escolhemos a ditadura revolucionária do proletariado”.
- “Os trabalhadores [da Sociedade Agrícola D. Dinis, no monte da Ravasqueira, Arraiolos] pedem o imediato saneamento do administrador António Jorge da Fonseca Alcobia, actualmente com residência fixa (...). Acusam-no de se preocupar mais com o seu canil – onde os 70 galgos eram alimentados a leite, carne de burro e toucinho – e com a sua ganadaria, do que com os trabalhadores agrícolas e laranjais”.
GALGO REACCIONÁRIO, LARANJA REVOLUCIONÁRIAA!
Teresa ou Camarada Leandro, como parece que por estas bandas es conhecida,
Ja nao vinha ca ha muito tempo. Admito que so pelos comentarios a este post, animados por uma so alma com tempo disponivel e bom humor ja me ri o suficiente para uma semana!
Fica o lembrete para visita semanal a fim de poupar em psicoterapia fatela.
Beijinhos
C. Emigra
Beijinho
24 de Julho de 1975
- “Formar mais uma vez um Governo com base nas forças políticas que têm estado representadas em anteriores coligações é brincar com os trabalhadores, que ainda ultimamente foram levados, por esses mesmos partidos, a confrontações físicas na rua”.
(Isabel do Carmo, grande dirigente do PRP/BR)
- “A eminência de uma marcha reaccionária sobre Angra do Heroísmo e a quase impune actividade separatista de forças contrárias aos interesses legítimos do povo açoriano levaram à demissão de todas as autoridades civis do distrito autónomo de Angra do Heroísmo”.
(in República)
- “A enorme maioria do povo português detesta o comunismo. É verdade que, segundo Oliveira Martins, também detestava os liberais e amava os caceteiros absolutistas. (...) Mas não foi bem Salazar que instalou este ódio – foi a breve prática comunista destes meses de revolução, as arbitrariedades, prepotência, lavagens à agulheta do cérebro da imprensa, rádio e TV, a instabilidade das leis que se desprezam quando não favorecem os comunistas”.
(Vergílio Ferreira, in Conta Corrente 1)
- Depois de um almoço campestre em que tomaram parte mais de 1500 trabalhadores e elementos da Escola Prática de Artilharia, de Vendas Novas, e algumas praças da GNR local, o povo do Couço marchou sobre seis herdades daquele concelho para proceder à sua ocupação, no cumprimento de determinações emanadas do Instituto de Reorganização Agrária (IRA). O cortejo, constituído por 42 tractores com atrelados, pôs-se em marcha com todos os que nele se incorporaram a cantar poemas revolucionários e ocupou sucessivamente os cerca de seis mil hectares das herdades do Engal, do Esparteiro, das Faias, das Águas Belas, da Aldeia Velha e do Peso. Nesta última, onde chegou já perto da noite, a caravana era esperada por uma comissão de trabalhadores, com a qual confraternizou, dando todos largas à sua alegria.
A TERRA A QUEM A TRABALHAA!
25 de Julho de 1975
- Determinação das punições a aplicar aos funcionários, agentes e responsáveis da ex-PIDE/DGS, estabelecendo-se que deverão ser julgados em tribunal militar – Lei nº 8/75
- Foi libertado o trabalhador rural José Diogo, que assassinou à facada, em Castro Verde, Columbano Monteiro, um proprietário agrícola de 78 anos, que o despedira. Na ausência do réu e do advogado de acusação (Proença de Carvalho), o tribunal de Tomar fixa-lhe uma caução de 50 contos. No exterior, organiza-se um “tribunal popular”, constituído por 20 membros eleitos pela numerosa audiência e que se reúne nas escadarias do edifício. José Diogo, assassino confesso, é absolvido, enquanto “o latifundiário assassinado é condenado postumamente, pela opressão e exploração que exerceu sobre o povo e declarado inimigo do povo alentejano”. A fiança é paga pelo deputado da UDP, Américo Duarte. À noite, José Diogo comparece num comício daquele partido no Campo Pequeno.
- “O camarada José Diogo, desde há um ano vítima das malhas da justiça burguesa, defensora da burguesia e repressora do povo, foi libertado hoje”.
(in República)
SEM PALAVRASS!
26 de Julho de 1975
- “O tribunal popular, democraticamente eleito pelo povo presente, perguntou se alguém se queria constituir em defensor do latifundiário Columbano: porque não apareceu nenhum defensor, foi lida a peça de acusação e depuseram duas testemunhas que explicaram a opressão e exploração de que foram vítimas por parte de Columbano”.
(José Diogo libertado”, in República)
- O plenário da assembleia do MFA centralizou o poder político-militar em três elementos do Conselho da Revolução: Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho. O MDP/CDE diz que estas medidas “são extremamente positivas”, pois “marcam um reforço da autoridade, necessário ao avanço democrático em direcção ao socialismo”.
- O Luta Popular, órgão central do MRPP, vai passar a diário. O jornal, cuja tiragem oscila entre os 60 e os 80 mil exemplares, deverá incluir, nesta nova fase, páginas de economia, de cultura e de política internacional, para o que “foram já estabelecidos contactos com a República Popular da China”. Saldanha Sanches deve manter-se como director.
NINGUÉM CALARÁ A VOZ DA CLASSE OPERÁRIAA!
27 de Julho de 1975
- Eusébio, hoje com 33 anos, decidiu assinar por dois anos com um clube de Boston que lhe pagará três mil contos.
- Vasco Gonçalves encerra o Congresso dos Sindicatos, com um improviso de uma hora. Presentes na Gulbenkian representantes de 200 sindicatos, que saúdam vibrantemente o “companheiro Vasco”, rodeado de numerosos militares gonçalvistas. “O primeiro golpe que demos no capitalismo monopolista do Estado foi a aprovação da unicidade sindical”, afirma. O novo secretariado da Intersindical só integra militantes do PCP; até Manuel Lopes, o militante do MES que presidia à sessão de abertura do congresso, é excluído do órgão.
- Maria Fernanda dos Santos Maia fala, no Jornal de Notícias, da luta de 20 anos da gente do seu bairro por uma casa digna. Participa, juntamente com numerosos activistas de Comissões/Associações de Moradores e das Brigadas Técnicas, no I Encontro SAAL – Norte, que está a decorrer no Centro de Formação Profissional Acelerada, ao Cerco do Porto. “No Bairro do Acácio (São Roque da Lameira) são 52 casas e nenhuma delas tem retrete. Servimo-nos de um balde e vamos despejá-lo à lixeira”, conta, desafiando a história de sucessivos requerimentos à Câmara, que esta “abafava”, mas de que nunca quiseram desistir: “Fomos teimosos. Agora, o terreno está expropriado”. Segue-se a construção de 47 fogos. É verdade que o senhorio “anda com ordens de despejo. Ele ainda não acredita que a exploração acabou”. Fernanda acredita. Mais: tem a certeza. Tanta, como a certeza de que vai ter uma casa. De que todos vão ter uma casa.
A PAZ, O PÃO, HABITAÇÃOO...!
28 de Julho de 1975
- Em entrevista ao órgão central do PC austríaco, Álvaro Cunhal disse que o seu partido não confunde “os objectivos da revolução com os da democracia burguesa” e que a luta dos comunistas portugueses se faz “por um regime caracterizado pelo mais amplo direito às liberdades”. Cunhal aproveita para deixar um aviso: as “forças reaccionárias” pretendem “realizar um golpe de Estado” em Portugal, “alegando o perigo de um suposto golpe que estaria a ser fomentado pelo Partido Comunista”.
