Do nosso grupo, só a Clara, o Duarte e eu tivemos o privilégio de ser alunos da Dr.ª Maria Antónia Borges, notável professora de História. Posso dizer-vos que arrancou uma turma de sexto ano da letargia que tinha sido aquele professor ainda menos que medíocre para uma turma de sétimo ano empenhada e entusiasmada. O programa desse nosso último ano no Liceu era composto por temas obrigatórios e temas de opção, essses democraticamente votados. Dos obrigatórios só consigo lembrar-me do Renascimento, dos de opção diria que consigo lembrar todos, ou quase todos: A Crise de 1383-1385, Os Descobrimentos, A Inquisição, As Lutas Liberais.
A Dr.ª Maria Antónia, senhora austera, achava-nos, apesar de tudo, alguma graça ao Duarte e a mim. Porque éramos bons alunos e porque adorávamos História, e adorávamos as suas aulas. Mas também éramos muito tontos e muito novinhos, e ela não tinha a mínima paciência para as nossas parvoíces. Como foi a parvoíce da aliança. Algures no terceiro período, o Duarte e eu usávamos alianças de prata, muito simples, muito finas, a testemunhar que o nosso namoro já durava havia coisa de um ano (um prodígio, naqueles tempos), alianças que até tinham gravada no interior a data de início do nosso namoro. Uma vez por semana a nossa aula com a Dr.ª Maria Antónia era no Gabinete de História, aquela sala de canto no Pátio Sul. E o Duarte fazia da aliança um pião, e eu seguia-o, também a brincar com a minha, a ver quem conseguia fazer rodopiar mais aquele estreito aro de prata. Até ao dia em que a Dr.ª Maria Antónia perdeu a paciência connosco: «Vocês dois querem parar com esse rodopio de alianças de namoro e concentrar-se na minha aula?» Devemos ter ficado de todas as cores, adorávamos a senhora, a última coisa que quereríamos teria sido faltar-lhe ao respeito. As alianças voltaram aos dedinhos de origem, e mantiveram-se quietas.
E depois houve aquele dia em que, mais uma vez naquela sala em que tínhamos aula uma vez por semana, a matéria eram as Lutas Liberais, um dos tais temas de opção.
A Dr.ª Maria Antónia foi debitando informação, contou-nos do casamento programado entre D. Maria da Glória, a futura D. Maria II, com seu tio D. Miguel, tinha ela apenas sete anos.
Um enorme «oh!!!» horrorizado da turma inteira. E depois, de repente, cá do fundo da sala, a voz do Duarte: «Mas tinha corpo de oito!»
Mesmo naquela turma chatíssima que tínhamos, foi um enorme coro de gargalhadas. E a Dr.ª Maria Antónia riu como uma perdida, garanto. Lembro-me do seu aprovador (logo ela, senhora tão severa!) «tiveste muita graça» para o Duarte


2 comentários:
Esse nome não me é estranho. Não era uma senhora forte, alta, muito séria?
É que no 1. ano tive uma professora de História que foi responsável pela minha paixão por Jorge Amado.
Sim, era uma senhora muito séria.
Tens aqui uma fotografia dela do tempo do Liceu, tirada no último dia do 7.º ano. Reconheces?
http://tagideseadamastores.blogspot.pt/2007/06/o-ltimo-dia-no-liceu-17-de-junho-de.html
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