- Recentemente “liberto pelo povo” do Hospital Militar Principal, onde estava detido, o secretário-geral do MRPP, Arnaldo Matos, analisa em A Capital a concentração de poderes no triunvirato Gomes, Gonçalves e Otelo. “Em termos de classe”, diz o líder a quem chamam “o grande educador da classe operária”, a decisão de criar um triunvirato significa “que a pequena burguesia democrática (de Melo Antunes a Vasco Lourenço), de que o grande capital se serviu para procurar iludir a classe operária (...), foi empurrada do palco para os bastidores”, pois tornou-se “incómoda” para o “grande capital, imperialista ou social-imperialista”. Há duas possibilidades muito reais, avisa: a de um golpe “fascista e social-fascista” e a de uma “guerra civil, a desencadear, quiçá, brevemente”.
- Otelo é o convidado de honra de Fidel Castro no comício do 22º aniversário da revolução cubana. Único orador estrangeiro, fala em castelhano e em uniforme de campanha: irmãos na humilhação, somos irmãos no combate e seremos irmãos na liberdade...
PÁTRIA OU MORTE, VENCEREMOSS!
E pronto!...
O PREC segue para os arredores de Coimbra, onde, em tribunal popular, se julgará a conduta reaccionária da social-fascista Leandro.
Ploooinnng!
ENA, ENA! OUTRA VEZ UMAS FERIAZINHASS!
29 de Julho de 1975
- “Marteleiros, os famigerados fabricantes de vinho a martelo, intermediários e contrabandistas, actuando, normalmente, na sombra, através da influência exercida sobre seus, são, regra geral, os organizadores das manifestações reaccionárias caracterizadas pela violência, explorando massas populares que durante tantos anos foram sujeitas a uma intensa propaganda anticomunista”.
(“Anticomunismo à solta na Lourinhã e Torres Vedras”, in A Capital)
- Anda agitada a vida política em Sintra. Mais de mil pessoas, escreve A Capital, juntaram-se ontem à noite diante da Câmara, num comício “de repúdio pela manobra contra-revolucionária intentada nomeadamente por industriais da construção civil”, que pretendem a expulsão da “comissão administrativa democrática” e voltar a colocar a autarquia “ao serviço dos exploradores do povo”.
- Fixação das normas a que devem obedecer as expropriações rurais, visando a liquidação do domínio dos grandes agrários – Decreto-lei nº 406-A/75
- Medidas de crédito agrícola às cooperativas de agricultores e unidades colectivas de produção – Decreto-lei nº 406-B/75
NINGUÉM PÁRA A REFORMA AGRÁRIAA!
30 de Julho de 1975
- Extinção das coutadas, consideradas uma fonte de privilégios – Decreto-lei nº 407-C/75
- Foi demitido da função pública o catedrático Soares Martinez. O República chama-lhe “sórdido personagem”, admirador de Salazar, de quem foi ministro da Saúde, e “gorila-mor” da Faculdade de Direito de Lisboa, enquanto “introdutor e solícito anfitrião da última maravilha técnica desenvolvida pela Reforma Veiga Simão – os ‘gorilas’”.
- “Sei que ele era um homem de esquerda e surpreende-me bastante as posições que ele defende neste momento. Tenho de falar com ele para saber se, realmente, está ou não com a social-democracia europeia”.
(Decisor e mentor Otelo, sobre Mário Soares, in A Capital)
- “Por tudo o que vi [durante uma semana, em Cuba], concluo que vale a pena construir o socialismo”.
(Camarada socialista Otelo, à chegada ao aeroporto de Lisboa)
- “Vai-se tornando impossível fazer uma revolução socialista na totalidade pacífica”, disse Otelo a A Capital, usando mais uma vez a imagem do Campo Pequeno para significar a possibilidade de acções repressivas por parte das autoridades militares.
OTELO, ÉS O ORGULHO DA REVOLUÇÃOO!
31 de Julho de 1975
- A cooperativa de Aveiras de Cima ocupou a Herdade do Pombal, alargando assim para 4500 hectares o terreno que os seus 18 trabalhadores exploram neste momento. Um porta voz do IRA disse que “este grupo tem mostrado boas intenções e um certo grau de participação”, mas não deixou de advertir que tanto este organismo como os Conselhos Regionais da Reforma Agrária “não poderão avalizar acções irreflectidas que possam prejudicar os interesses das classes exploradas dos campos”.
- O Jornal de Gaia passou hoje a ser publicado sob a responsabilidade única dos seus trabalhadores. Objectivo: torná-lo um jornal ao serviço do poder popular.
- “O povo açoriano, manipulado pela reacção internacional (com destaque para o imperialismo norte-americano), enferma de um anticomunismo encarniçado e tem do continente ideias em regra totalmente deformadas”.
(“Manipulação do povo açoriano”, in Diário de Notícias)
- Está constituído o Comité Revolucionário dos Estudantes de Direito. O manifesto afirma que, no momento histórico que atravessamos, era necessária e urgente a criação de um órgão estudantil que, “mergulhado profundamente na luta de classes, organizasse e dirigisse o pequeno exército popular constituído pelos estudantes”.
ÀS ARMAS, CAMARADASS!
1 de Agosto de 1975
- Aparece envolto em mistério o afastamento de Jaime Neves do Regimento de Comandos, na sequência de um plenário, ontem, na unidade. O Copcon ratificou a decisão, inédita, ao emitir um comunicado no qual alude à saída do regimento de nove oficiais e quatro sargentos, falando na necessidade de maior disciplina, eficiência e consciência política por parte da unidade.
- “Os novos turistas, de sacos às costas, que vêm ver a revolução, vêem com olhos de ver e auscultam Portugal como os outros não faziam”.
(in O Jornal)
- Diariamente partem de Luanda sete aviões com destino a Lisboa. A Reuters estima em 300 mil os portugueses a evacuar atè à independência. Trata-se, no dizer de um observador, do “maior êxodo de colonos brancos registado em África desde a guerra da Argélia”.
- Silva Cardoso, sub-comissário em Angola, pede a demissão. Alarmado com a guerra civil, o Conselho da Revolução envia uma missão a Luanda. A 5ª Divisão, por seu lado, passa a fazer uma apreciação prévia das notícias das agências sobre Angola.
CENSURA REVOLUCIONÁRIAA!
Ploooinnng!
ENTÃO MAS ISTO NÃO MEXEE?!
2 de Agosto de 1975
- “À esquerda do PCP (que, por outro lado, procura a todo o transe não perder o comboio do movimento de massas, cuja dinâmica o ultrapassa), desde o MES ao MRPP, todas as organizações com uma presença significativa na cena política portuguesa lançam-se hoje no grande salto em frente do poder popular”.
(Vicente Jorge Siva, in Expresso)
- Comentário de Otelo para Jaime Neves, após se ter avistado com os rebeldes do Regimento dos Comandos: “Jaiminho, perdeste a confiança dos teus homens”.
- Durante a semana que passou, foram 421 as operações clínicas adiadas e doentes cujos tratamentos foram atrasados por falta de sangue nos três principais centros urbanos do país.
É SÓ SAÚDEE!
3 de Agosto de 1975
- “Custa-me realmente ver a maneira como parte do povo português, especialmente os colonos e os emigrantes, são agredidos constantemente por determinados órgãos de informação, o que conduz, efectivamente, a um destroçar da sociedade portuguesa. Pois, se for necessário novo golpe, com a finalidade de repor o equilíbrio na actual conjuntura nacional, desde que seja para o bem do povo português, não hesitarei em entrar nele”.
(Jaime Neves, in Jornal de Notícias)
- Sob a ameaça de populares, cerca de 40 militantes do PCP foram evacuados pelo Exército da sede do partido, em Vila Nova de Famalicão. Tudo começou com uma manifestação de trabalhadores da Têxtil Manuel Gonçalves, favoráveis ao regresso do patrão.
- “O povo diz-nos que devemos avançar na conquista do poder”, proclamou-se ontem à noite no Porto, num comício do MRPP que contou com a presença de Arnaldo Matos.
- A Comissão de Moradores da Zona Geográfica de Fanares de Algueirão/Mem Martins, “no sentido de remediar a carência que se faz sentir de salas de aulas para o Ensino Primário, bem como a inexistência de um verdadeiro centro de cultura”, decidiu, em plenário, propor a ocupação da Vivenda Conde, no Largo da Estação, conta o Jornal de Notícias. Aprovada a proposta, procedeu-se à ocupação, “tendo a comissão iniciado as suas realizações de carácter cultural com uma exposição fotográfica sobre a construção do socialismo na China”...
CULTURA POPULARR!
4 de Agosto de 1975
- Álvaro Cunhal disse em Évora que “durante alguns meses a reacção pôs a máscara democrática, escondendo-se atrás de partidos que dizem ser pela revolução. Agora, já mostra a cara”. O dirigente comunista falava num comício junto do templo de Diana. “Depois do 25 de Abril, as forças políticas de esquerda quase que esqueceram os fascistas e eles agora levantam a cabeça”, lamentou Cunhal. Antes, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Manuel Vicente, declarara enfaticamente que, “se a defesa da revolução exige pegar em armas, o povo alentejano estará nas primeiras linhas”.
- Em Beja, durante o I Encontro dos Trabalhadores das Herdades Colectivas e das Cooperativas Agrícolas do Distrito, ouviu-se a voz de um delegado sindical de Ferreira do Alentejo falar igualmente na possibilidade do recurso a armas: “Se eles, os fascistas, têm armas, nós também as temos. Chamam-nos gatunos... Que chamará a gente a esses malandros que nos roubaram durante 48 anos?”
- Com a ajuda da Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas, são ocupadas sete herdades de Mora.
- A Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida por Álvaro Cassuto, dá um concerto ao ar livre no bairro de Benfica, com obras de Joly Braga Santos (Temas sobre um coral alentejano) e Frederico de Freitas (Ribatejo). “Música, uma arma da revolução ao serviço do povo” – lê-se num painel.
MAIS CULTURA POPULAR REVOLUCIONÁRIAA!
5 de Agosto de 1975
- “No Alentejo, se não for um golpe traiçoeiro e de surpresa, a força organizada dos trabalhadores está em condições de dar aos reaccionários os devidos correctivos. Mas no Centro e no Norte a situação é difícil. Muitos centros de trabalho do Partido têm sido assaltados e incendiados. Defender os centros de trabalho do PCP é defender a liberdade de todo o nosso país”.
(Camarada Barreirinhas Cunhal, in Jornal de Notícias)
- O clime de violência política é atestado por um relatório oficial: só entre 29 de Julho e 5 de Agosto houve 25 incidentes, entre os quais dez assaltos a sedes de partidos. Um dos mais recentes é em Famalicão, onde o cerco à sede do PCP causa dois mortos e numerosos feridos.
- “No tribunal de polícia respondeu ontem o motorista X..., acusado de injúrias e tentativa de agressão à autoridade, na sequência da pretensão de fumar dentro de um autocarro do STCP. Avisado pelo condutor sobre a legislação e consequente transgressão que o seu acto implicava, não acatou o aviso, o que originou a intervenção de um agente da PSP. Este foi mal recebido por X..., que retorquiu: ‘agora não há leis e vem esta merda proibir-me de fumar?’ De seguida, proferiu uma sequência de insultos do mesmo jaez, pelo que acabou por ser detido e levado para a esquadra. Ainda aqui, retomou a sua linguagem destravada, apelidando desta feita o Governo Provisório de ‘fantoche’ (além de chamar aos seus membros ‘comunistas’ e ‘bandidos’). Perante o juiz, constatou-se que desconhecia a legislação em vigor, visto ser um deslocado de Angola. O ‘ambiente desfavorável’ foi invocado como atenuante, que contou ainda com a precária situação económica. Assim, acabou por ser condenado em 30 dias de prisão, ficando a pena suspensa pelo prazo de dois anos”.
(“Banco dos Réus”, in Jornal de Notícias)
QUEREMOS LEIS POPULARESS!
6 de Agosto de 1975
- “O Partido Socialista terá de perceber que estamos a fazer uma revolução e deixar de pretender resolver tudo através do eleitoralismo e do parlamentarismo”.
(Grande ideólogo Vasco Lourenço (de Melena e Pá), in Jornal de Notícias)
- O JN e O Século publicam textos de teor editorial sobre o clima de violência em que o país mergulhou e de que são exemplo, nas últimas horas, a destruição das sedes do PCP, MES e FEC, em Santo Tirso; o rebentamento de uma bomba em Lisboa, matando o seu autor; detonação de uma carga explosiva num camião da engenharia do Exército, que participava no melhoramento de estradas em Pinhel; e, esta manhã mesmo, o assalto e queima de documentos nas sedes do PCP e do MES em Bombarral.
- A Assembleia Constituinte arrasa o projecto de Lei de Imprensa do ministro Correia Jesuíno. O documento prevê uma Comissão de Análise dos Meios de Comunicação Social, constituída por seis militares. Finalidade: “ajuizar da existência de práticas condenáveis e aplicar sanções”.
- “Portugal é o laboratório de ensaio da revolução socialista da Europa”, disse Ernest Mandel, dirigente e teórico da IV Internacional (trotskista).
INTERNACIONALIZAR A REVOLUÇÃO DE ABRILL!
7 de Agosto de 1975
- O Jornal Novo saiu à rua com uma terceira edição para o dar a conhecer na íntegra, de modo a satisfazer “a espectativa [sic] do público”. Foi esta tarde entregue ao Presidente da República. Vem dactilografado ainda e é “cacha” jornalística absoluta, apesar de correr nos meios políticos que estava a ser elaborado um documento de alternativa política para os caminhos que a revolução vem trilhando. Trata-se de um desafio frontal, ainda que sem nomes, a Vasco Gonçalves, ao PCP e à esquerda revolucionária. O jornal denomina-o de Documento Melo Antunes, mas em breve ficará conhecido por Documento dos Nove, numa referência ao número dos seus subscritores, todos membros do Conselho da Revolução: Vasco Lourenço, Canto e Castro, Vítor Crespo, Costa Neves, Melo Antunes, Vítor Alves, Franco Charais, Pezarat Correia e Sousa e Castro.
- Chegou-se ao momento “das grandes opções”, escrevem os Nove. O momento de terminar “com as ambiguidades que foram semeadas e progressivamente alimentadas por todos aqueles que, dentro e fora das Forças Armadas, estavam interessados no descrédito de uns tantos, para melhor poderem fazer valer e impor as suas próprias ideias”. O documento assume que, subjacente ao Programa das Forças Armadas, existia “um pensamento de esquerda”, que nele inscreveu “o essencial das propostas políticas que apontavam para um dado modelo de socialismo”. O balanço que faz do período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril é, contudo, muito crítico. Portugal encontra-se “em mais uma encruzilhada da história”. Compete ao MFA, “em completa independência dos partidos políticos, definir um projecto político de transição para o socialismo” que diga não, simultaneamente, à “ditadura burocrática” e ao “anarquismo e populismo”. Para tanto, concluem os Nove, “é necessário reconquistar a confiança dos portugueses, acabando os apelos ao ódio e as incitações à violência e ao ressentimento”. Ora, avisam, uma tal sociedade, baseada na tolerância e na paz e não sujeita “a novos mecanismos de opressão e exploração”, não poderá ser construída “com a actual equipa dirigente, ainda que parcialmente renovada, dada a sua falta de credibilidade e manifesta incapacidade governativa”.
QUEREM MATAR ABRILL!
8 de Agosto de 1975
- “A solução que hoje vos apresento é uma medida transitória, um Governo de passagem, que espero seja a pausa política para, em clima de ordem, disciplina e trabalho, se poder construir algo de mais definitivo. (...) Ninguém é dono da Revolução, ninguém é dono da verdade absoluta: sejamos firmes mas suaves, combativos mas tolerantes nas lutas políticas que traçarão o rumo da Revolução Socialista Portuguesa”.
(Presidente da República Costa Gomes – o “Rolhas” -, no acto de posse do V Governo)
- Correia Jesuíno, reempossado ministro da Comunicação Social, pronunciou-se já, a título pessoal, sobre o Documento dos Nove apontando-o como “uma espécie de pronunciamento que exige um contrapronunciamento”. Este poderá assumir diversas formas: “uma dela é deixar cair no vazio a atitude inglória destes oficiais, outra é a mobilização de massas, outra ainda será a actuação por vias militares”. O Directório pronunciou-se também contra a atitude dos autores do documento, “gravemente perturbadora do processo revolucionário em curso, divisionista” e que “aproveita a escalada reaccionária”. Otelo faz idênticas críticas: “pernicioso para o processo revolucionário em curso e causador de divisionismo entre os militares”.
- A Assembleia aprovou os três primeiros artigos da Constituição. Sem os votos do MDP, que continua sem comparecer em protesto contra palavras de Lopes Cardoso, ontem, e, no segundo e terceiro artigos, do deputado da UDP. Américo Duarte abandonou o hemiciclo depois de o presidente lhe ter desligado o microfone. Antes, recusou-se a retirar a palavra “fascista” com que insistia em dirigir-se ao fundador do CDS, Freitas do Amaral.
ATÉ O MICROFONE É DO POVOO!
Ploooinnng!
QUERIDA DONA DO BLÓGUIO: AMUOU OUTRA VEZ, FOII???
9 de Agosto de 1975
- Logo na tarde da sua tomada de posse, o V Governo decidiu a nacionalização das cervejeiras e da Setenave, a redução do preço dos adubos e a abertura de um crédito especial aos municípios.
- A Assembleia Constituinte aprovou ontem os artigos 6º e 7º da Constituição, este último reconhecendo o direito à insurreição “contra todas as formas de opressão, nomeadamente contra o colonialismo e o imperialismo” e preconizando “laços especiais de amizade e cooperação com os países de língua portuguesa”.
- Desfez-se o Governo de Transição em Angola. O MPLA combate agora em duas frentes: contra a FNLA, cujas forças se encontram às portas de Luanda; e contra a UNITA, que até agora se tinha mantido relativamente equidestante das duas facções em confronto. Ndalatando, Malanje, Henrique de Carvalho, Novo Redondo, Carmona e Negage encontram-se praticamente abandonadas e, dos 15 distritos angolanos, apenas três contam com o respectivo governador. O panorama, escreve o Expresso, é “de guerra total”.
- “Se esta revolução ainda não acabou, então teremos de aceitar que a crise, assim entendida, é ela caminho da revolução e não consequência da revolução”.
(in Diário de Notícias)
A CRISE É CAMINHO DA REVOLUÇÃOO!
10 de Agosto de 1975
- Os nove autores da carta ao Presidente da República sobre a situação política viram as suas funções no Conselho da Revolução suspensas por decisão do Directório. A decisão foi dada a conhecer ao país num brevíssimo comunicado que adianta terem sido os citados oficiais mandados aoresentar nos estados-maiores dos ramos a que pertencem, “para posterior colocação”.
- “Tudo é possível: uma nova ‘fuite en avant’ com o estrangulamento dos restos da liberdade ou a queda do Vasco Gonçalves e dos seus comunistas. No Norte do país, as sedes do Pc foram reduzidas a estilhas. Mortos, alguns. Crise no PC? Possível. Um abrandamento do estalinismo. Entretanto, uma incrível proposta para uma nova Censura”.
(Vergilio Ferreira, in Conta Corrente 1)
- Tiroteio em Luanda entre forças dos três movimentos durou dez horas e obrigou à evacuação dos ministros da FNLA no Governo de Transição.
- Atendendo à gravidade da crise, a UDP faz publicar um comunicado, em que “convoca todos os seus activistas e simpatizantes que estejam de férias (...) para regressarem”.
MOBILIZAÇÃO REVOLUCIONÁRIA DOS VERANEANTESS!
11 de Agosto de 1975
- A Presidência da República só esta manhã recebeu o primeiro telex dando conta de uma insurreição, ontem, em Timor. Elementos da UDT – um dos três partidos timorenses mais importantes do território, defensor da manutenção de laços especiais com Portugal – atacaram o comando da PSP, apoderaram-se de armas e cercaram em seguida o Quartel-General das Forças Armadas Portuguesas.
- “O problema português é este e só este: de um lado, uma minoria, contra a vontade do povo, está a impor à nação o comunismo, onde não têm lugar a pátria independente, nem a religião. Do outro lado, uma esmagadora maioria a dizer ‘não’ a tal comunismo”.
(D. Francisco Maria da Silva, arcebispo de Braga)
- O Diário de Lisboa informa que se registou ontem à noite, em Braga, “uma autêntica batalha campal de que resultaram 28 feridos. A cidade viveu “um dos dias mais negativos da sua história política quando, na sequência de uma manifestação de apoio ao Episcopado, que decorreu sem incidentes, um grupo de manifestantes tentou assaltar a sede local do PCP”. Foi só depois da pacífica manifestação ter terminado que os recontros se iniciaram quando surgiu “uma troca de palavras” entre um grupo de manifestantes que passava diante da sede local do PCP e os militantes que se encontravam à varanda do edifício. “Dois dos manifestantes treparam até à varanda, tendo um deles arriado do mastro a bandeira daquele partido, que foi rasgada e queimada. Entretanto, a porta principal foi rebentada e, nessa altura, as pessoas que estavam dentro da sede fizeram fogo de espingardas caçadeiras”. Uma força militar enviada em reforço do RI 8 foi acolhida pela multidão (calculada em cerca de 2000 pessoas) com gritos de “Abaixo a nova PIDE”. Os soldados lançaram gás lacrimogéneo e dispararam rajadas de metralhadora.
SEMPRE A MESMA IGREJA REACCIONÁRIAA!
12 de Agosto de 1975
- Criação de um Tribunal Militar Revolucionário, para julgar os implicados no golpe contra-revolucionário de 11 de Março – Decreto-lei nº 425/75
- Depois de Braga, Viseu. Ao princípio da madrugada de hoje, conta o Diário de Lisboa, em primeira página, todo o recheio da sede do PCP naquela cidade foi atirado pelas janelas e queimado. Doze feridos na sequência de disparos, cuja origem não foi de imediato apurada. As destruições prolongar-se-ão por longas horas, atingindo sete sedes partidárias, sindicatos e duas lojas de simpatizantes do PCP.
- O Presidente Costa Gomes recebeu a terceira carta aberta em menos de uma semana de uma alta figura da actualidade política portuguesa. Comandante da Academia Militar e membro do Conselho da Revolução, Pinto Soares decidiu demitir-se de ambos os cargos. Faltam “serenidade, unidade e autoridade” no Conselho da Revolução, queixa-se o general.
- O regresso dos refugiados volta à primeira página, com o Diário de Lisboa a escrever que começou “uma verdadeira ponte aérea” entre Luanda e a capital portuguesa. Quem desembarca “é uma gente diferente da que chegou primeiro, com recheios de casa e automóveis de luxo atrás de si”, nota a reportagem. O IARN está a procurar resolver-lhes os problemas mais imediatos: leite para as crianças, primeira refeição em terra, alojamento precário nas instalações do Inatel, que está cheio, ou da Quinta da Graça, na Linha do Estoril, onde passaram a ser colocados os que não têm parentes em Lisboa, e um subsídio de desemprego, já prometido pelo Governo. Aos que nada têm, acrescenta o jornal, “dá-se 20, 50 ou 100 escudos para as primeiras despesas”. Quando o repórter lhes perguntou quem eram, os próprios identificaram-se da seguinte forma: “Somos cidades inteiras! Somos gente que trabalhava no comércio, na agricultura, em oficinas, funcionários de toda a espécie”.
- O Diário de Notícias publica a intervenção de Vasco Gonçalves na última assembleia do MFA. “Uma importante alocução sobre a dinâmica revolucionária do processo português”, é como o matutino apresenta o texto, considerado “o retrato de um verdadeiro revolucionário”. Numa alusão clara às declarações de Otelo sobre o Campo Pequeno, Vasco Gonçalves dá o exemplo da Frelimo, “que não cortou o pescoço à Joana Simeão: mandou-a para um campo de trabalho, que é o que a gente precisa de fazer aí a uma quantidade de gente. Não é mandá-los para as prisões, mas é mandá-los para um campo de trabalho”.
CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO, JÁÁ!
13 de Agosto de 1975
- O primeiro-ministro da Dinamarca, Joergensen, foi impedido de entrar na Lisnave.
- O Governo decidiu a nacionalização do que resta da CUF, a criação de uma junta regional para os Açores, a declaração da imprensa diária dependente do Estado como sector em crise e a transformação da agência noticiosa ANI em ANOP.
- Também o Copcon vem a terreiro apresentar um programa para salvar a revolução. O documento intitula-se “Autocrítica revolucionária do Copcon / Proposta de trabalho para um programa político”. Assina-o “um grupo de oficiais” ligados àquela estrutura militar dirigida por Otelo Saraiva de Carvalho. No resumo que dele faz, o Diário de Lisboa apresenta-o como uma recusa simultânea, “firme e total, ao fascismo, à social democracia [!!!] e ao capitalismo de Estado, que considera formas exploradoras contra a emancipação dos trabalhadores”. O documento defende a constituição de organismos de poder dos trabalhadores – desde conselhos de aldeias, de fábricas e de bairro até uma assembleia nacional popular e sustenta que Portugal deve cessar com a sujeição à CEE e à EFTA, enveredando por uma política económica de verdadeira independência nacional.
- Alguns excertos do documento do Copcon atrás citado: “Como pode um projecto denominar-se de esquerda, quando escamoteia o papel das massas e recusa a acção das suas vanguardas?”; “Será mantendo nas mãos dos burgueses a posse dos meios de produção que estes serão postos ao serviço do povo?”; “Historicamente está demonstrado que personalidades moderadas que pretendem despoletar acções violentas do fascismo por meio de posições conciliatórias são as suas primeiras vítimas, ou noutros casos se transformam nos opressores das massas que pretendem libertar”.
VANGUARDA POPULARR!
14 de Agosto de 1975
- Na Assembleia Constituinte, o general Galvão de Melo, deputado pelo CDS, apresenta um requerimento para que se esclareça se o deputado da UDP, Américo Duarte, “foi ou não informador da PIDE/DGS”.
- Fixação em 45 horas do limite máximo do horário semanal de trabalho na Função Pública – Despacho do ministro da Administração Interna
- O Conselho de Minsitros decide avançar com a barragem do Alqueva. Promete 13 milhões de contos, 31 mil empregos e uma produção agrícola dez vezes superior.
- Pertencente à família Vacas de Carvalho, a herdade da Lobeira, em Montemor-o-Novo, de 1400 hectares, é ocupada à margem da lei da Reforma Agrária. O Copcon ordena a desocupação, sem sucesso.
- “Temos três revoluções à escolha. A revolução Vasco Gonçalves. A revolução Melo Antunes. A revolução Isabel do Carmo. Receia-se é que sejamos um país pequeno demais para tanta revolução junta”.
(Artur Portela Filho, in Jornal Novo)
REVOLUÇÕES PARA TODOS OS GOSTOSS!
15 de Agosto de 1975
- “Os trabalhadores em laboração no Diário de Notícias tomaram conhecimento, ontem à noite, de um documento assinado por um pequeno grupo de provocadores infiltrados na empresa, os quais se apresentam como apartidários. Trata-se de um miserável pasquim elaborado nas costas dos trabalhadores e posto a circular no exterior antes do plenário da empresa ter oportunidade de o apreciar e discutir”.
(“Aviso aos leitores”, in Diário de Notícias)
- Ao contrário de uma tendência que se detecta nas intervenções públicas das vozes que provêm do sector político onde se movimenta, Eduardo Prado Coelho acha que já não basta “propor o combate à reacção e o reforço da unidade antifascista”. É preciso “uma frente de unidade popular real, em tornos dos objectivos de uma democracia avançada e, mais tarde, do socialismo”.
- “A TAP está a preparar uma ponte aérea entre Angola e Portugal que fará chegar a Lisboa, até Outubro, 300 mil portugueses”.
(in Expresso)
- A “socialização do cinema português”, prevista num documento da Direcção-Geral de Espectáculos, está a sofrer a contestação de cineastas, que interpretam os termos em que vão ser criadas unidades de produção cinematográfica como tendentes a “reforçar a vocação centralista e controlista do Ministério da Comunicação Social”.
ANIMATÓGRAFO SOCIALISTAA!
16 de Agosto de 1975
- Degrada-se a situação em Timor, informa um telegrama da Reuters. O comandante da PSP de Dili, Maggiolo Gouveia, aderiu à UDT, diz um comunicado oficial, enquanto refugiados falavam, à chegada a Darwin, na Austrália, na existência de vários mortos nos recontros entre a UDT e a Fretilin.
- A Comissão Coordenadora do Programa do MFA em Angola informa que no Lobito há “muitos mortos e feridos” e mais de mil refugiados no quartel português, em consequência de combates com armas pesadas entre os três movimentos.
- Refugiados que chegaram a Windoeck, no Sudoeste Africano, disseram que o Exército português se recusou a escoltar um comboio de 2000 veículos através de fracções nacionalistas em disputa no sul de Angola. O comboio encontra-se neste momento estacionado num campo militar em Sá da Bandeira, preparando-se para uma viagem de mais de 3000 quilómetros até àquela cidade. Muitos dos refugiados chegam apenas com a roupa que trazem no corpo e estão a ser instalados em campos de trânsito organizados pelo Governo sul-africano, que administra o Sudoeste Africano.
- “Decerto, Excia. Revª, o País não quer ser colonizado nem cultural nem ideologicamente. Decerto, Excia. Revª, o País não quer ser violado na sua consciência religiosa ou cívica de séculos. Mas o País quer ainda menos que lho digam homens da Igreja cúmplices de abominações passadas que nunca os indignaram, bispos-políticos no mais desprezível sentido do termo, prontos a suscitar e presidir a novos autos-de-fé como aqueles que com sua benção ostensiva acabam de ter lugar no coração desse Minho de que Vossa Excia. Revª é o pastor fanático e contra-revolucionário”.
(Ideólogo e grande democrata Eduardo Lourenço, in Jornal Novo)
BISPALHADA REACCIONÁRIAA!
17 de Agosto de 1975
- Uma nota da Direcção-Geral de Saúde confirma um surto de cólera detectado no Norte mas garante que “está estabelecido um rigoroso serviço de ‘surveillance’ (sic)”.
- Em Jacarta, por onde já passou um emissário do Governo português, a caminho de Dili, o Presidente Suharto declarou que no seu país “a porta está aberta para a fusão do Timor Português com a Indonésia, se o povo timorense assim o quiser”.
- Registaram-se mais de 20 feridos em Alcobaça, na sequência de tiroteio que interrompeu um comício do PCP, presidido por Álvaro Cunhal. Centenas de pessoas que se concentravam junto do pavilhão onde decorria o comício começaram a apedrejar as janelas do edifício, partindo os vidros e danificando também automóveis estacionados nas proximidades, ao mesmo tempo que dirigiam frases contra o comício. O Jornal de Notícias informa que “a certa altura gerou-se uma situação confusa, tendo sido disparados numerosos tiros que atingiram algumas pessoas”. A PSP solicitou a presença de militares do RI7, de Leiria, e do RI5, das Caldas da Rainha. “Quanto aos participantes no comício, continuavam no pavilhão, nesta altura cercado pelos manifestantes, postados junto das barricadas que levantaram e de fogueiras feitas em vários pontos”.
DEIXEM OS CAMARADAS EM PAZZ!
18 de Agosto de 1975
- “Tem nas suas garagens da Quinta (...) de requintes palaciais (onde só come em baixelas e copos de cristal): 1 Rolls Royce, 1 Jaguar M10, um Jaguar E, 1 Mercedes 220, 1 Austin 1275 e 1 carrinha Mercedes. (...) Ausentou-se em segredo (...) para o Brasil e só voltou depois de o resultado das eleições não ser tão mau como pensava”.
(Comunicado da Comissão de Trabalhadores de uma empresa de Cascais, in Diário de Notícias)
- Frases de um cartaz afixado em várias cidades do país, representando Vasco Gonçalves abraçado a um operário com uma forquilha na mão e a um camponês armado: MFA, VASCO, POVO / POVO, VASCO, MFA / Força, força companheiro Vasco / Nós seremos a muralha d’aço.
- Vasco Gonçalves discursa numa escola de Almada, com transmissão em directo pela RTP e principais rádios. O primeiro-ministro é recebido em delírio pela multidão, que entoa o ‘slogan’ “companheiro Vasco”. Algumas frases célebres: “Em toda a nossa história houve sempre portugueses que, por espírito mesquinho de classe, estiveram de cócoras diante do estrangeiro”; “A libertinagem impera em certa imprensa que roça hoje quase pela obscenidade”. Ao Expresso chama de “pasquim”. A sessão termina com Vasco – “banhado em lágrimas”, como nota o Diário de Lisboa – a lançar cravos para a assistência.
O POVO AMA VASCO, O LOUCOO!
Ploooinnng!
JÁ NEM O PREC AQUI VEM! AO QUE ISTO CHEGOUU!!
19 de Agosto de 1975
- “O Documento dos 30, compilado nas costas dos trabalhadores desta empresa, e que mais não visa do que criar no seio da mesma a divisão, a confusão e a anarquia, lançado ardilosamente no momento em que o país tenta combater a reacção nazista, fascista e social-democrata, que se tem lançado desesperadamente ao ataque sob a capa de socialistas, vieram [sic] de uma vez por todas tirar dúvidas (se é que ainda existiam) de que os saneamentos não são selvagens quando indivíduos calaceiros, bêbados e oportunistas se arvoram em pseudo-revolucionários e arautos da liberdade”.
(in Proposta de Saneamento de 30 Redactores do Diário de Notícias)
- Lavradores de toda a ilha Terceira aprovaram moções exigindo a transferência para fora dos Açores de vários militantes do PCP “e seus satélites”, incluindo um padre e numerosos militares, entre os quais seis oficiais.
- Um assalto à sede do PCP, em Ponte de Lima, provocou um morto e uma centena de feridos. O ataque começou no princípio da tarde de ontem, dia de feira na vila, terminando em verdadeira batalha campal.
- Criação da Secretaria de Estado para a Cooperação Económica com os Países Socialistas – Decreto-lei nº 444-A/75
COOPERAÇÃO INTERNACIONAL SOCIALISTAA!
20 de Agosto de 1975
- UNITA e FNLA atacaram tropas portuguesas no Luso.
- O V Governo decidiu devolver os terrenos baldios às comunidades que deles foram desapossadas no anterior regime.
- Metalúrgicos, têxteis, rodoviários, J. Pimenta, Mague, Cel Cat, Sorefame, Siderurgia, Lisnave, O Século encontram-se entre os sectores e empresas que ofereceram adesão máxima à paralisação de meia hora contra a “violência fascista”, pedida pela Intersidical para ontem. O Século nota, citando dirigentes sindicais em conferência de imprensa, que pela primeira vez em Portugal houve uma jornada de luta por iniciativa da central única dos trabalhadores, o que prova “que as massas trabalhadoras não estão adormecidas” e mostra que “há força para abolir a sociedade de classes”.
- No final da conferência de imprensa, um pouco mais de um milhar de manifestantes afectos ao MRPP – entre os quais se viam “membros da lista B do Sindicato dos Jornalistas e da lista A dos Bancários, alguns membros do Sindicato dos Estivadores e de, pelo menos, uma comissão de moradores” – manifestaram-se contra a iniciativa, apedrejando a sede da Inter, na rua Vítor Córdon. Remate da notícia, em O Século: “Se vieram apedrejar a Intersindical, é sinal que foi grande o êxito da paralisação contra o fascismo”.
PARALISEMOS TAMBÉM O FASCISMOO!
21 de Agosto de 1975
- Há guerra civil em Timor, informam de Macau, por onde estão a ser canalizadas as informações das autoridades militares portuguesas naquele território.
- Nacionalização da Companhia Nacional de Petroquímica – Decreto-lei nº 453/75
- Procede-se à tomada de posse de um grupo de secretários de Estado. Pela primeira vez, um operário entra num governo, como secretário da Segurança Social: Armando Teixeira da Silva (futuro líder da Intersindical).
- “Nunca teve o povo português um Governo tão revolucionário e tão coeso”.
(Companheiro Vasco, na tomada de posse dos secretários de Estado)
- “Não há tempo a perder. Dividem-se, fragmentam-se e opõem-se entre si forças que têm estado com o processo. O MFA está enfraquecido e a sua própria existência corre perigo. Única saída: uma séria e imediata tentativa de diálogo e entendimento, tanto no MFA como no movimento popular e democrático, conduzindo a uma ampla e poderosa frente popular, democrática, socialista”.
(Camarada Barreirinhas Cunhal, em conferência de imprensa)
FRENTE POPULARR!
22 de Agosto de 1975
- “Não tenho dúvidas de que o Belenenses está em consonância com a revolução e considera que, acima de tudo, é ao serviço de um Portugal efectivamente socialista (e não social-democrata) que pensa e organiza todas as suas actividades. Não, a contra-revolução não entrará no nosso país através do Belenenses...”.
(Manuel Sérgio, vice-presidente do Clube de Futebol “Os Belenenses”, in O Século)
- Suspensão transitória da vigência do Acordo de Alvor, assinado em 15 de Janeiro com a FNLA, o MPLA e a UNITA – Decreto-lei nº 458-A/75
- A comissão de inquérito aos acontecimentos de 11 de Março não encontrou “quaisquer indícios que permitam supor que o tenente-coronel de infantaria António Ramalho Eanes estivesse ligado ao golpe contra-revolucionário do 11 de Março de 1975”. Suspeitas levantadas na noite a seguir ao golpe levaram Eanes a demitir-se da presidência da RTP exigindo um inquérito ao seu comportamento. Os trabalhadores da empresa que na altura lhe manifestaram claro apoio emitiram agora um comunicado congratulando-se com o resultado do inquérito, ainda que lamentem “a demora registada na reparação devida ao íntegro e exemplaríssimo oficial progressista das Forças Armadas”.
EANES, O PROGRESSISTAA!
23 de Agosto de 1975
- Suspensão dos órgãos sociais da empresa Têxtil Manuel Gonçalves – Resolução da Presidência do Conselho de Ministros
- O Conselho de Ministros, ontem reunido, aboliu o exame de aptidão ao Ensino Superior, substituindo-o pelo Serviço Cívico. Segundo o diploma legal que passa a regular o acesso ao Ensino Superior, os candidatos terão um “ano de orientação”, durante o qual tomarão contacto “com a realidade sociocultural do País”, de modo a ficarem motivados “civicamente para a resolução dos grandes problemas nacionais”.
- “Percorremos juntos e com muita amizade um curto-longo caminho da nossa história. Agora, companheiro, separamo-nos. Julgo estar dentro da realidade correcta deste país e assim proceder. Como dizia Mao – citando os clássicos... – um revolucionário deve estar sempre com as maiorias populares. Só com elas poderemos caminhar em frente na revolução, que é e se quer nacional”. [...] Peço-lhe que descanse, repouse, serene, medite e leia. Bem necessita de um repouso muito prolongado e bem merecido pelo que esta maratona da Revolução de si exigiu até hoje. Pelo seu patriotismo, a sua abnegação, o seu espírito de sacrifício e de revolucionário”.
(Carta do ideólogo Otelo ao louco Vasco)
NÃO VÁS, VASCOO!
24 de Agosto de 1975
- “Ao fim da tarde ontem continuava ‘guardado à vista’, no Largo de São Sebastião, na Charneca do Lumiar, um autocarro da Carris que a comissão de moradores daquela área resolveu tomar como ‘refém’, na tarde de sexta-feira, até que a empresa resolva estabelecer carreiras de transportes colectivos de superfície para aquela zona, a fim de servir os respectivos moradores”.
(in O Primeiro de Janeiro)
- A sessão decorre no anfiteatro das Belas Artes, no Porto, e junta as Intercomissões de Trabalhadores da Zona Norte. Presentes 24 comissões. As divergências estalam logo no momento da leitura do expediente, quando o Secretariado recorda a sua posição de repúdio pela recente greve de meia hora, determinada pela posição “ridícula” assumida pela Intersindical e a solidariedade que tinha manifestado ao Conselho Revolucionário dos Moradores do Porto, dado que este considera o brigadeiro Corvacho um defensor das organizações populares. Seguem-se excertos de um relato jornalístico: “O primeiro interveniente considerou que as Comissões de Trabalhadores ‘não devem estar atreladas nem a partidos nem a facções da burguesia, que digladiam [sic]’. Um outro orador manifestou estar em desacordo ‘que o social-fascismo fosse o principal inimigo, mas sim o fascismo’. Um outro elemento afirmou que a classe operária deve ser autónoma e que o principal inimigo a combater é o imperialismo, enquanto outro entende que é o social-imperialismo. O descontentamento das massas populares tem sido aproveitado pela direita e, portanto, deveria ser dada uma alternativa às massas ‘combatendo o social-fascismo, mas de maneira a que o fascismo não se aproveite’ – eis o teor de outra intervenção. ‘O social-fascismo russo está a entrar, enquanto o imperialismo americano já cá está. Pois é necessário combater o americano e não deixar entrar o russo’, defendeu o orador seguinte. [...] E, dentro disto, o tempo passou-se. Ao fim de duas horas, já quando havia gente que abandonara a sala, foi posta à assembleia a primeira votação, sendo ratificada a moção na qual o Secretariado das Intercomissões de Trabalhadores dava a sua solidariedade ao Conselho Revolucionário dos Moradores do Porto, que defende a posição do brigadeiro Corvacho (...)”.
ESTOU ESCLARECIDOO!
25 de Agosto de 1975
- Saiu o primeiro número do jornal A Luta, dirigida por Raul Rego.
- A Frente de Unidade Revolucionária (FUR) nasce numa reunião em que paricipam responsáveis da 5ª Divisão e do Copcon. É formado um secretariado e convocada uma manifestação. Com a “benção” de Vasco Gonçalves, a ela aderem a LCI, LUAR, FSP, MDP, MES, PCP, PRP/BR e 1º de Maio.
- Continuam a chegar notícias preocupantes de Timor e de Angola. “Centenas de mortos nas ruas de Dili” e “Portugueses sitiados em Nova Lisboa”, titula A Capital em primeira página.
- Foi destruída a sede do MDP e atirados cocktails Molotov contra a sede do PCP em Leiria, horas depois de uma manifestação que reuniu 25 mil católicos nas ruas da cidade. Em Évora 50 mil pessoas participaram num comício entusiástico presidido, por coincidência, pelas duas figuras de maior destaque nos dois partidos cujas sedes sofreram ataques em Leiria – José Manuel Tengarrinha, do MDP/CDE, e Álvaro Cunhal, do PCP.
- “Quanto ao primeiro Comunicado, foi dada ordem às 19.15 (...) para se obter a suspensão da sua leitura e a de comentários sobre o seu conteúdo; (...) Quanto ao segundo Comunicado, determina-se a sua nulidade, pois foi redigido e publicado sem seu conhecimento”.
(3º Comunicado do Presidente da República)
DESCOMUNIQUE-SEE!
26 de Agosto de 1975
- Mensagem de Lemos Pires, governador e comandante militar de Timor, recebida ontem em Macau: “Só poderei aguentar-me até amanhã. Depois não sei”.
- O Conselho da Revolução suspendeu as actividades da 5ª Divisão e mandou reintegrar o brigadeiro Corvacho no comando da Região Militar Norte. As medidas surgem no meio de especulação sobre a substituição iminente de Vasco Gonçalves. Dizem vários jornais que será pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, Carlos Fabião.
- “Tal como tem existido, o MFA não pode nem deve ser considerado como uma força revolucionária”, sustenta a organização trotsquista LCI. E explica: “Não só porque possui no seu seio numerosos oficiais de direita e sociais-democratas, como Jaime Neves e Melo Antunes, e elementos que se inclinam para a conciliação entre estes últimos, como Otelo, mas também porque, dado o papel político que tem desempenhado, permitiu à burguesia ganhar tempo e adiou os conflitos decisivos entre as classes”.
- Não passaram ainda 24 horas e já a organização 1º de Maio rompeu com a frente de oito partidos que constitui a Fente de Unidade Revolucionária. “A frente proposta e a plataforma acordada pelas oito organizações não preenche as condições mínimas para a condução correcta do processo revolucionário”, informa, em comunicado. E mais: “a plataforma, em lugar de pôr o PCP a reboque dos revolucionários, pôs os revolucionários a reboque do PCP”.
DIVISIONISMO REVOLUCIONÁRIOO!
27 de Agosto de 1975
- Há uma vaga de incêndios no país, com Mortágua ameaçada pelas chamas, esta madrugada. Ao mesmo tempo, registam-se restrições ao consumo de água, que em Évora não pode excederos 15 m3 por consumidor.
- O governador Lemos Pires abandonou Dili. O gabinete do coronel português, acompanhado por uma companhia reforçada de pára-quedistas e por 27 elementos da Marinha, num total de 104 homens, instalou-se na ilha de Ataúro, que fica a cerca de 20 quilómetros de distância.
- O V Governo aprova um diploma sobre o “controlo organizado da produção pelos trabalhadores”.
- Os soldados do Regimento de Polícia Militar não embarcarão para Angola. A decisão foi tomada ontem, em plenário de unidade, por unanimidade e aclamação. Elementos das companhias mobilizadas para aquele território vão organizar agora a recusa colectiva aos embarques, quer naquele quartel quer noutras unidades. Fundamentando a posição, os militares dizem que a continuação dos embarques “não é mais do que a continuação da guerra sob a capa do neocolonialismo”; que “não compete aos soldados, filhos do povo de Portugal, combater, morrer e matar em Angola, quer ao serviço do imperialismo americano quer do social-imperialismo russo”; e que a única forma de demonstrar ao povo angolano o internacionalismo proletário dos soldados é os soldados fazerem “a Revolução em Portugal”.
VIVAM OS REFRACTÁRIOSS!
28 de Agosto de 1975
- Costa Gomes conheceu ontem uma experiência inédita e caricata desde o 25 de Abril: discursando perante dezenas de milhar de manifestantes da Frente, a que se começa a chamar FUR, foi alvo de vaias da multidão, donde se erguia frequentemente a palavra de ordem: “Abaixo a social-democracia”. As vaias ao Presidente contrastavam com o apoio caloroso e inequívoco a Vasco Gonçalves , que disse estar a revolução, hoje, em Portugal, a correr “graves perigos”.
- “No decorrer do plenários [nas instalações do Diário de Notícias], foi proposto pela Comissão de Inquérito e sobretudo por alguns dos signatários do ‘documento’ [dos trinta redactores do jornal críticos da direcção] que a votação se processasse por meio de ‘voto secreto’. Afirmava-se que, deste modo, as pessoas estariam libertas de eventuais pressões externas ou do companheiro do lado. A assembleia, chamada a pronunciar-se, decidiu-se pelo processo de ‘braço no ar’, sempre utilizado em plenários anteriores, considerando assim que, sendo esta uma situação grave, importava vinculá-la a um compromisso revolucionário”.
(“Voto de braço no ar”, in Diário de Notícias)
- O plenário de trabalhadores da Empresa Nacional de Publicidade, proprietária do Diário de Notícias, saneou 22 dos 30 redactores signatários do documento crítico da orientação ideológica imprimida pela actual direcção ao matutino. A proposta de saneamento, aprovada “pela esmagadora maioria dos trabalhadores presentes no plenário” (192, num total de 1400 trabalhadores da empresa), decidiu o afastamento dos 22 redactores, “sem quaisquer indemnizações”, acusando-os de serem “os principais responsáveis no empolamento exterior de um caso que diz respeito a todos os trabalhadores” da empresa.
SANEAMENTOS DEMOCRÁTICOSS!
29 de Agosto de 1975
- Ultrapassa os dois milhares, o número de mortos em Timor, segundo o testemunho de refugiados que continuam a chegar ao Norte da Austrália.
- “Portugal está a arder”, escreve Urbano Tavares Rodrigues em O Século. “É, por um lado, o asalto sistemático (e, às vezes, vergonhosamente tolerado por quem se lhe devia opor com verdadeira firmeza) às sedes dos partidos progressistas, em especial do PCP, do MDP, do MES. Por outro lado, há os incêndios nas florestas, a destruição do equilíbrio ecológico, a política da terra queimada, criminosamente levada a cabo pelos reaccionários desapossados de alguns (ou de muitos) privilégios”.
- Vasco Gonçalves aceitou, esta madrugada, abandonar o cargo de primeiro-ministro. Pinheiro de Azevedo foi a personalidade escolhida para o substituir. Apesar das ameaças de “forças reaccionárias que encontram aceitação nas Forças Armadas e na chefia de certos partidos esquerdistas, não há lugar para uma democracia burguesa em Portugal”, declara Vasco ao Le Monde, horas antes da sua despedida do Governo e da sua nomeação para chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas.
QUE SAUDADES, VASCOO!
30 de Agosto de 1975
- Nacionalização da indústria cervejeira – Decreto-lei nº 474/75
- Em jogo realizado anteontem, em Jacarta, o Benfica empatou a zero com a selecção de futebol da Indonésia.
- “Ninguém compre o Diário de Notícias”, apelou a assembleia-geral do Sindicato de Jornalistas, em apoio aos redactores saneados daquele jornal, por terem denunciado a censura “social-fascista exercida pela administração e cúpulas da redacção”.
- Em Luanda, realiza-se o primeiro julgamento popular de um grupo de combatentes do MPLA, acusados de terem assassinado 13 civis desarmados. Uma multidão ratifica o pedido de fuzilamento dos assassinos, cuja execução é imediata.
DEMOCRACIAS AFRICANASS!
Retiro-me, a banhos, cheio de saudades e profundamente abalado com a partida do companheiro Vasco...
Ploooinnng!
VAI, VAI! E NÃO VOLTESS!
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